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BBC fura grande mídia sobre Zelotes

Por Miguel do Rosário

04 de maio de 2015 : 08h21

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Publico abaixo uma reportagem publicada na BBC há alguns dias, que passou despercebida por nossas redes sociais. Fala sobre a Zelotes, e repercute números que cansamos de mencionar por aqui: uma pesquisa da Tax Justice Network que aponta o Brasil como o país com a maior taxa de evasão fiscal do mundo.

Só uma retificação no texto da BBC. Ele observa que somente os EUA registram um valor maior de evasão fiscal. Certo, só que, em percentual do PIB, a evasão fiscal brasileira é quase sete vezes maior: nos EUA, a evasão corresponde a 2% do PIB, a evasão brasuca nos custa 13,4% do PIB.

Os repórteres da BBC, todavia, deveriam ler o Cafezinho com mais frequência, porque saberiam, por exemplo, que há estudos mais atualizados sobre a evasão fiscal no Brasil.

Há, por exemplo, uma estimativa divulgada este ano pelo Sindicato dos Procuradores da Fazenda Nacional, calculando a sonegação em 2014 em R$ 502 bilhões. A mídia nunca deu este número.

Digite “sonegação R$ 502 bilhões” no Google e só achará posts do Cafezinho, ou de outros blogs reproduzindo o Cafezinho.

A grande mídia foge de notícias sobre sonegação como o diabo foge da cruz.

Por isso tanto silêncio em torno da Zelotes, que envolve desvios muito maiores do que a Lava Jato.

Reportagens sobre a evasão fiscal no Brasil podem ser lidas em blogs e na BBC Brasil, mas não no cartel midiático, especializado em sonegar informação e impostos.

*

Evasão fiscal anual no Brasil ‘equivale a 18 Copas do Mundo’

Fernando Duarte, da BBC Brasil em Londres

– A evasão fiscal do Brasil, com base em números de 2010, equivaleu a R$ 490 bilhões –

– Mesmo antes da disparada na cotação do dólar, US$ 280 bilhões já seria um número impressionante –

Segundo uma pesquisa da Tax Justice Network (rede de justiça fiscal, em tradução livre, organização internacional independente com base em Londres, que analisa e divulga dados sobre movimentação de impostos e paraísos fiscais), este é o montante que o Brasil teria perdido, apenas em 2010, com a evasão fiscal – em 2011, ano de divulgação do estudo, isso equivalia a R$ 490 bilhões.

O número vem de estimativas feitas com base em dados como PIB, gastos do governo, dimensão da economia formal e alíquotas tributárias. Segundo um dos pesquisadores da organização, estudos sobre evasão fiscal mostram que as estimativas do que deixa de ser arrecadado leva em conta também a economia informal.

O valor coloca o Brasil atrás apenas dos Estados Unidos numa lista de países que mais perdem dinheiro com evasão fiscal. É 18 vezes maior que o orçamento oficial da Copa do Mundo de 2014 e quase cinco vezes mais que o orçamento federal para a Saúde em 2015, por exemplo.

É bem maior que os R$ 19 bilhões que a Polícia Federal acredita terem sido desviados da União por um esquema bilionário de corrupção envolvendo um dos principais órgãos do sistema tributário brasileiro, o Carf – a agência responsável pelo julgamento de recursos contra decisões da Receita Federal, e que é o principal alvo da Operação Zelotes.

Mas para diversos estudiosos da área, a deflagração da ação policial pode representar o momento em que a sonegação ocupe um espaço maior nas discussões sobre impostos no Brasil, normalmente dominadas pelas críticas à carga tributária no país.

“A operação Zelotes mostrou que grandes empresas são pegas (em esquemas de sonegação) e têm grandes valores de dívidas. Mostrou ainda que não há constrangimento em pagar ‘consultorias’ que lhes assessorem em seus pleitos. A evasão fiscal é um problema muito mais grave do que a corrupção, não apenas por causa do volume de dinheiro envolvido, mas porque é ideologicamente justificada como uma estratégia de sobrevivência”, disse à BBC Brasil uma fonte da Receita Federal.

Pesquisador da Tax Justice Network, o alemão Markus Meinzer, aponta também para estimativas da entidade, igualmente baseadas em dados de 2010, de que os super-ricos brasileiros detinham o equivalente a mais de R$ 1 trilhão em paraísos fiscais, o quarto maior total em um ranking de países divulgado em 2012 pelo grupo de pesquisa.

“Números como estes relacionados aos paraísos fiscais mostram que o grosso do dinheiro que deixa de ser arrecadado vem de grandes fortunas e empresas. Por isso a operação da receita brasileira poderá ser extremamente importante como forma de tornar o assunto mais público”, acredita Meinzer.

O pesquisador acredita que a discussão é crucial para debates políticos no Brasil. Cita especificamente como exemplo o debate sobre os gastos sociais do governo da presidente Dilma Rousseff, um ponto contencioso em discussões públicas no Brasil.

“A verdadeira injustiça não está nas pessoas que usam benefícios da previdência social, mas as pessoas no topo da pirâmide econômica que simplesmente não pagam imposto. Pois isso é o que força governos a aumentar a taxação para os cidadãos. Alguns milhares de sonegadores milionários fazem a vida de milhões mais difícil”.

