Comentários sobre o áudio vazado de André Esteves (BTG Pactual)

Globo e advogado de Youssef combinam narrativa

Por Miguel do Rosário

20 de novembro de 2014 : 11h27

O PIG - Neto Sampaio _ O homem bomba da velha mídia escândalo de boca de urnas


 

Dias atrás, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, confirmou que houve golpe eleitoral contra Dilma Rousseff, perpetrado através do advogado de Alberto Youssef, o doutor Antonio Figueiredo Basto.

Janot lembrou que Basto era ligado intimamente aos tucanos.

Como era o golpe?

Não apenas Basto vazava trechos dos depoimentos de Youssef, como o advogado orientava o doleiro para fazer um recorte político de sua delação premiada.

Um recorte cuidadosamente elaborado para gerar impacto político contra o PT.

Entretanto, a mídia não conseguirá esconder que Alberto Youssef é uma cria essencialmente tucana, conforme eu já escrevi no post “A história do doleiro que a mídia não contou“.

Há documentos e reportagens mostrando que ele operou para as campanhas de FHC e Serra. Essa é uma informação importante para entender a teia de relações construída pelo doleiro, e explicar o que ele é hoje.

Ora, se ele quer delatar, então terá de contar também o que sabe sobre as falcatruas tucanas que ele operou.

Se olharmos a manchete do site do Globo de hoje, a coluna de Merval e a entrevista do advogado do doleiro, constata-se facilmente que a armação midiática já encontrou uma linha de ação bem definida.

O advogado do doleiro posa, na entrevista concedida ao Globo, de “analista político”.

Pior, de “indignado”!

Segundo ele, assim como para Merval, não se trata apenas de corrupção, mas de uma estratégia para se manter no poder.

Igualzinho fizeram com o mensalão.

Ao invés de tratarem o caso como ele era, um esquema de caixa 2, o que permitiria ao Brasil, desde aquela época, discutir a questão do financiamento de campanha, inventaram um monstro que desmoralizou o STF e criou dois palhaços: Ayres Brito, hoje com uma sinecura de luxo na Globo, e Joaquim Barbosa, cujo filho ganhou emprego também na Globo.

O PT achava que enfiando a cabeça bem fundo num buraco, no caso mensalão, poderia virar a página.

Não é assim.

A mídia tenta agora repetir a farsa.

Não é corrupção, diz Merval. Corrupção é normal, acontece todo dia, explica ele.

O que acontece é algo muito pior. É o PT do mal, o PT dos infernos, em ação novamente.

É o mensalão 2, insistirá a Globo, com ajuda de um novo Roberto Jefferson, encarnado agora na figura do doleiro e seu esperto advogado.

O juiz Sergio Moro, que escreveu a decisão de Rosa Weber na Ação Penal 470, que impressionou o mundo jurídico pela sua desfaçatez (“não tenho provas contra Dirceu, mas vou condená-lo porque a literatura assim me permite”), também não parece nada preocupado em evitar a politização do processo.

Os vazamentos saem de sua vara aos montes, sem que ele faça uma admoestação contra delegados, promotores ou advogados que possam estar por trás dos mesmos.

Uma reportagem investigativa da Agência Pública, publicada em junho deste ano, mostrava que as quatro principais empreiteiras do país, as “quatro irmãs”, operam juntas, em cartel, desde a ditadura militar. Assim como a Globo, elas se consolidaram durante o período autoritário, que favoreceu concentração do capital, num ritmo maior do que o mercado naturalmente faria, e na contramão de qualquer orientação anticartel ou anti-oligopólio que toda democracia deve assumir.

As empreiteiras dão financiamentos a campanhas eleitorais, favorecendo sempre os times vencedores, quaisquer que eles sejam, em busca de blindagem contra investigações que possam criar obstáculos à manutenção de seu cartel.

Que se entenda bem: acabar com o cartel não é acabar com as empresas, que são importantes para o país, e sim dar fim a um esquema de combinação de preços e pagamento de propina a servidores e partidos, que sangra os cofres e prejudica a democracia.

É evidente que a Globo fará de tudo para transformar o escândalo da Petrobrás num jogo político para ampliar seu próprio poder.

O cálculo é fácil. Se as instituições políticas estão desmoralizadas, em quem o brasileiro poderá confiar?

Na mídia, claro!

Só que a mídia fará isso não para melhorar o tratamento à coisa pública, mas para chantagear a democracia e ganhar mais dinheiro.

