Sabatina de Manuela na Carta Capital

Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil

Plano Lula: a armadilha do pragmatismo irreal

Por Tadeu Porto

11 de junho de 2018 : 12h07

[Esse é o terceiro texto de uma série que prometi aqui]

No primeiro texto da série “Plano Lula” escrevi sobre a importância do Lulismo. Já no segundo, fui um pouco além da figura do presente com uma breve análise de conjuntura, sobre o futuro do país, principalmente acerca do pleito de 2018.

O assunto desse texto em sequência reflete um debate que irá se aprofundar na medida que o caos político que toma conta do país aponte uma definição: “o que fazer?” diante esse quadro de dificuldade.

São diversas as ações pensadas, inclusive dentro da própria esquerda, para sairmos da crise oriunda do Golpe de 2016. E a escolha para a melhor ação passará, sem dúvidas, pela prática do pragmatismo.

Contudo, uma má leitura da conjuntura pode ser fatal para uma jogada pragmática, afinal, o êxito prático pode nos fazer perder detalhes importantes de construção para demandas duradouras.

Na hora, por exemplo, me vem um fato recente da nossa política: a vitória da presidente Dilma nas eleições de 2014 e as ações tomadas após a vitória que a afastou, justamente, da base social e popular que trabalhou arduamente para a eleger.

Vale relembrar, o documento que o ex secretário da SECOM, Thomas Trauman, “vazou sem querer” com uma análise de que o governo estaria “tomando uma surra” em sua imagem por causa da indicação do Levy. Corroborado com uma análise de Delfim Neto, que não é nada de esquerda mas tem uma visão experiente do processo político e econômico do país, que foi muito feliz em relembrar, numa entrevista ao 247 em março de 2017,  que “Quem votou na Dilma, no dia em que ela nomeou o Joaquim Levy se sentiu traído”.

Outro exemplo foi o “nem que a vaca tussa” que Dilma lançou na eleição mais acirrada da história brasileira para, logo em seguida, mudar regras trabalhistas através de Medida Provisória a ponto do movimento sindical – pilar de sustentação histórico do partido – ter que se pronunciar contra o governo, com a célebre frase “a vaca tossiu”.

A correlação de forças institucionais do momento, com o congresso mais reacionário do país e o mercado financeiro se fortalecendo (seus representantes eleitos, claro) levou o governo a enxergar a necessidade de ceder ao outro lado da disputa.

Ou seja, Dilma em 2014 foi eleita por uma grande frente ampla de esquerda que, embora não formada oficialmente, se juntou principalmente no segundo turno por um projeto de país. E, depois de eleita, sinalizou demais para a direita perdendo o apoio do arranjo popular que a elegeu.

Não é de bom tom tentar ser profeta do acontecido. Mas, com o desenrolar dos fatos, é factível assumir que a leitura do governo Dilma não foi tão verossímil.

Por isso, ficamos na imaginação do que ocorreria se a Dilma tivesse caído com uma agenda progressista em movimento reafirmando bandeiras importantes por país: no mínimo, o debate tomaria outro rumo.

Esse é um erro comum no pragmatismo (prática que não condeno, diga-se de passagem), quando as tomadas de decisões não encontram respaldo na conjuntura.

E esse pode ser o erro da esquerda em geral, caso abra mão da defesa de Lula em prol de uma candidatura que não atenda os anseios em geral. Já vimos em 2014 que vitória em eleição pode não servir de nada e, desde aquele tempo, o apoio popular do dia a dia talvez tenha mais peso que votos em urnas.

O sentimento da população, muito bem traduzidos pelas pesquisas e pelas ruas, é de uma polarização que afunilou, abertamente, na dialética Lava-Jato x Lula.

Veja, por exemplo, a dificuldade enorme que a direita tem em emplacar um candidato pois nenhum candidato tradicional conseguiu assumir o legado da “operação engodo” (como chamou Jessé de Souza) e, com isso, não consegue arrastar os votos da polarização.

O candidato que mais representa, atualmente, a Lava-jato é Bolsonaro, não coincidentemente pelas ideias proto fascistas que ele representa e que são cruciais para a existência de uma operação tão antidemocrática e autoritária.

Nesse sentido, a escolha de um caminho que ignore a saída Lula, tende a seguir o mesmo problema e, com isso, não ter o apoio popular necessário para poder mudar o sistema do país. A resiliência do maior presidente da história nas pesquisas não pode ser ignorada ou analisada como uma simples passagem de votos

Junto com o desejo de votar em Lula há, também, a vontade de se fazer justiça e lutar pelo país. Enquanto nenhum candidato, naturalmente, assumir essa responsabilidade, qualquer saída que ignore Lula será um fracasso como foi o segundo mandato da presidenta Dilma.

Tadeu Porto

Colunista do Cafezinho e diretor da Federação Única dos Petroleiros e do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense.