Leia mais: Ricos brasileiros têm quarta maior fortuna do mundo em paraísos fiscais

Autor de Ilhas do Tesouro, um livro sobre a proliferação dos paraísos fiscais e esquemas de evasão de renda que rendeu elogios do Nobel de Economia Paul Krugman, o britânico Nicholas Shaxson, concorda com a atenção que a Operação Zelotes poderá despertar junto ao grande público, em especial sobre a bandeira da justiça fiscal.

“Nos países europeus, a crise econômica de 2008 mobilizou o público para questões como esquemas de evasão fiscal, incluindo sistemas de certa forma encorajados pelo governo, como os impostos de multinacionais. Falar em impostos é um tema delicado politicamente, mas que se transformou em algo instrumental em campanhas políticas. O Brasil, que agora passa por um momento econômico mais delicado terá uma oportunidade de abordar esse assunto de forma mais generalizada”, diz Shaxson.

“O princípio de justiça fiscal é uma bandeira de campanha interessante. Na Grã-Bretanha, por exemplo, já não é mais exclusivamente restrito a uma parte do espectro político. E mostra que não adianta você insistir naquela tese de ‘ensinar a pescar em vez de dar o peixe’ quando alguns poucos são donos de imensos aquários”, completa o britânico, numa alusão à expressão usada para criticar programas assistenciais como o Bolsa-Família.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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16 comentários

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Luciene

04 de maio de 2015 às 19h02

Segundo muitos manifestantes de 15 de março, sonegação não é crime. Então…

Responder

Claudenir Calazans

04 de maio de 2015 às 16h49

Reconheço que a sonegação em nosso país é grande.
Reconheço que isso não deveria acontecer.
Mas, vamos lá: Vamos aumentar a arrecadação do Estado. Vamos para de sonegar.
Ok!
Vou ter que continuar pagando plano de saúde para minha família?
Vou ter que pagar escola para minha filha?
Vou ter que continuar pagando plano de previdência privada?

Ou será que o aumento da arrecadação servirá apenas pra engordar o bolso do governo e aumentar a fatia do dinheiro que políticos safados levam embora?

Aumentar a arrecadação de impostos em nosso país não é sinônimo de melhoria do serviço público.

É provado por diversos estudos que em países cuja sonegação é irrisória, a qualidade dos serviços públicos é referência para outros lugares.

O povo está cansado de pagar e pagar e não observar benefícios para si mesmo e para os demais cidadãos.

Crianças sem merenda escolar e sem material didático nas escolas e pessoas morrendo à espera de atendimento tem que parar de ser regra em nosso país.

Enquanto o governo continuar a sonegar direitos aos cidadãos, estes irão continuar a sonegar seus impostos, para talvez, quem sabe, com o valor sonegado possa pagar um plano de saúde e escola descente para seus filhos.

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Emilia M. de Morais

04 de maio de 2015 às 17h14

Só uma retificação: a noticia sobre a sonegação de 500 bilhões, prevista para 2014, saiu na FSP/UOL em 04/08/2014.
Confira:
http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2014/08/1494365-video-sonegacao-deve-atingir-r-500-bilhoes-em-2014-indica-sonegometro.shtml

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nilo walter

04 de maio de 2015 às 13h09

É o famoso republicanismo da elite brasileira.

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hc.coelho

04 de maio de 2015 às 11h08

O pig não fala de sonegação porque ele mesmo sonega e muito. Alguem acredita que a globo pagou o que devia? Porque não m6stra o darf? e porque não foi processada por causa do estraviio do processo? ela e a turma que devia tomar conta de um processo de 1 bi e “esqueceu”na justiça.

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Elsa Nascimento

04 de maio de 2015 às 14h04

O Segundo em sonegação é horrível!

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Daniel

04 de maio de 2015 às 10h57

Uma coisa não minimiza outra. São duas frentes que devem ser combatidas, pois são igualmente nocivas ao Brasil.

Responder

João Padilha

04 de maio de 2015 às 10h39

Sobre esse tema mereceria um debate em cadeia nacional de rádio e televisão, em horário nobre, todos os dias, até diminuir em pelo menos, 50%desta roubalheira dos cofres públicos……

Responder

Cristina Meirelles

04 de maio de 2015 às 13h33

Muito boa a materia!

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Fabio Hideki

04 de maio de 2015 às 10h01

Certo, parabéns ao cafezinho.
Agora, Que tal falar também da Auditoria da Dívida Pública ?

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Ricardo André

04 de maio de 2015 às 12h12

Se chamar de “Zelotão”, será que pega na velha mídia?

Responder

Lucia Maria Santos

04 de maio de 2015 às 12h07

Quem sonega impostos: a. ( )pobre. b. ( ) ricos. ( ) milionarios

Responder

Lucia Maria Santos

04 de maio de 2015 às 12h07

Quem sonega impostos: a. ( )pobre. b. ( ) ricos. ( ) milionarios

Responder

Breno

04 de maio de 2015 às 09h06

Amigos, isso explica grande parte da miséria que eu e tantos outros irmãos enfrentamos cotidianamente, não é?

Responder

Ana Quaiato

04 de maio de 2015 às 11h41

nova mídia dorme de touca, só reage à Velha Mídia?

Responder

Hilson Mergulhão Breckenfeld Filho

04 de maio de 2015 às 11h36

cumplicidade

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