Ela quer um governo fraco e acuado, para que ele não tenha condições de aprovar as reformas necessárias, as quais são as seguintes:

1) Uma reforma política, que não precisa reinventar a roda, até porque isso representaria um perigo de retrocesso. Cumpre, sobretudo, propor mudanças no sistema de financiamento de campanha, chancelando politicamente e aprimorando a decisão que sairá em breve do STF, de proibir doação de empresas. Outros pontos interessantes que podem ser discutidos são a ampliação da participação social junto às decisões de Estado. Criação de ouvidorias, ombudsmans, referendos, orçamentos participativos, etc.

2) A reforma tributária, reduzindo impostos que incidem sobre os mais pobres e aumentando as alíquotas máximas sobre os mais ricos. Deve-se discutir também um imposto sobre a herança, nos moldes do modelo norte-americano, e o aumento dos tributos sobre o consumo de luxo.

3) A reforma agrária. Uma série de medidas para democratizar a terra no Brasil teria um profundo impacto psicológico e político em nosso país, ativando entusiasmos e forças que andam paradas.

4) A reforma urbana. Os brasileiros nas cidades grandes estão acuados por grandes empresas, que tomaram o setor imobiliário e de transportes. É preciso discutir regras, como fazem todas as metrópoles modernas do mundo, mais democráticas para a questão dos aluguéis e dos financiamentos à casa própria nas áreas urbanas. A mobilidade urbana, outro tema essencial, entra nesse capítulo.

5) A reforma da mídia. O governo tem de entrar nisso de cabeça erguida e língua afiada. A mídia já começou, desde o final da eleição, ou mesmo antes dela, uma campanha de mentiras que não tem sido rebatida pelas forças políticas eleitas pelo povo justamente para fazer isso: para responder.

*

O governo não foi eleito apenas para administrar. Elege-se o governo também para ser um representante político. Por isso, a sociedade lhe dá tantos instrumentos e recursos. Para que ele possa participar do debate público como um de seus atores mais influentes.

Onde estão os ministros políticos do governo? Onde está seu porta-voz?

Onde está o blog do Planalto, ou da Petrobrás?

Mercadante, ao qual já fiz tantas críticas, mostrou, em entrevista recente, que tem a língua afiada, e pode fazer uma contraponto importante em matéria de debate econômico.

Por que não faz mais? Porque se limita a aparecer na TV fechada do programa da Miriam Leitão?

Um ministro pertence ao povo, não à Globo!

Falta encontrar quadros que possam fazer o mesmo, no campo da comunicação, da política propriamente dita, e, agora, do combate à corrupção.

Os setores progressistas dentro e fora do governo não poderão agora fugir à luta de construir uma contranarrativa à mídia corporativa.

No caso do Brasil, a questão tornou-se mais importante que a política.

É uma questão de honra!

A campanha golpista da mídia atinge a honra de milhões de eleitores que votam na esquerda com orgulho, e não querem, novamente, passar pela humilhação de serem associados à falta de ética.

A construção dessa contranarrativa passa também por continuar a rever os erros da Ação Penal 470.

De qualquer forma, não será possível, à mídia, repetir o que fez no mensalão: achacar ministros do STF, não importa se indicados pelo PT ou não, criar uma atmosfera de linchamento, bancar erros e crimes de procuradores, e forçar condenações sem provas.

Por outro lado, a direita é criativa. Já está desenhado como será conduzido o golpe do “petrolão”: forçar delações premiadas, sempre orientadas politicamente; e, sobretudo, produzir muita mentira.

Fernando Brito, do Tijolaço, já andou se perguntando, com propriedade: não é estranho que Alberto Yousseff tenha adquirido essa importância toda junto às empreiteiras e à Petrobrás? Ele não tinha sido preso poucos anos antes, não estava sob investigação da justiça desde o início dos anos 2000?

Quem seria maluco de entregar milhões em mãos de uma figura totalmente queimada como Alberto Youssef?

Essa história está mal contada.

Porventura estão tentando transformar Youssef em algo maior do que ele era? E por que? Seria porque o vêem como um “aliado”, como alguém disposto a mergulhar de cabeça no jogo da mídia e da direita?

Enfim, temos uma situação infernal, que nos exigirá a convocação de muitos Virgílios para nos conduzir à saída.

Uma investigação dessa magnitude teria de ser conduzida sem politização, com total objetividade, o que será impossível diante do processo político brasileiro, que é fundamentalmente midiático.

