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A cultura do estupro mostra como as mulheres não são donas de seus corpos

Por Miguel do Rosário

30 de maio de 2016 : 20h04

Foto: Mídia NINJA

Da jornalista Nathalia Levy, exclusivo para O Cafezinho

Passado o momento de comoção nacional, a sociedade brasileira volta a mostrar o machismo que faz com que a cada 11 minutos uma mulher seja violentada por aqui. “Será que ela é realmente vítima?”, indagam agora aqueles que relativizam a vida de uma menina de 16 anos. O caso do Rio de Janeiro impressionou, principalmente porque os estupradores são muitas vezes associados a algum tipo de doente e é difícil imaginar que há 33 doentes reunidos.

Quando é comprovado que não existe nenhuma patologia, a culpa costuma ser transferida à mulher, que inconscientemente passa a se sentir responsável. É preciso entender da onde vem essa sensação.
Quando eu tinha seis anos, o telefone da minha casa tocou e um homem do outro lado da linha disse que estava na rua me observando. Também afirmou que eu estava vestindo uma saia e perguntou o que havia embaixo dela. Até hoje, acredito que aquilo foi um trote, mas o episódio demorou a sair da minha cabeça não apenas pelo medo de algo acontecer, mas principalmente porque, logo depois que desliguei, senti muita vergonha. Na época, não consegui, tampouco tentei, entender esse sentimento. Hoje, assimilo que desde muito pequenas, mulheres convivem com a ideia de que seu valor como ser humano está vinculado ao seu corpo. Em uma sociedade patriarcal, o corpo da mulher sempre foi visto como propriedade do homem e até hoje esse pensamento influencia no modo como mulheres são julgadas dependendo da maneira como lidam com ele. Nessa lógica, a fim de sermos “mulheres corretas”, nosso corpo deve ser devidamente resguardado.

Todas as mulheres já passaram por algum tipo de assédio e provavelmente se sentiram invadidas e, em seguida, envergonhadas. A vergonha é também um das grandes responsáveis pelo estupro ser um dos crimes mais subnotificados. Alguns casos recentes mostram o limite nocivo na qual essa pressão pode chegar. Um delegado da Polícia Civil de São Paulo, que abusou de sua neta, na época com 16 anos, foi absolvido da acusação de estupro apesar de ter assumido o ato sexual. Durante o processo, a menina, que hoje está com 18 anos, tentou suicídio por não estar aguentando ser ridicularizada na escola.

Na mesma linha, chamam atenção nas declarações da jovem carioca as falas em que ela expõe seu medo de ser julgada. “Eu me sinto um lixo”. “Pensei que seria julgada mal”. “Não dói o útero e sim alma”. “Parem de me culpar”, escreveu antes de excluir seu perfil no Facebook. Em uma entrevista, ela ainda lembrou que os agressores diziam coisas como “Eu sei que você gosta, você é safada, você é piranha”. Há muito por trás desse pensamento. Em linhas gerais, homens são vangloriados por sua virilidade; mulheres que têm desejo sexual são impuras. Em uma ótica machista, nós precisamos guardar os nossos corpos para não perder o nosso valor. Mulheres que ousam sair dessas amarras viram alvo de relativizações e abrem margem para que, no limite, um estupro seja justificado. Quando a mulher se expõe, os homens mostram como, de fato, eles a enxergam como propriedade. Fica claro que quanto mais livres nós somos, nossos direitos passam a ser relativizados.

E a fragilidade desses direitos está exposta em cada comercial de televisão em que uma mulher é objetificada. Na novela da Globo, que escolhe contar uma história de abuso de poder e estupro. Na representação histérica de mulheres que conseguem chegar a um alto patamar a fim de mostrar que elas não deveriam estar lá. Nas piadas machistas que são chamadas de inofensivas, mas ficam presas no inconsciente e ajudam a construir uma sociedade em que mulheres são constantemente reduzidas a apenas um modelo. No fato de existirem espaços apelidados de abatedouro (!), conhecidos por serem locais em que meninas são levadas para terem relações sexuais.

Em 1405, Christine de Pizan publicou o que seria o primeiro manifesto feminista, o livro “A cidade das mulheres”, em que questiona a supremacia masculina e reivindica o reconhecimento da condição de sujeito da mulher, e não de objeto.

O estupro é um dos assuntos tratados na obra. Lá na Idade Média, Cristine defendia que o ato era desumano e que a culpa jamais poderia ser da vítima. 600 anos se passaram e ainda é discutível se merecia ou não. 600 anos se passaram e a única coisa que leva alguns (ou seriam muitos?) a ter empatia pela adolescente de 16 anos estuprada por 33 homens é pensar que poderia ser sua filha, mãe, esposa … E não um ser humano.

A naturalização da violência contra a mulher, justificada por seu comportamento, não é novidade e é uma das representações mais profundas da tão falada cultura do estupro. Ela tem a ver com as relações de poder entre os gêneros, em que homens, por historicamente terem ocupado a posição de seres mais produtivos, fortes e relevantes a um sistema capitalista, estão acima das mulheres. Às mulheres sempre coube respeitar, apoiar e corresponder àquilo que foi determinado. A nós nos foram designadas apenas algumas atividades que, agora, por estarem associadas às mulheres passaram a ser consideradas inferiores.

Todas as mulheres que ousaram cruzar as fronteiras do papel de gênero sofreram e lutaram para que hoje pareça absurdo imaginar que houve uma época em que não podíamos trabalhar ou votar. Quantas mais serão crucificadas até que vire absurdo pensar que, um dia, as pessoas costumavam buscar justificativas para legitimar a violência contra a mulher?

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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