Cafezinho 5 minutos – comentários diários de Miguel do Rosário

O Ibope e os desafios da rejeição

Por Miguel do Rosário

19 de setembro de 2018 : 18h59

O Ibope divulgou hoje o relatório completo da pesquisa feita entre os dias 16 a 18 de setembro.

Vamos fazer aqui uma análise completa dos dados estratificados, por renda, região, gênero, idade, instrução, acrescentando os comentários que acharmos pertinentes. Os dados são relativos à intenção de voto no primeiro e no segundo turnos, à influência de Lula sobre os eleitores, e à rejeição.

Os números principais já foram divulgados aos quatro ventos: Bolsonaro oscilou 2 pontos para cima e chegou em 28%; Haddad saltou para 19%, recebendo a migração em massa do voto em Lula; Ciro conseguiu sobreviver à segunda grande onda da tsunami lulista (a primeira foi na semana passada), mantendo modestos mas valorosos 11%.

O número de brancos e indecisos caiu dramaticamente, estabilizando-se em níveis já considerados normais, sinalizando uma possível acomodação dos percentuais dos candidatos. Alguns analistas acham que a eleição pode entrar uma etapa de polarização mais aguda, com os eleitores se distribuindo entre pró e anti-PT, mas a minha impressão é que isso não vai ocorrer agora, na primeira rodada.

Entretanto, mesmo que a polarização não se intensifique mais do que já está, não podemos esquecer que ela atingiu um nível muito extremo. Boa parte da força de Bolsonaro pode ser atribuída à rejeição ao PT. Os percentuais mais altos de Bolsonaro se dão exatamente naqueles segmentos onde o PT enfrenta seus mais problemáticos índices de rejeição.

Entre mulheres, Haddad já empatou com Bolsonaro:  19% X 20%. Entre homens, porém, Bolsonaro tem 36%, contra 18% de Haddad e 12% de Ciro.

A força de Haddad passou a se concentrar no eleitorado que tem até quarta-série do ensino fundamental, onde ele agora pontua 24%, contra 18% de Bolsonaro e 11% de ciro.

Entre brasileiros com ensino médio, Bolsonaro lidera isoladamente, com 31%, contra 17% de Haddad e 11% de Ciro.

Entre brasileiros com ensino superior, Bolsonaro tem seu melhor desempenho, 36%, contra 13% de Haddad e também 13% de Ciro.

 

Na estratificação por renda, Bolsonaro tem sua melhor performance entre eleitores que ganham mais de 5 salários de renda familiar, onde ele pontua 41%, contra 13% de Haddad e 10% de Ciro.

Ciro ainda resiste porque tem voto de pobre: o pedetista tem 12% em todas as faixas de renda mais pobres (até 1, de 1 a 2, de 2 a 5), inclusive empatando com Bolsonaro junto aos mais pobres, com 12%. Nessa faixa, Haddad já recebeu boa parte da migração lulista, atingindo 27% das intenções de voto.

Analisemos agora o problema da rejeição, que é fundamental para desenvolvermos as estratégias políticas corretas para o  segundo turno.

Comecemos pelos quadros que apuram o poder de influência de Lula sobre o eleitor. Entre eleitores com renda familiar acima de 5 salários, 65% responderam que o apoio de Lula a Haddad levariam-nos a não votar “de jeito nenhum” nele.

Entre eleitores que ganham de 2 a 5 salários, 56% responderam que não votariam de jeito nenhum no candidato apoiado por Lula.

Entre os que ganham de 1 a 2 salários, 45% responderam que não votariam no candidato de Lula.

É apenas entre eleitores que ganham até 1 salário que o jogo se inverte: 33% (ainda sim um número expressivo) dizem não votar de jeito nenhum no candidato apoiado por Lula, contra 38% que responderam votar “com certeza” no candidato apoiado pelo ex-presidente.

Na estratificação por gênero, uma diferença importante: 55% dos homens disseram não votar “de jeito nenhum” no candidato apoiado por Lula, contra 43% das mulheres que tem a mesma opinião.

Entre eleitores com ensino superior, 62% deles responderam não votar “de jeito nenhum” no candidato apoiado por Lula.

Entre eleitores com ensino médio, que formam o segmento mais expressivo do eleitorado, 51% responderam que não votariam de jeito nenhum no candidato apoiado por Lula.

A faixa etária onde Lula encontra mais problemas está entre 45 e 54 anos, um segmento influente do eleitorado, porque é a idade usual em que os cidadãos se encontram no auge de sua carreira profissional: 52% dos eleitores nessa faixa responderam que não votariam de jeito nenhum no candidato apoiado por Lula.

 

Voltaremos ao tema da rejeição mais adiante, quando estudarmos o índice de cada candidato, segundo os dados estratificados.

Agora vamos examinar as projeções feitas pelo Ibope para o segundo turno. Façamos uma análise comparada entre Ciro e Haddad no embate contra Bolsonaro.

Ambos, Ciro e Haddad, empatam rigorosamente com o candidato do PSL: todo mundo tem 40%. Mas há algumas diferenças importantes na distribuição interna dos eleitorados de cada um, sobretudo nas colunas de renda e escolaridade.

Haddad vai mal justamente naqueles segmentos onde o PT tem mais rejeição, que é na classe média e entre eleitores mais instruídos.