De um lado, temos um PT com suas lideranças sempre meio apalermadas pelo barulho, mas sustentadas politicamente por uma base social ainda traumatizada com lembranças ruins de governos anteriores.

De outro, uma mídia com forte penetração no Judiciário, no Ministério Público e, agora descobrimos, também na Polícia Federal. Uma mídia extremamente astuta, absolutamente inescrupulosa, e detentora de uma máquina demolidora e quase indestrutível de moer reputações e sustentar teorias mentirosas.

A primeira grande batalha, as eleições, impôs uma dura derrota à mídia e seus lacaios golpistas.

Não dá mais, porém, para governar em silêncio.

Agora mesmo, por exemplo, fala-se que o novo ministro da Fazenda será Luiz Carlos Trabuco, o presidente do Bradesco, ou alguém parecido.

Trata-se de algo que havíamos previsto: um movimento estratégico de recuo em relação ao mercado.

Ótimo, a gente compreende. Política é o campo onde nos sentimos mais à vontade, e gostamos quando o governo entra no jogo com astúcia.

Só que esse movimento, sem um outro, paralelo e simultâneo, de mais ousadia em política e comunicação, sem um gesto à esquerda, provocará dano ao governo, que, mais que nunca, precisa de apoio de suas bases sociais.

Para isso, bastaria haver um porta-voz, um blog, qualquer coisa, que pudesse ao menos emitir um sinal político!

“Olha gente, estou nomeando um ministro da Fazenda vindo do lado de lá, mas não esqueci o lado de cá, tanto que pensei nisso e naquilo que podemos fazer”.

Qualquer coisa que sugerisse que o governo não depende da mídia para se comunicar! E que não esquece a sua base de apoio!

Depois do que aconteceu com Sérgio Cabral e quase aconteceu com a própria Dilma, após junho de 2013, ficou bem claro que popularidade de instituto de pesquisa não adianta nada.

Quando não se tem apoio da grande mídia, é preciso ter base orgânica, popular, para poder ir adiante e não ser tragado pela primeira crise.

O jogo já começou, e as peças estão se movendo muito rápido.

Um dia de silêncio corresponde a um dia de derrota.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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42 comentários

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marco

01 de dezembro de 2014 às 17h47

Eu hoje li,na Carta Capital,em 01.12.2014,materia interessante com relação ao assunto que aborda a discussão que se faz,ao repeito da DELAÇÃO PREMIADA.Tentei acessar a C.Capital,mas não consegui posto as instruções para postágem naquela revista,estão todas com caracteres em inglês e como não entendo o idioma,me utilizo deste blog,cujo acesso me é mais fácil e em idioma brasileiro.Com relação a DELAÇÃO PREMIADA,que é o foco do artigo lá postado,tenho a opinião não passar,do INSTITUTO DO DEDURISMO OU CAGUETÁGEM.Ou seja,Endedurar e Alcaguetar,virou moda.A lamentar,ter que utilizar este blog,em virtude ds dificuldades que tem os não poliglotas,para acessos àquela prestinmosa revista.Quero aproveitar,para agradecer aos editores desse blog,que certamente darão publicidade ao que posto.Saudações…

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Maria Dilma

24 de novembro de 2014 às 15h07

Há documentos e reportagens mostrando que ele operou para as campanhas de FHC e Serra – See more at: https://www.ocafezinho.com/2014/11/20/globo-e-advogado-de-youssef-combinam-narrativa/#sthash.WOeWfqVC.dpuf

E, de fato, quando uma empresa ou órgão público mantem as decisões longe dos funcionários, acobertadas essas decisões, por um sistema de informática que mantém tudo longe dos empregados/funcionários menores, tem-se de fato uma máfia.

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SAMWISE

21 de novembro de 2014 às 12h34

A inação do governo é enervante. Ou tem algum trunfo espetacular nas mãos ou está dormindo mesmo. Quando acordar pode ser tarde. Golpismo se combate com demonstração de força política, social e popular. O governo precisa atuar de forma pragmática no Congresso, para recompor sua base política. Mas não pode esquecer de recompor sua base popular, reconquistando a Classe C, especialmente a do Centro-Sul do país. Recomendo os textos abaixo, que fazem uma reflexão sobre o assunto:

http://reino-de-clio.com.br/Pensando%20BR2.html#

http://reino-de-clio.com.br/Pensando%20BR.html

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Juba

21 de novembro de 2014 às 12h21

Teu fim está próximo cara-pálida Tucano e PIG.

