Resposta a uma crítica de Idelber Avelar

Após o professor de literatura da Universidade de Tulane, Idelber Avelar, fazer uma série de ácidas críticas à blogosfera em sua página no Facebook, concernentes à Operação Carne Fraca, o colega Rodrigo Vianna foi lá e compartilhou o meu post Considerações e estatísticas sobre a Operação Carne Fraca.

Avelar não gostou. E rebateu vários pontos, de maneira extremamente agressiva. Esta é minha réplica. O texto dele vai em fonte normal. O meu vai em negrito e entre colchetes.

***

Idelber: Caro Rodrigo, tudo bem? Bom este post é mesmo um momento de rever velhos interlocutores, como você e o Renato. Faço-o com prazer. Em primeiro lugar, os prolegômenos. “Necrogovernista” é termo descritivo, não pejorativo, que se refere a algo que todo mundo sabe muito bem o que é: o conjunto de mídias alinhado com a defesa do governo que foi impichado em 31/08/16. Posso trocar por “ex-governista” se você quiser. Em qualquer língua existe um termo descritivo para designar essa posição política (por exemplo, em espanhol, como você sabe: “oficialista”). Então, larga de choramingo por causa de um termo porque eu estou apenas chamando as coisas pelos seus nomes.

[Necro vem do grego antigo ?????? (nékros), e significa “morto”. Diríamos, com muito mais exatidão, que Idelber é um necroblogueiro. Ele tinha um blog super legal, o Biscoito Fino e a Massa, onde reunia textos literários e políticos, defendendo o campo progressista. Era um petista de carteirinha, filiado ao partido em Minas Gerais e defendia o governo Lula com unhas e dentes. Nas crises políticas e períodos eleitorais, fazia hang outs para ajudar o PT na luta contra as manipulações da mídia.

O PT o convidava para debates. Eu o conheci, nesta época, no Rio de Janeiro, num seminário da UFRJ, após o qual tomamos alguns chops em companhia de outras pessoas. Eu lembro daquela conversa, em que ele  nos perguntou porque os cariocas não se engajavam em partidos. De fato, nós, cariocas, muito raramente damos bola para isso. Somos brizolistas, lulistas, votamos em Freixo, em Dilma, em Bolsonaro… mas raramente nos filiamos a partidos.

Então, um belo dia, para perplexidade geral, ele dá uma guinada radical e pula para o outro lado do balcão. Torna-se uma espécie de Roberto Freire com verniz literário, e começa a externar um antipetismo furioso, arrogante, agressivo. Não se sabe o que aconteceu para ele mudar tão radicalmente de um dia para outro. Não satisfeito em atacar o PT, o que ele tinha todo o direito, ou mesmo o dever, porque o PT e o governo Dilma mereciam mesmo muitas críticas, ele começou a girar sua metralhadora contra as pessoas que tentavam fazer um contraponto à mídia.

Daí começou a atacar a blogosfera. Brigou com todo mundo, inclusive comigo, por conta de uma polêmica envolvendo algo sobre machismo/feminismo. Mas perdeu o debate, fechou o blog e sumiu.

Alguns anos depois, ele se envolveu num escândalo que não quero comentar. Nessa ocasião eu o defendi, embora um tanto genericamente, postando no twitter que era contra linchamentos.

E agora vejo que ele voltou, com mais ódio ao PT e à esquerda do que nunca, no momento mais frágil e vulnerável vivido pelo campo progressista em toda sua história.

Fui olhar o seu Facebook ontem e notei que ele voltou a disseminar estereótipos rancorosos contra a esquerda, sempre com argumentos simplórios. Não sei se ele fazia isso antes contra a direita, mas quando dr.Jekyll assume de vez sua personalidade, e ele passa a agir como um obcecado antipetista, eu notei que sua estratégia era sempre a mesma. Ele a repete agora. Ele inventa um inimigo imaginário, um joão-bobo conceitual, idiota, ao qual castiga impiedosamente, apontando suas contradições. Não haveria nada demais em fazer isso, se ele não quisesse provar que seus adversários de carne e osso estariam representados por esse fantasma inexistente.

