Live do Cafezinho: como trazer a classe média de volta para campo progressista?

A eleição de Trump escancarou a crise do neoliberalismo

Por Redação

09 de novembro de 2016 : 23h50

(Charge: Adam Zyglis/ The Buffalo News)

Americanexit

por Fernando Rosa, em seu blog

As grandes placas tectônicas do capitalismo mundial moveram-se nervosamente nas últimas horas. A eleição norte-americana escancarou a crise do neoliberalismo financeiro mundial como alternativa para os Estados Unidos e para o mundo. Uma espécie de Americanexit, a vitória de Donald Trump também traduz a mais profunda divisão da sociedade na história dos Estados Unidos.

O eleitor votou com Trump pela volta do “sonho americano”, da industrialização, dos empregos no país. Na porta da Ford, em Michigan, que anunciava transferência do parque industrial para o México, ele ameaçou taxar em 35% a importação dos carros. Como disse Michael Moore, Trump foi o “mensageiro” da insatisfação do “Cinturão Industrial” e seus trabalhadores.

Hillary Clinton perdeu a eleição pela evidência de suas relações com o sistema financeiro e com a indústria bélica que, em 15 anos e cinco guerras, consumiu US$ 4,6 trilhões. Também pelos apoios ao NAFTA e ao Tratado Transpacífico e outras políticas comerciais que destruíram milhares de empregos norte-americanos. Ela foi candidata a xerife do mundo, enquanto Trump defendeu os americanos.

A vitória de Trump, ou qualquer que fosse o resultado, não significa solução à vista, mas o aprofundamento dessa divisão nacional e mundial. Diante da reação do “mundo produtivo” de Trump, o sistema financeiro reagirá ferozmente, ampliando ainda mais a crise. Resta saber se ele terá condições políticas para resistir as pressões de Wall Street, do Pentágono e da indústria bélica, e impor suas ideias.

Ao contrário de temer (sem trocadilhos) suas consequências, o resultado da eleição de Trump traz um elemento positivo para a geopolítica mundial, presente nas suas declarações de campanha. A vitória do candidato republicano indica um processo de distensão internacional, especialmente em relação ao Oriente Médio, a Europa e a Rússia. No caso do Brasil, a situação dos golpistas entreguistas que apoiaram Hillary Clinton (vejam o vídeo abaixo) tende a se complicar.

É importante destacar a derrota da estratégia de guerra imediata contra a Rússia, com sistemáticos ataques ao presidente Putin, adotada por Hillary Clinton. Mal terminou a eleição, Putin defendeu “um diálogo construtivo entre Moscou e Washington” para corresponder “aos interesses dos povos dos nossos países e de toda a comunidade internacional”. Em vários momentos, Trump afirmou, por exemplo, que não gastaria mais dinheiro com a OTAN.

Acompanhando a mídia internacional, a mídia brasileira repetiu o ritual do “jornalismo de guerra” na defesa de Hillary Clinton. Durante a campanha eleitoral, trataram de ridicularizar e/ou demonizar o candidato republicano, incluindo a divulgação de notícias falsas. Frente a iminente derrota de sua candidata, passaram ao “jornalismo de terror”, tentando intimidar o mundo com “quebradeira” das Bolsas de Valores e do “mercado” – o financeiro, claro.

A eleição nos Estados Unidos também está prestando um grande serviço ao debate político e ideológico no mundo e, em particular no Brasil. O “nacionalismo” norte-americano flagrou a contradição de boa parte da esquerda brasileira que, ao invés de apoiar uma política de defesa da Nação, preferiu render-se ao neoliberalismo e a Hillary Clinton. Se o grande Império quer defender a sua economia, onde está o “crime” em defender a Nação brasileira?

A burguesia brasileira, que já anda chorando o “pato morto”, deveria também aprender a lição dos norte-americanos. Em vez de aliar-se ao rentismo predador e meter parte de sua classe na cadeia, deveria pensar no Brasil e somar-se em um esforço comum para industrializar o país. Não bastasse os problemas já existentes, imaginem os Estados Unidos elevando a taxa de juros e repatriando as suas indústrias.

Além da distensão política, a eleição norte-americana também pode significar um avanço na afirmação de um mundo multilateral, fundamental para a América Latina e para o Brasil. Ao contrário da globalização neoliberal, temos vocação para um internacionalismo solidário, com desenvolvimento e paz. Com independência e soberania, o caminho do Brasil é integrar-se solidamente ao BRICS, ao Mercosul, ao Continente Africano e outros fóruns econômicos e sociais.

Os golpistas nativos entraram num barco furado ao trocar as relações comerciais do país pela ideologia barata dos MBLs e outros “ideólogos”. Antigos e maiores parceiros como China, Rússia e países do Mercosul foram secundarizados pelo alinhamento servil aos Estados Unidos. A ponto de tentarem criminalizar a exportação de capitais nacionais, no caso da atuação das empreiteiras nos países africanos.

É hora, portanto, de ampliar a mobilização, afastar os golpistas do comando do país, e aproveitar essa oportunidade histórica que se abriu. Para isso, é urgente a construção de um amplo movimento, como disse Lula – popular e patriótico, comprometido com industrialização, desenvolvimento da ciência e da tecnologia, com a defesa nacional, promoção do mercado interno, garantia de empregos e a democracia brasileira. Façamos o Brasil cumprir sua vocação de Grande Nação.

Atenção ao tempo 6min52seg, quando o ministro das Relações Exteriores, José Serra, declara o voto à candidata derrotada de Hillary Clinton 

Apoie O Cafezinho

Crowdfunding

Ajude o Cafezinho a continuar forte e independente, faça uma assinatura! Você pode contribuir mensalmente ou fazer uma doação de qualquer valor.

Veja como nos apoiar »

6 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário »

Roberto

11 de novembro de 2016 às 20h55

se o Brasil pode defender suas industrias do capital estrangeiro, porque os EUA não podem proteger seus empregos dos trabalhadores estrangeiros??

Responder

Jst

10 de novembro de 2016 às 16h47

Mais uma prova cabal de que o governo atual do brasil é formado por MENTECAPTOS E BANDIDOS DA PIOR ESPÉCIE.

Responder

Franc Alf

10 de novembro de 2016 às 12h13

Artigo excepcional!! Parabéns!!!!

Responder

Jorge Pereira

10 de novembro de 2016 às 11h21

Por isso que o LULA É GÊNIO! Pode ser um gênio intuitivo…mas gênio…Lula diversificou o comércio internacional brasileiro com muitos países para não ficarmos dependentes só dos EUA…GÊNIO! Por que isso (Trump) poderia acontecer…. E como ficará México? Porto Rico? FHC com sua vira-lata teoria da dependência?…Car@s…na hora que a porca torce o rabo…farinha no meu pirão primeiro…claro que ele iriam cuidar dos deles primeiro…como faz toda leoa, toda mãe…É natural! LULA GÊNIO! FHC UM MERDA! E aqui..FHC..PSDB..Temer..Globo cospe nos nossos filhotes (povo) para alimentar os filhotes yankes…Lesa-Pátrias, vira-latas, FDPs!

Responder

    Isabel Cristina

    10 de novembro de 2016 às 23h41

    Faço das suas as minhas palavras!!!!

    Responder

Victor Silva

10 de novembro de 2016 às 01h49

Excelente artigo…
Habemus pensadores de esquerda e nacionalista no Brasil… palmas… bravo…

Responder

Deixe uma resposta