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Por que o Banco Central é refém de rentistas em Miami?

Por Redação

13 de dezembro de 2016 : 11h44

Jornalista faz crítica ao papel do Banco Central no Brasil, que permite a intervenção de bancos em sua concepção de política econômica:”Quem entende de economia é economista de banco. Qual a surpresa em ter os resultados que estamos vendo?”.

No Jornal GGN

O Boletim Focus e os rentistas de Miami

Por André Araújo

Os vários governos brasileiros da Era moderna sempre tiveram o cuidado de não deixar a política econômica na mão de uma só pessoa ou grupo de pessoas de igual orientação. A política econômica é algo muito sério para que um País inteiro entregue seu destino a meia dúzia de gênios assumidos. Há clara necessidade de uma mescla de visões para que erros solitários não sejam cometidos. Erros na direção da economia tem altos custos de reversão, a volta do caminho errado custa muito caro. O Board do Federal Reserve, de sete membros, é composto com professores de economia de escolas de pensamento diferentes, pessoas sem ligação com o sistema financeiro, de modo a haver diversidade de visões e opiniões sobre economia.

O estadista Getúlio Vargas criou o Conselho Nacional de Economia para assessorá-lo, fora do circuito do Ministério da Fazenda. O Governo Militar de 1964 criou, acima do Banco Central e dos Ministérios econômicos, o Conselho Monetário Nacional, com representantes da economia produtiva para se contrapor ao poder do bancos.

Getúlio, na fase democrática, tinha uma forte Assessoria Econômica chefiada por Rômulo de Almeida, excelente pensador e formulador, para não ficar dependente dos dois pólos da política econômica, o Ministro da Fazenda Horácio Lafer e o Presidente do Banco do Brasil, Ricardo Jafet, grandes industriais paulistas.

A quebra desse modelo de pesos e contrapesos se deu no Plano Real. Atendendo à pressão dos “economistas do Real” o Governo FHC transformou o Conselho Monetário Nacional em um mero carimbo, constituído apenas do Ministro da Fazenda, do Ministro do Planejamento e do presidente do Banco Central, uma piada, teria sido mais honesto extinguir o Conselho.

A partir desse equívoco deu-se todo o poder sobre a política econômica aos bancos representados pelos “economistas do Real ou do mercado”, é a mesma coisa, cujo porta voz é o Boletim FOCUS, uma criatura deles para apresentar toda semana suas reivindicações ao banco Central, que as executa. Pelo boletim, o BC, através de um capcioso quiz de perguntas, é balizado pelo mercado que apresenta suas instruções.

A partir dai o BC trata de cumprir as demandas e “targets” do oráculo FOCUS. Em vez de liderar, o BC é liderado. Nos EUA todos esperam ansiosamente o que a Chairwoman do FED Janet Yellen tem a dizer, aqui é o BC aguardando sofregamente o que o apóstolo FOCUS pretende para a semana, é uma peça tragicômica de teatro onde cada lado representa um papel ficcional, o que o BC pergunta é aquilo que o mercado quer.

A partir do erro de neutralização do CMN vem o resto. Toda a economia foi colocada na mão do BC que representa o sistema financeiro, convencionou-se que só quem entende de economia é economista de banco. Qual a surpresa em ter os resultados que estamos vendo?

Quando o Brasil industrial foi construído, grandes nomes como Roberto Simonsen, Euvaldo Lodi, Horácio Lafer, Guilherme da Silveira, Rômulo de Almeida, Celso Furtado emitiam opinião sobre política econômica. Não existia “economista de mercado”! O nível era muito mais alto, eram os grandes pensadores e realizadores da economia produtiva, daí nasceu a indústria brasileira, o vigor da agricultura, as metas de desenvolvimento, a visão do futuro e infra estrututura básica que ainda nos atende. Depois do plano Real só souberam montar mesas de câmbio e boutiques de investimento, nunca viram um chão de fábrica na vida.

O mundo dos cabeças de planilha que guiam o BC é o mundo dos rentistas brasileiros que moram em Miami e que são os clientes de seus fundos de renda fixa. Quanto mais baixa a inflação e quanto mais barato o dólar melhor para eles, melhor para os bancos que administram esses fundos. Nos anúncios desta semana no canal GLOBONEWS os maiores anunciantes são bancos atrás de clientes para aplicar em seus fundos, é uma quantidade absurda de anúncios, parece que esse é o único negócio do País.

Desapareceu do ambiente de decisões sobre política econômica a visão da indústria, da agropecuária, do comércio, dos transportes, dos serviços, da construção, dos consumidores.

O presidente do BC Ilan Goldfajn é economista especializado em economia monetária, seu mundo é da porta do banco para dentro, ele não tem uma visão de política econômica de resultados para a população como um todo e muito menos para o povo sem dinheiro. Seu mundo são os aplicadores ricos das agências “private”, ele trabalha nessa linha de visão.

Ele fez tudo para “trazer a inflação para o centro da meta” e absolutamente nada para estimular a economia e aliviar o desemprego, ele nem fala em recessão nos seus discursos ou entrevistas. É como se não existisse! É absolutamente centrado em meta de inflação de forma obsessiva, seu único tema no discurso de posse.

De que vale a “inflação no centro da meta” para quem está desempregado, sem dinheiro, sem plano de saúde, sem poder pagar a escola dos filhos? Não significa muita coisa.

O Ministro da Fazenda, por sua vez, não tem qualquer indicação de ser um formulador de política econômica no seu sentido mais amplo. Nada na sua experiência ou currículo indica isso, mero executivo de banco regional. Isso é quase nada para dirigir a política econômica de um grande Pais, falta aquele algo mais, aquela grandeza dos grandes comandantes da economia como Roberto Campos, Octavio Bulhões, Delfim Neto, Oswaldo Aranha, Mário Henrique Simonsen, grandes homens com visão macro do País, do mundo, da política.

Não se trata apenas de conhecimento. Aranha não era economista mas era líder, tinha uma visão ampla do País, de seu futuro, de suas necessidades, foi um excelente Ministro da Fazenda em duas circunstâncias muito diferentes separadas por vinte anos, quem diz isso não sou eu, é seu minucioso biógrafo, o prof. Mário Henrique Simonsen.

Não é possível um País com a complexidade do Brasil, em inédita recessão, rara até no planeta, ao mesmo tempo com enormes recursos e potencialidades, estar com uma crise sem saída por fraqueza evidente de gestão. As pessoas que comandam a política econômica não estão à altura dos desafios imensos que se apresentam no horizonte. Tormentas pedem grandes e corajosos timoneiros para enfrentar tempestades em mar bravio, não servem pilotos de rebocador, as demandas são mais complexas e o tempo é curto.

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1 comentário

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Arlindo Mendes

07 de abril de 2017 às 15h30

Excelente artigo.Parabéns.

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