Sua especialidade tornou-se agredir a esquerda e a todos que consideram que houve um golpe no Brasil. Quando Raduan Nassar fez um protesto contra o golpe por ocasião da entrega do prêmio Camões, Idelber Avelar perdeu as estribeiras. Como pode? O maior escritor vivo protestando contra o golpe no Brasil? Ele estrilou e ofendeu Nassar, que, segundo ele, não poderia jamais ter feito aquilo.

Atacar o gentilíssimo e doce Raduan Nassar, um senhor de 80 anos que abandonou a posição confortável do olimpo celeste da glória literária, e veio lutar com a gente aqui no chão, ombro a ombro, foi um gesto de inacreditável mesquinhez e covardia. Mesmo se não concordasse com Raduan, qualquer ser humano decente o defenderia dos ataques grotescos que lhe lançou o ministro da Cultura, Roberto Freire, e admiraria sua coragem. Em se tratando de um professor de literatura, a mesquinhez se soma a uma avassaladora mediocridade.

Avelar tem se manifestado pouco publicamente, mas quando o faz é quase sempre para atacar algum quadro importante do campo progressista. Outro que mereceu sua peçonha foi o líder do movimento dos sem teto, Guilherme Boulos. O professor de Tulane lançou-lhe uma série de impropérios por causa da carta do ativista após ter sido demitido da Folha.

Idelber Avelar tornou-se, para usar uma metáfora literária, um animal quieto na esquina. Ele está à espreita, à espera de qualquer deslize ou suposto deslize da esquerda brasileira, para atacá-la, de preferência à sorrelfa, à traição, pelas costas. Como não pode mais lançar contra a blogosfera de esquerda as acusações de “governismo”, ele agora usa o termo “necro-governismo”, o que é um esforço desesperado para manter o preconceito vivo. A expressão ressalta o binarismo mal intencionado do professor. Não importa que tenhamos feito duras críticas ao governo Dilma. Como não pertencíamos à seita do ódio antipetista, da qual Idelber se orgulhava de ser um membro ativo, então éramos, automaticamente, governistas.

Além disso, Idelber tenta, malandramente, faturar com a onda antipetista e fascista que assola o Brasil. Não é preciso discutir muito, basta gritar bem alto na rua, apontando o dedo para nosotros: petistas! necrogovernistas! E sair correndo.

Raduan Nassar, aliás, em seu breve discurso no prêmio Camôes, denunciou essa onda, que incluiu depredações de sedes de partidos políticos e sindicatos, agressões físicas e verbais a militantes de esquerda, perseguição a juízes e procuradores antigolpe, denúncia de professores, funcionários e até mesmo reitores, sempre por razões puramente políticas. No ano passdo, na UFRJ, um estudante de arquitetura foi morto a pauladas por ser gay e… comunista.

Mas nada disso parece preocupar Avelar, protegido que está residindo nos Estados Unidos. O ódio dele ao PT é tão insano que ele passou a destilar rancor até mesmo a quadros do PSOL, como Marcelo Freixo, por serem “simpáticos” a algumas correntes do PT. ]

Você foge do assunto de novo ao fazer essa alusão escrota, meio moleque meio marota, a “professor radicado nos EUA”, como se o meu local de residência e trabalho fosse relevante, como se eu não fosse um cidadão brasileiro que se informa sobre as coisas do país e emite opinião com a mesma legitimidade de todo mundo. Já que o CEP a partir do qual eu escrevo é tão importante, gostaria que lhe informar que escrevo neste momento de Aracaju, e que só por respeito ao seu trabalho mesmo estou me dignando a debater um texto tão ruim e estapafúrdio como esse que você colou aqui – hoje é dia de Sergipe x Confiança no Batistão e eu ainda não tenho ingresso. Em todo caso, você aceita o convite a não fulanizar o debate para logo depois voltar atrás e fulanizar de novo, falando de “professor radicado nos EUA”, deixando no ar, em meio a todas essas bizarras acusações de que os EUA estão por trás da operação da PF, algum tipo de sugestão de que o meu lugar de residência determine o que eu digo – claro, isso você não diz, mais deixa aí pairando, como possibilidade, como acusação meio marota.