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Sergio

21 de novembro de 2014 às 11h42

– Quem fala mal de DILMA vai se surpreender. Vai ser um show, disse LULA, em Foz do Iguaçu.
– Exatamente, SHOW DE HORRORES !

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Descrente

21 de novembro de 2014 às 11h22

ESTARRECEDOR, AJUDEM A DIVULGAR, trata-se da Ditadura em Minas Gerais, um absurdo. Fala da lista de furnas, do mensalão do PSDB, queima de arquivo, Trensalão, blindagem pela mídia, institucionalização criminosa no governo de Minas, prisões ilegais, coações, ameaças, perpetradas por autoridades de MG, um completo absurdo. Onde está o ministro da Justiça?: https://www.facebook.com/video.php?v=785957311442015

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Vitor

21 de novembro de 2014 às 08h24

E essa última do Duque, o consultor? Demais! Kkkkkk

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    Descrente

    21 de novembro de 2014 às 11h22

    ESTARRECEDOR, AJUDEM A DIVULGAR, trata-se da Ditadura em Minas Gerais, um absurdo. Fala da lista de furnas, do mensalão do PSDB, queima de arquivo, Trensalão, blindagem pela mídia, institucionalização criminosa no governo de Minas, prisões ilegais, coações, ameaças, perpetradas por autoridades de MG, um completo absurdo. Onde está o ministro da Justiça?: https://www.facebook.com/video.php?v=785957311442015

    Responder

Everaldo

20 de novembro de 2014 às 19h19

É PRÁ VOCÊ DILMA, QUE GOSTA DO CAFEZINHO….Boa Miguel!!!!

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Heloisa

20 de novembro de 2014 às 19h19

DILMA é uma tremenda SEM NOÇÃO ! Convidou TRABUCO para o Ministério da Fazenda e recebeu um tremendo NÃO ! E já fragilizou quem for o escolhido !

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    S

    21 de novembro de 2014 às 05h10

    É isso aí, A DILMA SEM NOÇÃO passa e o BRADESCO permanece !

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Jota One

20 de novembro de 2014 às 17h50

E o golpe da capa da Veja? mais uma vez vai ficar por isso mesmo?
Mais uma vez o PT vai fazer que não houve nada? O PT está se tornando um partido omisso e covarde.

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Mauricio Gomes

20 de novembro de 2014 às 16h33

Fausto de Sanctis para o STF já! E Ciro Gomes para a coordenação política. E falando em STF, quando o deplorável e repugnante Gilmar Mentes irá terminar seu pedido de vistas? Deveria ir a um oftalmologista! #devolvegilmar

