
Por Rollo — criado em sala de aula sem ar-condicionado, formado na universidade do ônibus lotado e vacinado contra a turma que jurava que nunca usaria matemática porque tinha uma calculadora.
A adolescência é uma fase extraordinária da vida. Não porque seja fácil, mas porque é provavelmente o único período em que alguém consegue ouvir uma explicação útil, gratuita e potencialmente transformadora e concluir que aquilo jamais terá qualquer serventia. É uma confiança impressionante. Aos quinze anos, a pessoa mal sabe o que vai almoçar no dia seguinte, mas tem absoluta certeza de que determinado conhecimento nunca será utilizado. Anos depois, a vida, que possui um senso de humor particularmente cruel, costuma organizar uma sequência de situações dedicadas exclusivamente a provar o contrário. E faz isso sem prova de recuperação, sem trabalho extra e sem a menor preocupação com a sua nota final.
Existe uma mentira que atravessa gerações com a mesma velocidade de uma cola passada por baixo da carteira durante uma prova: “Eu nunca vou usar isso na vida.” Todo estudante já disse isso pelo menos uma vez. Normalmente cinco minutos antes de descobrir que passaria o resto da existência usando exatamente aquilo. A professora de Física explicava que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo. Você estava no fundão desenhando guitarra, escrevendo bilhetinho ou planejando matar aula para ir ao cinema do shopping. Anos depois, chega a vida adulta. O metrô para. A porta abre. Seis pessoas tentam sair. Doze tentam entrar. Ninguém consegue. E, de repente, Sir Isaac Newton surge, espiritualmente dentro da estação, gritando pelos alto-falantes: — EU AVISEI! A aula estava certa. Os corpos continuam não ocupando o mesmo lugar. O problema é que o brasileiro insiste em tentar.
A Matemática também sofreu injustiças históricas. “Professor, quando vou usar regra de três?” Todo mundo perguntava. A resposta era simples: todos os dias. Você usa regra de três para dividir a conta do bar. Para descobrir quantos quilômetros o carro faz por litro. Para calcular desconto. Para saber se o salário dura até o fim do mês. Aliás, a vida adulta inteira é uma gigantesca regra de três tentando sobreviver à inflação gerada pelo mercado ávido por lucrar.
Já a porcentagem merece um pedido coletivo de desculpas. Metade do país passou a adolescência reclamando dela. A outra metade passou a vida adulta sendo enganada por ela. “Promoção imperdível! 70% de desconto!” Você entra feliz. Sai com três parcelas, um carnê e a sensação de que financiou a expansão do comércio mundial. Se tivesse prestado atenção na aula, talvez descobrisse que alguns descontos são tão verdadeiros quanto promessa de político de direita em ano eleitoral.
A Química também não teve o reconhecimento que merecia. Lembra quando a professora falava sobre misturas homogêneas e heterogêneas? Você achava inútil. Hoje sabe exatamente a diferença. Homogênea é o café quando o açúcar dissolve. Heterogênea é o grupo da família no WhatsApp discutindo política. A Química também explicou reações. Misture água sanitária com determinados produtos e dá problema. Misture futebol, cerveja e comentário político no churrasco e também. A ciência sempre esteve tentando salvar vidas
E já que estamos falando de Química, vale lembrar daquela velha conhecida pendurada na parede da sala de aula: a Tabela Periódica. Na época, parecia um álbum de figurinhas de elementos com nomes estranhos que jamais serviriam para nada. Lítio, neodímio, cobalto, terras raras… quem precisava decorar aquilo? Pois bem. Décadas depois, descobrimos que o celular no bolso, o carro elétrico, o computador, os satélites, os painéis solares e boa parte da disputa geopolítica do século XXI giram justamente em torno daqueles quadradinhos coloridos. Como vimos no meu artigo sobre as terras raras, o mundo moderno não funciona apenas com aplicativos e telas brilhantes: ele funciona porque alguém cavou minerais do subsolo, refinou metais e transformou química em tecnologia. No fim das contas, a professora não estava ensinando uma tabela. Estava apresentando o elenco principal da civilização moderna. Nós é que achávamos que a aula era sobre decorar símbolos para uma prova na sexta-feira.
A Sociologia, então, foi tratada como se fosse um hobby. Até o dia em que a internet transformou qualquer caixa de comentários num laboratório humano. A professora falava sobre comportamento de grupo, pressão social, construção de identidade, bolhas sociais. Anos depois surgiram as redes sociais e provaram que ela estava sendo até otimista. Nunca foi tão fácil observar uma multidão concordando com algo apenas porque todo mundo em volta concordou também.
A Literatura sofreu talvez a maior injustiça de todas. “Pra que eu preciso ler Machado de Assis?” perguntava o adolescente. Para identificar manipuladores, reconhecer narradores mentirosos, para perceber ironias. Para entender que nem todo mundo que parece confiável é confiável. Em outras palavras: para sobreviver ao LinkedIn. Machado talvez fosse o único autor do século XIX plenamente preparado para explicar a internet.
Já o Português foi acusado durante décadas de ser perseguição gratuita. Concordância, pontuação, interpretação, crase. Coisas chatas. Até que surgiu o clássico: “Vamos comer, gente.” e “Vamos comer gente.” Uma simples vírgula separando um convite para o almoço de uma denúncia criminal soe canibalismo. Ou outra coisa… De repente, concordância, pontuação e interpretação de texto deixaram de parecer implicância da professora. O português não era frescura. Era equipamento básico de sobrevivência. Era defesa pessoal! A crase parecia uma conspiração das professoras de Português contra a juventude brasileira. Até o dia em que você precisou escrever um e-mail profissional e descobriu que um simples acento pode separar quem escreve de quem apenas aperta teclas. Durante anos, muita gente achou que a crase era um detalhe inútil. Hoje ela continua sendo ignorada por milhões de pessoas, para o desespero silencioso de revisores, professores e placas de trânsito. A crase é como o cinto de segurança da gramática: ninguém percebe quando está correta, mas quando falta, o estrago costuma ficar visível para todo mundo.
A História também teve sua vingança. Porque quem dizia que não precisava estudar passado hoje passa horas assistindo documentários, podcasts, séries históricas e vídeos explicando por que o mundo está como está. A diferença é que agora chama conteúdo. Quando era prova, chamava tortura. O fato é que a escola nunca esteve tentando ensinar apenas fórmulas. Ela estava tentando entregar um manual de sobrevivência disfarçado de matéria obrigatória. O problema é que adolescentes possuem uma habilidade extraordinária: confundir conhecimento útil com inconveniência temporária. Só depois dos boletos, das filas, dos relacionamentos, dos grupos de WhatsApp, dos financiamentos e dos ônibus lotados é que a ficha cai.
A aula de Física estava no metrô. A Matemática estava no mercado. A Química estava na cozinha. A Sociologia estava nas redes sociais. A Literatura estava na política. O Português estava nos contratos. E a História estava em todos os lugares onde alguém dizia: “Isso nunca aconteceu antes.” Aconteceu. Sempre aconteceu. A professora provavelmente explicou. Você é que estava olhando pela janela. E talvez essa seja a maior lição que a escola ensinou sem que quase ninguém percebesse: o conhecimento não serve para passar na prova. Serve para evitar que a vida aplique uma prova muito mais difícil depois. E essa, infelizmente, não tem recuperação.
(*) Rollo é ator profissional e ex-integrante do Conselho Estadual de Política Cultural do RJ na cadeira do Audiovisual. Atualmente, integra o elenco do espetáculo teatral “O Bem Amado”, de Dias Gomes, ao lado de Diogo Vilela, com direção de Marcus Alvisi.


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