[É impressionante e divertido como Idelber fica abalado e ofendido com a informação de que ele está “radicado” nos EUA. E aí ele faz a primeira menção ao meu texto, chamando-o de “ruim” e “estapafúrdio”. Mais adiante vou rebatê-lo.]

Larga de besteira porque eu não falei fino com ninguém nem grosso com ninguém. Assisti / li uma dúzia de reportagens e emiti opinião sobre elas. Mantenho-a: tudo o que é informação relevante foi dada pela imprensa tradicional, e a ex-governista se limitou a fazer um papelão de justificar papelão na carne. Já que vamos permitir ad hominem na conversa, permito-me uma frase: eu sei do seu enorme rancor com a Globo, da sua enorme obsessão com a Globo, mas isso é problema seu, não meu. Eu só disse o óbvio: a reportagem da Globo é grosseiramente desproporcional em favor dos frigoríficos, mas pelo menos contém a informação que interessa. As “reportagens” da imprensa ex-governista são só puxação de saco do agronegócio mesmo. Vamos ao que interessa, esse texto maluco que você colou aqui.

[Idelber não consegue esconder o ódio – inexplicável, a meu ver – contra o lado mais vulnerável e frágil dos campos opostos que debatem política no país, a blogosfera, cujo trabalho ele compara aqui com a máquina da Globo, a maior empresa de mídia da América Latina, uma das maiores do mundo, comandada por uma família dona de uma fortuna de dezenas de bilhões de reais. Eu tenho um blog, O Cafezinho, que nunca teve apoio do governo americano ou de corporações americanas, como teve a Globo. Nunca teve apoio de governos, como teve a Globo. Para o necroblogueiro Idelber Avelar, no entanto, a “informação que interessa” está na Globo].

O autor começa com pérolas como:

1) “Se a PF identificou, há mais de dois anos, que havia problemas no mercado de carne, deveria ter alertado o governo, as empresas e os cidadãos, para que ninguém tivesse prejuízo.”

Qualquer vegetal sabe que se o governo e as empresas estão sendo investigados, é ÓBVIO que eles não têm que ser alertados coisa nenhuma. Não existe isso: “oi, governo, estamos aqui investigando esse esquema de corrupção no qual você está submerso”; “oi, JBS, estamos aqui investigando esse esquema de corrupção que vocês comandam”. Não, Rodrigo, polícia investigativa nenhuma faz isso.

[Sim, Idelber. Se há indícios de falhas na fiscalização da carne no Brasil, a obrigação da PF não é esperar dois anos, à espera de oferecer um espetáculo grandioso à mídia, e sim avisar imediatamente ao governo, para que as providências sejam tomadas hoje e não daqui a dois anos. A PF não investiga o “governo”, que tem centenas de milhares de servidores, e sim alguns funcionários da máquina administrativa. A PF tem de servir ao governo, e não à Globo. Ao governo, caberia imediatamente alertar as frigoríficas, para que demitissem os empregados e executivos que estivessem cometendo crimes. E assim ninguém sairia prejudicado. A função da polícia é prevenir crimes, e não ficar à espreita, durante anos, esperando alguém cometê-lo para depois punir. Isso não tem sentido. Se houvesse suspeita de que determinada empresa de água estaria usando produtos tóxicos na água potável de uma grande cidade, o certo seria a PF aguardar dois anos, esperando que a cidade inteira servisse de “prova” do crime, ou avisar o governo para que impedisse que houvesse continuidade da contaminação?  