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Hipócrisia

20 de novembro de 2014 às 16h02

Jean Wyllys, Cunha e Gilmar. Vamos falar sério?
A Operação Lava Jato poderia ser uma oportunidade excepcional, dessas que quase nunca ocorrem, para discutir seriamente o problema da corrupção no Brasil e a forma com que ela prejudica a democracia. Pela primeira vez, as principais empreiteiras estão sendo investigadas e 21 executivos foram presos pela Polícia Federal, entre eles os presidentes de algumas delas. Não estamos falando de quaisquer empresas, mas daquelas que realizam as mais importantes obras públicas, financiadas pelos governos federal, estaduais e municipais de diferentes partidos e que, ao mesmo tempo, são as principais financiadoras das campanhas eleitorais que elegeram esses governantes.
Os grandes esquemas de corrupção — que sempre são apresentados pela cobertura jornalística, de forma falaz, como se fossem apenas uma espécie de degeneração moral de determinadas pessoas — geralmente associada ao partido que está no governo, revelam-se no caso da Lava Jato como o que realmente são: um componente fundamental de um sistema econômico e político controlado não por funcionários corruptos, mas pelas empresas corruptoras.
Repassemos alguns dados.
As empreiteiras investigadas são nove: OAS, UTC, Queiroz Galvão, Odebrecht, Camargo Corrêa, Iesa, Galvão Engenharia, Mendes Junior e Engevix. Juntas, elas têm contratos com a Petrobras de 59 bilhões de reais. Só no Rio de Janeiro, três dessas empreiteiras (OAS, Camargo Corrêa e Odebrecht) participam, associadas em diferentes consórcios, das dez maiores obras da Copa do Mundo e das Olimpíadas (linha 4 do metrô, Maracanã, Parque Olímpico, Transcarioca, Transolímpica, Porto Maravilha etc.) por um valor total de 30 bilhões. Elas têm contratos com governos de quase todas as cores. Várias delas também participam da privatização dos aeroportos e das obras do PAC, do governo federal, mas também das obras do metrô de São Paulo, envolvidos num caso de corrupção pelo qual é investigado o governador Geraldo Alckmin, que também recebeu dinheiro de empreiteiras para sua campanha.
Com negócios diversificados e participação em diferentes escândalos de corrupção, a lista das empreiteiras mais importantes do País é liderada pela Odebrecht que, segundo o ranking da revista O Empreiteiro, tem um faturamento de 5.292 bilhões de reais. Você sabe quanto dinheiro “doou” essa empresa para diferentes partidos e candidatos nas últimas eleições? Mais de 30 milhões de reais! A Odebrecht doou para todos os seguintes partidos: PSDB, PT, PSB, PMBD, PP, DEM, PCdoB, PV, Solidariedade, PROS, PRB, PSD, PPS, PSC, PCdoB, PTC e PSL. Eles doaram 2,95 milhões para a campanha da Dilma, 2 milhões para a campanha do Aécio e 500 mil para a campanha de Eduardo Campos (depois somou quase 50 mil a mais para a campanha da Marina), mas também para candidatos a governador e deputado e para os comitês financeiros e as direções nacional e estaduais de diferentes partidos.
De todos os partidos que elegeram representantes para o Congresso Nacional, o único que não recebeu dinheiro de nenhuma das empreiteiras investigadas (aliás, de nenhuma empreiteira!) foi o PSOL. Sim, foi o único!
A segunda maior empreiteira do ranking, com um faturamento de 5.264 bilhões, é a Camargo Corrêa, que doou, por exemplo, 1,5 mi para o DEM. A empreiteira Queiroz Galvão fez doações de campanha por mais de 50 milhões, beneficiando candidatos de 15 partidos, entre os quais o PT, o PSDB, o PMDB, o DEM e o PSB. Também doaram 200 mil reais para a campanha do nanico pastor Everaldo. Outra campeã das doações foi a OAS, com uma generosidade política de mais de 52 milhões que beneficiou Aécio, Dilma, Marina e candidatos de 12 partidos. A UTC fez doações de 34 milhões e também foi ampla na distribuição, beneficiando a 11 partidos, entre os quais estavam os mais importantes da situação e da oposição. E por aí vai. Todas elas estão envolvidas na investigação da Polícia Federal.
Alguns candidatos não recebem dinheiro de uma determinada empresa de forma direta, mas essa empresa doa para o comitê do partido, ou para sua direção nacional ou estadual, que por sua vez faz uma doação ao candidato. Ou então a empresa pode doar para um candidato a deputado, que depois faz uma doação para o candidato a presidente, ou vice-versa. Algumas empresas têm diferentes denominações, cada uma com um CNPJ distinto. Mas a quantidade de dinheiro que sai da União, dos Estados e dos municípios e vai para as empreiteiras mediante contratos para obras públicas, e que sai das empreiteiras e vai para os candidatos e seus partidos, é imensa. E essa promiscuidade entre política e mundo dos negócios produz enormes prejuízos para a democracia.
O problema não é apenas a corrupção direta, a propina e a lavagem de dinheiro. É também o poder que essas empresas têm para desbalancear o sistema democrático, apoiando determinados candidatos e candidatas com quantias absurdas de dinheiro que fazem com que os e as concorrentes de outros partidos tenham pouquíssimas chances de vencer, a não ser que entrem no esquema.
Nas últimas eleições, 326 parlamentares tiveram suas campanhas financiadas por empreiteiras (nenhum do PSOL!). E, entre eles, 255 receberam dinheiro das envolvidas na operação Lava Jato. Façamos as contas. Os candidatos das empreiteiras são maioria no Congresso! Dentre eles, 70 deputados e 9 senadores são citados nas investigações. E há governistas e opositores — inclusive petistas e tucanos (mas alguns jornais e revistas citam apenas os petistas).