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10 comentários

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Ed

12 de junho de 2018 às 01h59

Eu entendo a defesa de Lula que o texto faz, concordo que Lula foi o melhor presidente da história recente e que sua política social efetivamente melhorou a vida dos mais pobres. Entretanto para qualquer análise atual factível deve levar em consideração o momento econômico e político que o país está, estes são muito diferentes daqueles que propiciaram àquelas políticas realizadas por Lula. Dificilmente teremos outro “boom” dos preços das commodities que exportamos, e que foi fundamental para alavancar a política econômica do governo de Lula, hoje é extremamente necessário um projeto de desenvolvimento que pense em uma reindustrialização do país, fato que os governos do PT ignoraram, ademais no campo político, hoje, Lula gera na mesma proporção, amor e ódio, seria extremamente complicado governar neste cenário, e acreditar que ele conseguiria milagrosamente orquestrar um governo que nos tirasse da crise econômica que vivemos, com tamanha ferocidade da oposição é ser no mínimo muito irrealista. Também acho que o texto é um tanto contraditório, ao mesmo tempo que mostra os equívocos cometidos por Dilma, do PT, chama a todos da esquerda a apostar todas as suas fichas em Lula, que também é do PT, eu sei que Lula não é a Dilma, mas as trapalhadas de Dilma foram feitas baseadas em medidas que o próprio governo de Lula havia praticado e que funcionou, pois como dito anteriormente, o contexto econômico e político fora outro. Afirmo tudo isto para mostrar que, mesmo que fosse permitido que Lula concorresse, o que não será no contexto do golpe, ainda assim não acredito que ele seja a melhor opção para o país neste momento, ele não iria conseguir governar, e se tentasse implementar a mesma política econômica adotada em seus governos, fracassaria.

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Antonio Passos

11 de junho de 2018 às 13h13

Que Dilma é louca, isto eu e muitos dizemos aqui desde 2014. Muito pior do que Levy foi manter o Zé e permitir a bandalheira que a Lava Jato promoveu. É importante dizer que SEM golpe e MESMO com Levy, hoje o Brasil estaria MUITO BEM. E considerar também que o povo elegeu Dilma, mas com ela elegeu um congresso de bandidos. Fica difícil né ?

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Leandro_O

11 de junho de 2018 às 13h10

Ok. Vamos então supor o seguinte cenário, um exercício básico, algo que o pessoal da caserna faz rotineiramente mas que a esquerda não (coloca uma coisa na cabeça e vê o que vai dar): chega em cima da hora, proibem Lula e não sai o nome dele nas urnas e nem a foto, nem nada. E aí? O povo vai tomar as ruas bem na época da eleição? Vai mesmo? Assim, de um dia para o outro a CUT e todos os movimentos que não conseguiram movimentar nada atpe agora, saírão em dezenas de milhões às ruas? Quem viver, verá.

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    Curió

    11 de junho de 2018 às 14h39

    Assim… eu desenho… o povo não vai pra rua, o povo vai votar no Amorim, Gleise, no poste ou no bode, simples assim. Recapitulando: não sabemos ainda, por questão estratégica, quem serão os indicados pelo Lula. Uma coisa é certa eles estão ficando louquinhos louquinhos louquinhos!

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    Sergio Sete

    11 de junho de 2018 às 14h56

    Exato.
    Ele é inelegível por força de lei.
    Todo esforço de análise, diagnóstico e prognóstico em relação ao presidiário Luis Inácio é à toa.

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    Mordaz

    11 de junho de 2018 às 19h32

    Pode não sair foto ou nome, mas o “13” estará lá.

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      Sergio Sete

      12 de junho de 2018 às 09h09

      Sim, estará caso o PT consiga um aliado que queira se afundar com ele.

      Responder

Nilo Ricar

11 de junho de 2018 às 12h40

Pela “força” da “operação engodo” e pragmatismos a parte, fica evidente que Lula terá que passar o bastão, como passou para Dilma no fim do seu segundo mandato… o ritmo, a forma de como isso será feito é o que definirá a resistência e a vitória passo a passo contra esse golpe dissimulado e por isso o mais sujo da história…..que as mentes trabalhem sem egoísmos e como disse um personagem especial de um grande filme: mate esse demônio que está dentro de você ou não viverá para vê lo outro dia…..lutemos com a cabeça e esqueçamos o coração….outra pérola do mesmo filme…..A guerra é gigante e a virada será nas urnas ou com as multidões nas ruas….O perigo é não ocorrer nem uma e nem outra e aí o assassinato da democracia estará completo…..e quem briga pela revisão do engodo, muitas vezes entre si, será cúmplice pela falta vergonhosa do nosso congresso em 2016…..De boas intenções o inferno está cheio….velho ditado cada vez mais atual….

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Olinto A. F. de godoy

11 de junho de 2018 às 12h30

Guinadas TODO governo dá. O problema é quem as dá. O grnade erro estratégico da Dilma, foi só ouvir seus gurus Mercadante e Zé Cardoso com suas ambições pessoais escanteando Lula e recorrendo a este quando o golpe já estava consolidado. Por isso ela fica vagando prá lá e pra cá para expiar seu pecado maior. Se PT quisesse reparar o golpe não deveria indicá-la para vice do Lula? E porque não faz?

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    Curió

    11 de junho de 2018 às 14h32

    Falar em ditado… ” Depois da mulher casada não falta marido!…”

    Responder

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