O Ibope e os desafios da rejeição

O Ibope divulgou hoje o relatório completo da pesquisa feita entre os dias 16 a 18 de setembro.

Vamos fazer aqui uma análise completa dos dados estratificados, por renda, região, gênero, idade, instrução, acrescentando os comentários que acharmos pertinentes. Os dados são relativos à intenção de voto no primeiro e no segundo turnos, à influência de Lula sobre os eleitores, e à rejeição.

Os números principais já foram divulgados aos quatro ventos: Bolsonaro oscilou 2 pontos para cima e chegou em 28%; Haddad saltou para 19%, recebendo a migração em massa do voto em Lula; Ciro conseguiu sobreviver à segunda grande onda da tsunami lulista (a primeira foi na semana passada), mantendo modestos mas valorosos 11%.

O número de brancos e indecisos caiu dramaticamente, estabilizando-se em níveis já considerados normais, sinalizando uma possível acomodação dos percentuais dos candidatos. Alguns analistas acham que a eleição pode entrar uma etapa de polarização mais aguda, com os eleitores se distribuindo entre pró e anti-PT, mas a minha impressão é que isso não vai ocorrer agora, na primeira rodada.

Entretanto, mesmo que a polarização não se intensifique mais do que já está, não podemos esquecer que ela atingiu um nível muito extremo. Boa parte da força de Bolsonaro pode ser atribuída à rejeição ao PT. Os percentuais mais altos de Bolsonaro se dão exatamente naqueles segmentos onde o PT enfrenta seus mais problemáticos índices de rejeição.

Entre mulheres, Haddad já empatou com Bolsonaro:  19% X 20%. Entre homens, porém, Bolsonaro tem 36%, contra 18% de Haddad e 12% de Ciro.

A força de Haddad passou a se concentrar no eleitorado que tem até quarta-série do ensino fundamental, onde ele agora pontua 24%, contra 18% de Bolsonaro e 11% de ciro.

Entre brasileiros com ensino médio, Bolsonaro lidera isoladamente, com 31%, contra 17% de Haddad e 11% de Ciro.

Entre brasileiros com ensino superior, Bolsonaro tem seu melhor desempenho, 36%, contra 13% de Haddad e também 13% de Ciro.

 

Na estratificação por renda, Bolsonaro tem sua melhor performance entre eleitores que ganham mais de 5 salários de renda familiar, onde ele pontua 41%, contra 13% de Haddad e 10% de Ciro.

Ciro ainda resiste porque tem voto de pobre: o pedetista tem 12% em todas as faixas de renda mais pobres (até 1, de 1 a 2, de 2 a 5), inclusive empatando com Bolsonaro junto aos mais pobres, com 12%. Nessa faixa, Haddad já recebeu boa parte da migração lulista, atingindo 27% das intenções de voto.

Analisemos agora o problema da rejeição, que é fundamental para desenvolvermos as estratégias políticas corretas para o  segundo turno.

Comecemos pelos quadros que apuram o poder de influência de Lula sobre o eleitor. Entre eleitores com renda familiar acima de 5 salários, 65% responderam que o apoio de Lula a Haddad levariam-nos a não votar “de jeito nenhum” nele.

Entre eleitores que ganham de 2 a 5 salários, 56% responderam que não votariam de jeito nenhum no candidato apoiado por Lula.

Entre os que ganham de 1 a 2 salários, 45% responderam que não votariam no candidato de Lula.

É apenas entre eleitores que ganham até 1 salário que o jogo se inverte: 33% (ainda sim um número expressivo) dizem não votar de jeito nenhum no candidato apoiado por Lula, contra 38% que responderam votar “com certeza” no candidato apoiado pelo ex-presidente.

Na estratificação por gênero, uma diferença importante: 55% dos homens disseram não votar “de jeito nenhum” no candidato apoiado por Lula, contra 43% das mulheres que tem a mesma opinião.

Entre eleitores com ensino superior, 62% deles responderam não votar “de jeito nenhum” no candidato apoiado por Lula.

Entre eleitores com ensino médio, que formam o segmento mais expressivo do eleitorado, 51% responderam que não votariam de jeito nenhum no candidato apoiado por Lula.

A faixa etária onde Lula encontra mais problemas está entre 45 e 54 anos, um segmento influente do eleitorado, porque é a idade usual em que os cidadãos se encontram no auge de sua carreira profissional: 52% dos eleitores nessa faixa responderam que não votariam de jeito nenhum no candidato apoiado por Lula.

 

Voltaremos ao tema da rejeição mais adiante, quando estudarmos o índice de cada candidato, segundo os dados estratificados.

Agora vamos examinar as projeções feitas pelo Ibope para o segundo turno. Façamos uma análise comparada entre Ciro e Haddad no embate contra Bolsonaro.

Ambos, Ciro e Haddad, empatam rigorosamente com o candidato do PSL: todo mundo tem 40%. Mas há algumas diferenças importantes na distribuição interna dos eleitorados de cada um, sobretudo nas colunas de renda e escolaridade.

Haddad vai mal justamente naqueles segmentos onde o PT tem mais rejeição, que é na classe média e entre eleitores mais instruídos.

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Rápida digressão: a rejeição nesses segmentos não pode ser normalizada pelo PT. Ela representa uma vulnerabilidade muito grave para o partido, a campanha e um eventual governo. O eleitor mais pobre sai de casa no dia da eleição, escolhe seu candidato na urna eletrônica, e volta para casa. Ele se envolve pouco com política, um assunto bizantino demais para ele, ainda mais agora que passou a se confundir com debates complicados sobre direito penal.

É por isso que, no dia seguinte à eleição, a classe média volta a assumir o controle do debate político e da opinião pública.