O financiamento empresarial das campanhas favorece esse esquema e prejudica os que não querem fazer parte dele. Eu fui o sétimo deputado federal mais votado do estado do Rio de Janeiro, com 144.770 votos, e a receita total da minha campanha foi de 70.892,08 mil reais em doações físicas, sendo que, destes, 14 mil correspondem a trabalhos de voluntários. Não recebi (e nem quero!) um centavo das empreiteiras.
Agora vou dar um exemplo contrário: deputado Eduardo Cunha, que teve 232.708 votos e foi o terceiro mais votado do estado, declarou uma receita de mais de 6,8 milhões de reais! Sim, você leu bem: quase 7 milhões. Os diretórios nacional e estadual do PMDB, seu partido, que também doou dinheiro para ele, receberam “ajuda” da OAS (3,3 milhões), da Queiroz Galvão (16 milhões), da Galvão Engenharia (340 mil) e da Odebrecht (8 milhões). O PMDB governa o estado que dá a algumas dessas empreiteiras obras públicas milionárias. Isso sem falar dos bancos, empresas de mineração, shoppings e outros empreendimentos que depositaram na conta de Cunha.
Vocês percebem como o é injusto e antidemocrático que um candidato honesto, que conta apenas com doações de amigos, militantes e simpatizantes, contra outro que recebe quase 7 milhões de bancos e empreiteiras? Vocês percebem como isso faz com que nosso poder, eleitor, seja cada vez menor, e com que o poder da grana se imponha cada vez mais?
Agora pense no seguinte: Eduardo Cunha pode ser o próximo presidente da Câmara dos Deputados! Ele é um dos cérebros da bancada fundamentalista, foi o grande articulador da presidência da CDHM para o pastor Marco Feliciano e é o porta-voz do que há de mais reacionário, retrógrado, conservador e antipopular no Congresso. Algumas pessoas acham que o grande vilão da direita é Jair Bolsonaro, mas na verdade, ele é apenas um personagem caricato, bizarro, que tem mais holofotes do que merece. O verdadeiro poder radica em personagens menos conhecidos, como Cunha, que se mexem nas sombras. E as doações milionárias entram na conta dele.
Mas eu comecei dizendo que tudo o que está acontecendo em torno da operação Lava Jato poderia ser uma oportunidade excepcional para discutir seriamente o problema da corrupção no Brasil e a forma com que ela prejudica a democracia. Poderia ser, mas não está sendo. A maioria da imprensa e alguns líderes da oposição com espaço na mídia estão tentando passar a impressão de que se trata, apenas, de um novo “escândalo de corrupção do PT”.
Delegados e fontes do judiciário ligadas a partidos de direita vazam de forma seletiva informações que envolvem apenas os corruptos petistas, mas escondem as que poderiam prejudicar os corruptos tucanos ou de outros partidos. Tudo passa a ser “culpa da Dilma, do Lula e dos petralhas”. E o PSDB e seus aliados da direita tentam se apropriar da operação e se apresentar como os paladinos da moral e da honestidade que querem nos livrar dessas mazelas. Hipócritas!
É claro a corrupção na Petrobras durante os governos petistas que tem que ser investigada — mas também durante os governos tucanos e os governos anteriores aos tucanos! É claro que temos que investigar todos os funcionários e parlamentares envolvidos nos esquemas, seja do partido que forem. O PT e seus aliados têm uma enorme responsabilidade nisso tudo. Mas enquanto pensarmos na corrupção apenas como uma sucessão de casos particulares e olharmos para ela apenas como um problema moral será como aquele personagem da publicidade “Sabe de nada, inocente!”. O escândalo está sendo instrumentalizado por uma parte da imprensa não apenas para atacar o governo, mas também para colocar a Petrobras no alvo de discursos privatizadores! Ou seja, a questão é muito mais complexa!
Por isso, e se realmente quisermos fazer algo que tenha impacto real contra a corrupção, o primeiro passo é acabar com o financiamento empresarial de campanha. A OAB apresentou no Supremo Tribunal Federal uma ADIN (ação direta de inconstitucionalidade) para proibi-lo, e tem todo o apoio do PSOL. Seis dos onze ministros já votaram favoravelmente, mas o ministro Gilmar Mendes, Advogado Geral da União durante a presidência de Fernando Henrique Cardoso, pediu vistas do processo em abril desse ano e, desde então, nada fez a respeito.
Diversos movimentos sociais e políticos lançaram a campanha #devolvegilmar, para que o ministro conclua suas vistas e permita que ela seja julgada. O fim do financiamento empresarial de campanhas deveria ser, também, um dos principais eixos da reforma política que o Brasil precisa. Porque com um Congresso cujos integrantes foram financiados pelas principais empreiteiras envolvidas nesses esquemas, não haverá “CPI das empreiteiras”, da mesma forma que não avançará a CPI da Petrobrás. Tudo será tratado como mais um escândalo.
Se quisermos que a corrupção deixe de ser, apenas, o tema favorito das manchetes de jornal, e passe a ser combatida de forma realista e eficaz, sem hipocrisia, precisamos produzir reformas estruturais no sistema político e econômico e não apenas fazer julgamentos morais partidarizados. Precisamos cortar um dos principais rios de dinheiro que corrompe a política e, ao mesmo tempo, diminui o poder dos eleitores, transformando os governos e o Congresso em reféns dos interesses de um pequeno grupo de empresários com negócios bilionários.
Devolve, Gilmar! Vamos falar sério dessa vez!.