Além disso, é um esquerdismo incrivelmente vulgar, caricatural, infantil, achar que as grandes frigoríficas nacionais, que gastam milhões de reais com certificadoras internacionais, que passaram anos lutando para conquistar mercados ultra-exigentes, como o americano ou europeu, ou o governo, seja de Dilma ou Temer, teriam algum interesse em permitir que frigoríficos vendessem carne contaminada. Ou então golpismo, o que é o caso da PF: ao invés de pensarem no consumidor, nas empresas e na estabilidade política do governo, que é seu superior hierárquico, ficaram de olho num novo grande “escândalo” midiático.] 

2) “Enquanto os serviços de segurança de outros países entendem que sua missão é proteger as empresas nacionais e defender os interesses do país, o nosso sistema de repressão vê tudo com as lentes de um agente inimigo.”

Isso é uma caricatura sem qualquer relação com o existente no mundo. Nem o FBI (já que gostam tanto de tomar os EUA como exemplo) costuma sair acobertando investigação de fraude de empresas americanas (qualquer pessoa que saiba qualquer coisa sobre os EUA sabe disso) nem a PF brasileira é essa força com “lentes de agente inimigo”. Vocês têm que sair desse esquema nacionalista velho, ultrapassado, obcecado com “a defesa do nacional”, como se esses conglomerados frigoríficos já não fossem, para todos os efeitos, empresas multinacionais. Quer fazer uma crítica da polícia? Abandone essa muleta boba de “polícia boa” (a dos outros países) versus “polícia ruim” (a brasileira).

[Os serviços de segurança dos EUA, como o FBI, a CIA e a NSA vão muito além de “acobertar” a fraude de empresas americanas. Eles prestam serviços, oficialmente, para corporações americanas, contratam-nas, fazem guerras em seu benefício. Matam por elas. Claro que o FBI combate a fraude nas empresas americanas, mas jamais as destróem, pelo menos não aquelas que são estratégicas para a conquista de mercados no exterior. Uma coisa é combater fraude numa firma de investimento em Boston, outra é destruir a cadeia de produção da mais importante indústria agropecuária do país, responsável não apenas por boa parte do PIB brasileiro, como integrante de um setor que lida com a nossa segurança alimentar. Tem de haver investigação, fiscalização, mas sem desorganização do setor.  Os conglomerados são empresas multinacionais, mas a carne é brasileira. Esses conglomerados contratam produtos brasileiros e empregam trabalhadores no Brasil. ]

 

3) “Uma das denúncias, de que uma empresa misturava “papelão” às carnes, parece já ter caído por terra. Foi “mal entendido” da PF, que divulgou uma gravação, em que um executivo falava, na verdade, da embalagem do produto.”

O autor não tem a menor noção do que tá dizendo. O trecho interceptado diz o seguinte:

“Funcionário: o problema é colocar papelão lá dentro do cms também né. Tem mais essa ainda. Eu vou ver se eu consigo colocar em papelão. Agora se eu não consegui em papelão, daí infelizmente eu vou ter que condenar.
Luiz Fossati: ai tu pesa tudo que nós vamos dar perda. Não vamos pagar rendimentos isso.”

CMS significa “carne mecanicamente separada”, é uma máquina que separa os ossos e cartilagens e aproveita toda a musculatura do bicho. Se eles colocam papelão DENTRO do CMS, é porque vai papelão misturado com a carne processada sim! (hat tip: Sergio Bento). Sim, os caras estão falando da embalagem. Acontece que a CMS não pode ser embalada em papelão, porque gruda tudo naquela meleca e, no fim das contas, o produto feito com CMS fica cheio de papelão (hat tip: Vinicius Duarte).

O autor está querendo corrigir a imprensa e a PF sem sequer saber disso?

[A própria imprensa comercial deu a informação sobre o papelão. Não estou corrigindo nada, estou reproduzindo uma informação da Folha de São Paulo. Segundo a reportagem da Folha, a expressão “dentro da CMS” não é dentro da carne, e sim dentro da área onde o CMS é armazenado. O fato é que não foi encontrado papelão em nenhuma carne. Há apenas essa gravação, a qual foi dada uma interpretação possivelmente apressada e leviana pela PF.]

