Um estudo financiado pela NASA e publicado na revista Science mostra que a fumaça dos incêndios florestais está anulando décadas de progresso no controle da poluição por ozônio nos Estados Unidos, além de aumentar o número de mortes prematuras associadas à má qualidade do ar. Os pesquisadores descobriram que, entre 2003 e 2015, as concentrações de ozônio ao nível do solo vinham caindo de forma consistente graças a políticas de redução de emissões.
Após 2015, porém, esses ganhos estagnaram ou retrocederam em diversas regiões, com os incêndios florestais sendo o principal fator por trás dessa reversão. Para chegar a essa conclusão, a equipe combinou dados de cerca de mil estações de monitoramento em solo com modelos atmosféricos, informações meteorológicas e observações de satélite, incluindo os instrumentos VIIRS e MODIS. Utilizaram técnicas de aprendizado profundo para construir um conjunto de dados inédito que estima os níveis diários de ozônio superficial em uma grade de quilômetro por quilômetro, cobrindo todo o território contíguo dos EUA entre 2003 e 2024.
De acordo com o artigo, divulgado pelo portal da NASA, os incêndios florestais anularam o equivalente a quase quatro anos de esforços para reduzir o ozônio em nível nacional. No Meio-Oeste americano, onde a fumaça de queimadas distantes viaja por centenas de quilômetros, o prejuízo foi ainda maior: cerca de 5,3 anos de progresso perdidos desde 2015. Jun Wang, cientista atmosférico da Universidade de Iowa e autor correspondente do estudo, afirmou que as pessoas do Meio-Oeste podem pensar que incêndios distantes não as afetam, mas a poluição gerada pelas chamas se move por regiões e afeta a qualidade do ar em locais remotos.
O ozônio ao nível do solo é um poluente invisível que se forma quando gases como o monóxido de carbono, emitidos pelas chamas, reagem com a luz solar e outros contaminantes. Diferente da camada de ozônio na alta atmosfera, que protege o planeta da radiação ultravioleta, o ozônio superficial irrita os pulmões, agrava asma e outras doenças respiratórias, representando risco especialmente para crianças, idosos e trabalhadores ao ar livre. O impacto na saúde pública foi medido de forma alarmante: a exposição de longo prazo ao ozônio gerado pelos incêndios florestais elevou as mortes prematuras em cerca de 318 casos por ano a partir de 2013, com a média pós-2013 sendo 46% maior do que no período anterior.
Apenas os grandes incêndios canadenses de 2023 expuseram mais 43 milhões de pessoas nos Estados Unidos a condições de ar que não atendiam aos padrões federais de qualidade do ozônio. A fumaça se espalhou do Meio-Oeste até partes do Nordeste e do Sul, demonstrando como o problema transcende as áreas diretamente afetadas pelo fogo. John Haynes, gerente do programa de Saúde e Qualidade do Ar da NASA Earth Action, em Washington, destacou que as observações da Terra feitas pela agência, combinadas com redes de monitoramento em terra, ajudam a revelar os riscos à qualidade do ar que podem cruzar fronteiras estaduais.
A pesquisa também aponta para o uso prático de novas missões espaciais como a TEMPO, lançada em 2023. O espectrômetro a bordo fornece medições horárias diurnas da qualidade do ar sobre a América do Norte com resolução suficiente para distinguir padrões de poluição em áreas de poucos quilômetros quadrados, algo sem precedentes em relação aos satélites anteriores. A equipe de Wang conta ainda com o sistema de apoio à decisão FireAQ, que integra observações de satélite, previsões de modelo e dados de aerossóis em briefings semanais com autoridades estaduais e locais de qualidade do ar, com o objetivo de prever para onde a poluição relacionada à fumaça pode se mover e fornecer informações mais precisas às comunidades.
Os resultados reforçam a necessidade de considerar os incêndios florestais como um componente crítico nas estratégias de controle da poluição atmosférica, especialmente à medida que as mudanças climáticas intensificam a frequência e a gravidade desses eventos. A combinação de redes de monitoramento terrestre, inteligência artificial e observações espaciais abre um novo capítulo na compreensão da poluição invisível que ameaça a saúde de milhões de pessoas.


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