A contenção da democracia e o fim do Brasil

Brasília - DF, 31/08/2016. Michel Temer durante posse como Presidente da República no Senado Federal. Foto: Beto Barata/PR

Presidente interino, Michel Temer, durante sua posse no Senado Federal (Foto: Beto Barata/ PR)

por Cláudia Versiani

Consta que o indigenista Noel Nutels, chamado de “o índio cor-de-rosa”, logo após o golpe militar de 1964 perguntou a amigos quanto tempo duraria a ditadura. Depois de ouvir vários palpites, disse: vai durar cem anos.

Nutels se referia não à ditadura propriamente dita, mas aos reflexos negativos que a quebra da normalidade democrática acarretaria ao país. E também às consequências do desmonte do que funcionava bem — a educação pública, por exemplo, que, como disse Darcy Ribeiro, deve o mau funcionamento não ao acaso, mas a um projeto.

O golpe de 64 trouxe imensos retrocessos institucionais, como se sabe. Sem falar de prisões arbitrárias, torturas e assassinatos de presos políticos. Mas, em certo aspecto, o golpe parlamentar-midiático-jurídico atual — que começou com o chamado “mensalão”, continuou nas jornadas de junho de 2013 e foi incrementado pela atuação canalha do candidato derrotado em 2014 — é pior.

Os militares, retrógrados e autoritários, ao menos eram nacionalistas.

Os golpistas de agora, também retrógrados e autoritários, são, como se dizia tempos atrás, entreguistas. Não se pejam de entregar o petróleo, de possibilitar a compra de terras por estrangeiros, de cogitar abrir mão do Aquífero Guarani em favor de empresas multinacionais.

A intenção de desmonte é clara. É a destruição do Brasil, a entrega de riquezas, o desprezo pelo povo, esse mero detalhe. A quadrilha que assaltou a república não tem projeto de país. Tem ganância pelo poder e comportamento de ave de rapina dividindo butim de guerra. Haja vista o aumento dos proventos do judiciário e do legislativo e a amplificação dos recursos publicitários pagos à velha mídia, parceira e incentivadora do golpe.

Tudo em meio a grave crise econômica. Enquanto isso, em nome da mesma crise, o ataque às tímidas conquistas sociais e aos direitos dos trabalhadores, conquistados em anos de luta.

Internet também é cultura: gráfico recentemente divulgado nas redes sociais, sem indicação de autoria, mostra a composição de poder durante os 516 anos que se seguiram à chegada dos portugueses: em 64% do tempo, o país foi colônia; em 13,4%, monarquia; em 8%, república oligárquica; em 7,6%, ditadura. E, finalmente, em 7%, república democrática.

Essas informações, se não forem absolutamente corretas, não estarão longe da realidade. A configuração histórica brasileira explica o fato de a democracia ser insuportável às oligarquias. Raymundo Faoro disse que as elites querem um país com 20 milhões de habitantes e uma democracia sem povo.

Para as oligarquias, vantagens, aumentos de salário, auxílios-moradia e quejandos. Para os restantes, a PEC 241, que corta gastos com saúde, educação e assistência social durante inacreditáveis vinte anos, tempo de desenvolvimento de toda uma geração.

A Casa-Grande não está acostumada com o povo. Não deseja proximidade, não lhe reconhece direitos. O poder é aceitável apenas enquanto administrador de seus ancestrais privilégios, como tem sido há séculos. Assim, entende-se a revolta por várias eleições presidenciais — e quantas mais houvesse — perdidas.

A democracia estava excessiva, era necessário contê-la. Porém, é fácil começar um golpe. Difícil é prever como termina. De acordo com o professor Pedro Serrano, a grande ilusão da direita é achar que do autoritarismo extremo vem a ordem. A experiência mostra que, ao contrário, vem o caos.

A história, essa provecta senhora, não é regida pelo tempo humano. Tem suas próprias leis e prazos. Embora se permita alguns recuos, segue em frente.

Cabe a pergunta: quanto vai durar o golpe? Haverá como conter esses trogloditas? Ou será preciso esperar que a história dê conta deles, ou que eles se entredevorem — como, aliás, já começa a acontecer?

Cláudia Versiani é jornalista, fotógrafa e professora do curso de Comunicação Social da PUC-Rio, além de autora dos livros “Os homens de nossas vidas” (crônicas) e “Bodas de Sangue: a construção e o espetáculo de Amir Haddad” (fotografias)

 

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