Mas a parte mais divertida do texto vem a seguir:

4) “Não houvesse o impeachment, a PF e a mídia estaria usando essa operação como mais um instrumento para “derrubar” o governo.”

Uai, eu não tô entendendo, Rodrigo. Não estamos no governo Temer? O objetivo não era “Fora Temer”? Se a imprensa e a PF estão “espetacularizando” operação policial, eles não estão desestabilizando o Temer? Não estão contribuindo com o Fora Temer? Vocês não deveriam se juntar a isso então? Ou o Fora Temer é de mentirinha?

[Aí entra o binarismo de Idelber Avelar. Para ele, a esquerda brasileira é um bando de maluquinhos gritando Fora Temer. Ah, desestabiliza o governo, então somos a favor. Por esse raciocínio, seríamos a favor do desmantelamento de todas as nossas cadeias de produção, porque isso “desestabilizaria” o governo Temer. 

Tenho desconfiança, porém, que o esquerdismo vulgar, hipócrita, envernizado de Idelber não liga para coisas tão chãs como “emprego, renda e crescimento econômico”. Ele deve achar que a prosperidade americana, europeia, japonesa, chinesa, nasceu do talento de suas respectivas polícias, e não de suas empresas.] 

Fora isso, a “ampla pesquisa” do Cafezinho são três quadros de estatísticas – lugar do Brasil no comércio mundial de carne, porcentagem das várias carnes entre as exportações e lugar das carnes entre as exportações brasileiras – que são mais que conhecidos e estão por aí na internet. Não são estatísticas que eu ignore. O texto tem a pretensão de ser “técnico” e compilar “dados” para provar algo, mas só consegue dizer bobagem mesmo. É risível o sujeito dizer que “O Cafezinho fez uma ampla pesquisa, junto a órgãos oficiais do governo brasileiro e dos EUA” para apresentar … TRÊS QUADROS QUE ESTÃO NA INTERNET!

[Calma, professor! Sem caixa alta! Hoje em dia, tudo está na internet, sim, mas o Cafezinho passou a noite inteira copiando e organizando dados do Foreign  Agricultural Service (FAS) do United States Department of Agriculture. Não é tão fácil como você pensa. A tabela do ranking mundial é um resumo de sete ou oito tabelas presentes no último boletim do FAS sobre carne. Os dois outros quadros trazem números extraídos de várias tabelas do Sistema Alice, o banco de dados online da Secretaria de Comércio Exterior, órgão vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Da mesma forma, não é tão simples não. Eu tive que copiar os dados, editá-los, simplificá-los, e tudo sozinho. Por fazer tudo sozinho, perdendo toda a minha noite de sábado, talvez, eu tenha me deixado empolgar e usei um adjetivo que não devia: “ampla pesquisa”. Deveria ter sido mais modesto e elegante, e dito simplesmente que fiz uma pesquisa, ponto. Mas os dados não estão “por aí” na internet, não. São exclusivos do Cafezinho. Na internet, só encontrei dados desatualizados, naturalmente. Eu trouxe novidade! Não entendi porque tanta irritação pela parte mais técnica e, por assim dizer, menos política, do meu trabalho. Eu não vi essas informações em nenhuma reportagem da grande imprensa, por exemplo. ]

Ele conclui com essa gigantesca bobagem aqui: “ Repare ainda que o preço médio da carne brasileira cresceu de maneira extraordinária de 2002 até hoje, o que mostra que estamos vendendo carnes de melhor qualidade, e atingindo mercados mais nobres.”

Qualquer aluno de primeiro período de economia sabe que o preço das carnes brasileiras – assim como das carnes de qualquer lugar – subiu pela lei da oferta e da procura, acionada na década passada pela demanda enorme que vinha da China, que experimentava taxas de crescimento absurdas. Foi o chamado “boom das commodities”, que eu tenho certeza que você não ignora. Não tem nada a ver com “carnes de melhor qualidade”. Pura lei da oferta e da procura acionada pelo boom – que já acabou, caso você não tenha percebido.