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Leici

20 de novembro de 2014 às 15h56

Cada vez mais me convenço que a Globo é a pior coisa que existe nesse país.

Responder

J.Carlos

20 de novembro de 2014 às 15h42

Não entendi até agora no vazamento seletivo da tal delação premiada (que mais me parece chantagem política) por quê ninguém se interessou no papel ativo em tudo do tal “senador tucano do Paraná”. Nem a mídia alternativa parece interessada em sua participação na palhaçada da tal delação, mesmo sendo amicíssimo, de longa data, do doleiro chantagista. Nunca vi uma investigação tão partidarizada, pois são todos tucanos com a cobertura do PIG, que também fez campanha acirrada a favor do candidato presidencial do psdb. É senador tucano patrocinando o vazamento, é juiz tucano, são procuradores tucanos e delegados de uma milícia a serviço do psdb. Não é uma apuração imparcial e tem tudo para ser anulada.

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Anônimo

20 de novembro de 2014 às 15h35

O que mais me intriga nesta “operação lavajato” é a falta de menção ao papel ativo no vazamento seletivo de delação pelo tal “senador tucano do Paraná”, amicíssimo, de longa data, do doleiro delator. Por quê ninguém, nem mesmo na mídia alternativa, desvenda sua real participação no uso de uma investigação de tal modo que pareça um caso de corrupção restrito ao PT? Se juntar tudo, juiz, procuradores, delegados, advogados, só dá digitais de tucanos no processo de vazamento seletivo.

Responder

    enganado

    20 de novembro de 2014 às 22h37

    Meu Caro Anônimo

    O senador-vagabundo-fdp-escroto-passou a perna na própria filha no inventário-não declarou as fazendas no IR-a família roubou tanto no Paraná que o ditador Geisel colocou ele=ÁLVARO DIAS e o irmão para correr- … etc.

    senador ÁLVARO DIAS, fez plástica na cara para ver come alguma menininha com o Aético=Aébrio no Baixo Gávea aqui no Rio de Janeiro. Cuspo na cara dele e se não gostar do porrada nele.

    Responder

armand de brignac

20 de novembro de 2014 às 15h29

Duvido que a DILMA tenha a ousadia de indicar TRABUCO para a pasta da Fazenda, um NEOLIBERAL, BURGUÊS, BANQUEIRO e representante da ELITE BRANCA ! Seria um tapa na cara de quem a elegeu !

Responder

Heloisa

20 de novembro de 2014 às 15h23

Se for o sr. Trabuco indicado para o Ministério da Fazenda, o PT mostrando outra vez para os burgueses que não se dobra ao sistema financeiro e que odeia banqueiros, pois quem gosta de banqueiro é a Marina da Silva e os tucanos, né? ou entendi tudo errado?

Responder

    Luís CPPrudente

    20 de novembro de 2014 às 16h41

    Você entendeu tudinho! Afinal você é tucana!

    E não quer de forma alguma o avanço do Brasil!

    Responder

Heloisa

20 de novembro de 2014 às 15h14

Sr.Trabuco: Não embarque nessa canoa furada. Sabemos da sua competência e coragem para fazer o que tem que ser feito na condução da nossa Economia. Mas sabemos, também, que a Presidente e o seu Tutor vão interferir a todo momento e vão impedir que se faça o que tem que ser feito. O que resultará, sr. Trabuco, em sua reputação seriamente arranhada com inevitáveis reflexos negativos para o Banco a que está ligado. E, ademais e não menos importante, Seu Brandão certamente ficará muito aborrecido com essa possível e atrapalhada historia. Vai nessa, não !

Responder

Juba

20 de novembro de 2014 às 14h57

A militância é forte mas os cabeças ou são lentos, ou tem medo ou não se entendem.