A própria configuração urbanística do país alienou esse eleitor mais pobre, geograficamente falando. Ele está isolado em periferias de difícil acesso, ou em cidadezinhas com pouco ou nenhum transporte público.

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No cenário com Ciro Gomes, a disputa no segundo turno com Bolsonaro corresponderia a um percentual de 48% X 35% entre eleitores com grau superior. Uma vantagem de 13 pontos para o capitão.

No embate entre Haddad e Bolsonaro, na tabela por estratificação de escolaridade, o petista tem 31% e Bolsonaro 51% entre eleitores com nível superior. Uma vantagem de 20 pontos para Bolsonaro.

 

Na comparação por renda, o desempenho de Ciro Gomes, num eventual segundo turno com Bolsonaro, entre eleitores com renda superior a 5 salários, é de 54% X 32%, com vantagem para o capitão. Diferença de 22 pontos em favor de Bolsonaro.

No embate Haddad x Bolsonaro, ainda para este segmento de maior renda, o placar ficaria 57% X 29%, uma vantagem de 28 pontos para o militar.

 

Na comparação por região, Ciro e Haddad tem desempenhos parecidos. As diferenças marcantes são referentes à faixa de renda e nível formal de instrução.

Rejeição

Os números de rejeição mostram uma tendência com a qual a campanha de Fernando Haddad deveria se preocupar. O petista já tem 37% de rejeição entre homens, índice superior ao de Bolsonaro, que é de 33%. O problema de Bolsonaro são as mulheres, entre as quais ele tem 50% de rejeição.

Entre eleitores com ensino superior, Haddad tem rejeição de 46%, que é 10 pontos acima da rejeição de Bolsonaro nesse mesmo segmento, de 36%.

Entre eleitores com renda familiar acima de 5 salários, Haddad já tem rejeição de 48%, bem acima da rejeição enfrentada por Bolsonaro neste segmento, que é relativamente normal, de 33%.

Nesta quinta-feira, sai um novo Datafolha, que nos permitirá entender melhor a dinâmica eleitoral: se já está havendo acomodação do quadro pelos moldes retratados no Ibope de ontem, se Haddad vai continuar avançando, se Ciro está mesmo resistindo à segunda grande onda de migração de votos lulistas, e se, por fim, Alckmin entrou definitivamente em declínio, podendo ser considerado carta fora do baralho.

Conclusão

A esquerda tem de tomar cuidado para analisar a posição de Bolsonaro nas pesquisas sem preconceito ideológico. Não é razoável pensar que a hegemonia impressionante do deputado junto aos eleitores com renda superior a 5 salários e mais instruídos seja resultado exclusivamente do avanço do “fascismo”.

Outro erro político da esquerda seria esnobar a classe média e os eleitores mais instruídos, vendo-os, vulgarmente, como representantes de uma “elite”. Não são elite. A classe média brasileira, inclusive a sua franja mais educada, é pobre, vive no limite de suas posses e está permanentemente exposta a enormes riscos financeiros e profissionais.

Em qualquer país e em qualquer época histórica, a esquerda precisa sempre do apoio dos setores mais instruídos da sociedade, de maneira a usar sua capacidade crítica e analítica para enfrentar a força bruta do capital financeiro. Ao perder o apoio da classe média, o PT abriu caminho para o golpe. Se não reconquistá-la, se não reconstruir uma massa crítica instruída com tamanho suficiente, a esquerda estará sempre vulnerável a outra rasteira institucional, possivelmente muito mais brutal e mais difícil de reverter que o golpe de 2016.

Uma parte do eleitorado do Bolsonaro é composta de voto útil anti-PT, que é na verdade um voto antissistema, já que o PT é associado (equivocadamente, como sabemos) a um conjunto de instituições e valores, como a imprensa e os direitos humanos. Muitos eleitores de Bolsonaro consideram a Globo, a Folha, o Datafolha, o Ibope, como instituições simpáticas ao PT.

Essa visão messiânica, hiperbólica, do PT, atribuindo a ele mais força do que ele realmente tem, acabou, paradoxalmente, por inflar o partido com um falso poder de influência. Os bolsominions vêem “petismo” em movimentos de opinião pública que são, ao contrário, completamente independentes do PT.

O antipetismo construído pela mídia, por sua vez, precisa ser separado do desgaste natural de um partido que governou o país por muitos anos. É de se pensar, ainda, até que ponto o antipetismo empurrou parte do eleitorado para posições ideológicas que não são orgânicas. Com algum esforço de comunicação e política, uma parte dessas pessoas pode escapar do radicalismo conservador e incorporar-se às lutas por mais emprego, educação e saúde, demandas comuns a todo mundo que trabalha. A fatia mais ideológica de Bolsonaro deve corresponder a um percentual relativamente pequeno de seu eleitorado.

Combater a rejeição na classe média e nas faixas mais instruídas é tão importante, para a esquerda, quanto ampliar sua intenção de votos, tanto para ganhar as eleições como para governar em seguida. A fórmula para isso é um pouco diferente da campanha destinada aos mais pobres, que usa uma linguagem mais emotiva. As faixas instruídas precisam ser seduzidas por planos de governos inovadores, criativos, ambiciosos, fazendo-as desfrutar, antecipadamente, em sua imaginação, das delícias do desenvolvimento. Pensar grande é preciso: um país cruzado por trens de alta velocidade; indústrias avançadas e competitivas internacionalmente; uma comunicação pública arrojada, corajosa; e ideias para um sistema nacional de comunicação muito além dos clichês bolorentos (e confortavelmente inatingíveis) sobre “regulamentação da mídia”…

 

 

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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