[Professor, o Brasil ganhou novos mercados de carne nos últimos anos. Após décadas, conseguimos finalmente adentrar o rigoroso mercado norte-americano, por exemplo. Os frigoríficos brasileiros, para conquistar novos mercados ou consolidar os já existentes, precisam de inúmeros certificados internacionais, que não são subordinados a nenhum governo. Os preços internacionais da carne subiram paralelamente ao crescimento de nossa fatia no mercado mundial. Ou seja, ganhamos duplamente. É preciso muita má vontade para não valorizar as vitórias do Brasil no mercado mundial de carne, que é extremamente competitivo e rigoroso. ]

Esse sonho aí de um capitalismo benigno nacional, apoiado nesse agronegócio ecocida, já foi tentado na década passada como grande pilar de projeto de nação e redução de desigualdade. E fracassou. Acabou, kaput. Vocês estão atrasados para perceber isso e ficam aí passando vergonha, defendendo frigorífico que adultera carne podre para pagar propina a políticos.

[Professor, eu não sou fã do agronegócio, tampouco da indústria de carnes. Eu tento consumir apenas alimentos orgânicos e, se houvesse “carne orgânica, produzida por pequenos produtores” à minha disposição, eu também passaria a preferi-la. Até ovos, eu só compro agora orgânicos e caipiras. Gosto de imaginar as pobres galinhas vivendo em liberdade, tranquilas e felizes. Tem muita coisa ultrapassada no Brasil, sim, como tem no mundo inteiro, e o agronegócio pode ser uma delas. Seria uma maravilha se o Brasil pudesse viver de exportação de tecnologia, filmes e séries, como os Estados Unidos. Não é o caso. Temos que viver da venda de soja, ferro e carne, o que não é, porém, nenhuma desonra, e por isso precisamos de uma indústria qualificada, prestigiada, organizada. Governo e órgãos de segurança devem ajudar, e não agir como inimigos em tocaia, à espera de algum erro que lhes permita destruí-la. 

Trabalhei como jornalista de café durante mais de 15 anos, editando com meu pai uma newsletter chamada Coffee Business, que tinha milhares de assinantes, a maioria produtores, mas com muitos exportadores e torradores também. Defendíamos o crédito para pequenos produtores, mais assistência técnica para eles, e investimentos e ações que elevassem o percentual da exportação do produto já industrializado. A direita cafeeira nos atacava impiedosamente, e mesmo assim tínhamos o respeito de muitos empresários e fazendeiros, inclusive grandes, pela seriedade do nosso trabalho, mesmo sabendo que éramos, eu e meu pai, de esquerda. Os produtores menores que assinavam o nosso jornal adoravam o serviço. Nos viam como uma força progressista, que trabalhava para o fortalecimento do setor. 

Durante anos, fomos o principal veículo de informação cafeeira do Brasil. Em seguida, trabalhei uns sete anos para um site americano, chamado CoffeeNetwork, onde eu escrevia, diariamente, duas notas em inglês, sobre mercado internacional de café. 

Acompanhei a enorme recuperação da agricultura familiar promovida pelo governo Lula, através do aumento dos recursos destinados ao Pronaf, que fizeram uma pequena revolução no campo.

Defendo uma reforma agrária ampla e profunda. Mas tudo tem de ser feito com planejamento, sem destruir nenhuma cadeia produtiva, porque não podemos nos dar a esse luxo.

A sua última frase (” passando vergonha, defendendo … pagar propina a políticos”) é atrozmente vulgar, e prefiro não respondê-la.  Nosso debate pode ser melhor que isso.

Peço desculpas se demonstrei irritação ou sarcasmo em algum momento do texto, e também relevo qualquer irritação de sua parte. Debate bom na internet é assim mesmo, acalorado, franco, direto.  

Não sou dono da razão, devo estar errado em vários pontos, e agradeço pela oportunidade de debater com um ser tão iluminado como vossa excelência. 

Cordialmente, Miguel do Rosário

Editor do blog O Cafezinho.]

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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