Responder

cid cabeça

20 de novembro de 2014 às 14h28

\Por que os orgãos responsáveis não pediram aos países onde o Youssef tem contas, os extratos de movimentação desde o início de operação das contas?
A resposta é óbvia: se fizerem isso vão pegar toda corja dos éticos de plantão, entre eles o serrassuga, corruptasso, alvaro botox, etc

Responder

Maria Rita

20 de novembro de 2014 às 14h23

Análise muito, muito boa. Dá um pouco de cansaço saber que não podemos relaxar nem um minuto. Principalmente, quando o assunto é Globo e suas relações perigosas. Olha, não vejo a hora de nos livrarmos desse traste, ou pelo menos, poder reduzir seu campo de manobras.

Responder

Sergio Govea

20 de novembro de 2014 às 13h40

A estratégia do governo é outra.

A sua matéria é pertinente e muito boa, sem dúvida.

Deixem que Moro, mídia e Congresso se sintam à vontade.

Dessa vez, a coisa não vai funcionar.

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    Miguel do Rosário

    20 de novembro de 2014 às 14h15

    Sim, mas tem que se comunicar.

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Gustavo Bernardes

20 de novembro de 2014 às 15h25

É verdade, tudo isso que está acontecendo é um grande complô capitalista burguês…….

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    Miguel

    20 de novembro de 2014 às 14h13

    Política é sempre um complô burguês. A revolução francesa, a independência americana e brasileira e as 2 guerras mundiais foram justamente isso: complôs capitalistas burgueses.

    O problema aqui não é tanto haver complô, mas o tipo de complô. E quem o faz.

    São os golpistas de sempre e suas estratégias são a manipulação da informação, o sensacionalismo e a mentira

    Responder

    Heloisa

    20 de novembro de 2014 às 15h17

    Não se deixe cair na paranoia do Miguel !

    Responder

Marcus Rocha

20 de novembro de 2014 às 15h20

Todo mundo sabia disso só agora que se divulga, tadinhos!

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Gabriela Bianco

20 de novembro de 2014 às 14h59

Esse fotógrafo fala sobre ligação do PSDB com o caso petrobrás: https://www.facebook.com/video.php?v=10152830126027769

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MauriciO

20 de novembro de 2014 às 12h41

Que os golpistas não se esqueçam que existe no Brasil um Conselho de Defesa Nacional, que tem entre outras, a atribuição de preservar o Estado Democratico de Direito.

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Fernando Zambroni

20 de novembro de 2014 às 14h34

Hoje o Paulo Henrique Amorim escreceu no blog dele que apóia a escolha do Tabuco.

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Simone Caldas

20 de novembro de 2014 às 14h28

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helcio dias de sa

20 de novembro de 2014 às 12h19

Ordem do dia do cartel midiatico suicida: a carroça puxa o burro e o rabo balança o cachorro. Nada tem valor tudo tem preço.

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Camila Fresca

20 de novembro de 2014 às 14h06

Ótimo texto

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Luiz Barone

20 de novembro de 2014 às 14h03

porque então não acaba com a concessão da GLOBO?

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gg

20 de novembro de 2014 às 11h56

Eu vejo a coisa de forma muito simples. As peças que o govermo movimenta sao muito fracas. Nao tem consistencia. Nao tem pega. Dilma precisa se reforçar. O meio de campo é fraco. O ataque inoperante. A defesa so se segura porque a midia alternativa, os blogs de esquerda, estao fazendo esse papel. Conclusao, falta a presidenta, colocar sangue novo e que esteja com vontade de ganhar, no meio de campo e no ataque. Porque na defesa estamos bem representados

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Lon Martin Wagner

20 de novembro de 2014 às 13h54

O institucional do Partido dos Trabalhadores tem de estar atento e atuar, agir, acompanhar, denunciar etc. É dito pelo país afora que a militância é a mais eficiente, unida, inteligente, ágil, eficaz militância do mundo e que paralelamente os dirigentes do Partido e parlamentares são extremamente lentos, ineficazes.

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    Maria Regina Novaes

    20 de novembro de 2014 às 14h20

    Lon,vc é lindo! Concordo com tudo.

    Responder

    Luciano Henzel

    20 de novembro de 2014 às 16h43

    E isso aí Lon, a militância mais eficiente, unida, inteligente, ágil e eficaz do mundo está ansiosa em ver os dirigentes agindo com rapidez e eficácia. Esperamos que Dilma e toda a esquerda comecem a agir e mostrar a que viemos. Que sejam rápidos e incisivos.

    Responder

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