***

Rápida digressão: a rejeição nesses segmentos não pode ser normalizada pelo PT. Ela representa uma vulnerabilidade muito grave para o partido, a campanha e um eventual governo. O eleitor mais pobre sai de casa no dia da eleição, escolhe seu candidato na urna eletrônica, e volta para casa. Ele se envolve pouco com política, um assunto bizantino demais para ele, ainda mais agora que passou a se confundir com debates complicados sobre direito penal.

É por isso que, no dia seguinte à eleição, a classe média volta a assumir o controle do debate político e da opinião pública.

A própria configuração urbanística do país alienou esse eleitor mais pobre, geograficamente falando. Ele está isolado em periferias de difícil acesso, ou em cidadezinhas com pouco ou nenhum transporte público.

***

No cenário com Ciro Gomes, a disputa no segundo turno com Bolsonaro corresponderia a um percentual de 48% X 35% entre eleitores com grau superior. Uma vantagem de 13 pontos para o capitão.

No embate entre Haddad e Bolsonaro, na tabela por estratificação de escolaridade, o petista tem 31% e Bolsonaro 51% entre eleitores com nível superior. Uma vantagem de 20 pontos para Bolsonaro.

 

Na comparação por renda, o desempenho de Ciro Gomes, num eventual segundo turno com Bolsonaro, entre eleitores com renda superior a 5 salários, é de 54% X 32%, com vantagem para o capitão. Diferença de 22 pontos em favor de Bolsonaro.

No embate Haddad x Bolsonaro, ainda para este segmento de maior renda, o placar ficaria 57% X 29%, uma vantagem de 28 pontos para o militar.

 

Na comparação por região, Ciro e Haddad tem desempenhos parecidos. As diferenças marcantes são referentes à faixa de renda e nível formal de instrução.

Rejeição

Os números de rejeição mostram uma tendência com a qual a campanha de Fernando Haddad deveria se preocupar. O petista já tem 37% de rejeição entre homens, índice superior ao de Bolsonaro, que é de 33%. O problema de Bolsonaro são as mulheres, entre as quais ele tem 50% de rejeição.

Entre eleitores com ensino superior, Haddad tem rejeição de 46%, que é 10 pontos acima da rejeição de Bolsonaro nesse mesmo segmento, de 36%.

Entre eleitores com renda familiar acima de 5 salários, Haddad já tem rejeição de 48%, bem acima da rejeição enfrentada por Bolsonaro neste segmento, que é relativamente normal, de 33%.

Nesta quinta-feira, sai um novo Datafolha, que nos permitirá entender melhor a dinâmica eleitoral: se já está havendo acomodação do quadro pelos moldes retratados no Ibope de ontem, se Haddad vai continuar avançando, se Ciro está mesmo resistindo à segunda grande onda de migração de votos lulistas, e se, por fim, Alckmin entrou definitivamente em declínio, podendo ser considerado carta fora do baralho.

Conclusão

A esquerda tem de tomar cuidado para analisar a posição de Bolsonaro nas pesquisas sem preconceito ideológico. Não é razoável pensar que a hegemonia impressionante do deputado junto aos eleitores com renda superior a 5 salários e mais instruídos seja resultado exclusivamente do avanço do “fascismo”.

Outro erro político da esquerda seria esnobar a classe média e os eleitores mais instruídos, vendo-os, vulgarmente, como representantes de uma “elite”. Não são elite. A classe média brasileira, inclusive a sua franja mais educada, é pobre, vive no limite de suas posses e está permanentemente exposta a enormes riscos financeiros e profissionais.

Em qualquer país e em qualquer época histórica, a esquerda precisa sempre do apoio dos setores mais instruídos da sociedade, de maneira a usar sua capacidade crítica e analítica para enfrentar a força bruta do capital financeiro. Ao perder o apoio da classe média, o PT abriu caminho para o golpe. Se não reconquistá-la, se não reconstruir uma massa crítica instruída com tamanho suficiente, a esquerda estará sempre vulnerável a outra rasteira institucional, possivelmente muito mais brutal e mais difícil de reverter que o golpe de 2016.

Uma parte do eleitorado do Bolsonaro é composta de voto útil anti-PT, que é na verdade um voto antissistema, já que o PT é associado (equivocadamente, como sabemos) a um conjunto de instituições e valores, como a imprensa e os direitos humanos. Muitos eleitores de Bolsonaro consideram a Globo, a Folha, o Datafolha, o Ibope, como instituições simpáticas ao PT.

Essa visão messiânica, hiperbólica, do PT, atribuindo a ele mais força do que ele realmente tem, acabou, paradoxalmente, por inflar o partido com um falso poder de influência. Os bolsominions vêem “petismo” em movimentos de opinião pública que são, ao contrário, completamente independentes do PT.

O antipetismo construído pela mídia, por sua vez, precisa ser separado do desgaste natural de um partido que governou o país por muitos anos. É de se pensar, ainda, até que ponto o antipetismo empurrou parte do eleitorado para posições ideológicas que não são orgânicas. Com algum esforço de comunicação e política, uma parte dessas pessoas pode escapar do radicalismo conservador e incorporar-se às lutas por mais emprego, educação e saúde, demandas comuns a todo mundo que trabalha. A fatia mais ideológica de Bolsonaro deve corresponder a um percentual relativamente pequeno de seu eleitorado.

Combater a rejeição na classe média e nas faixas mais instruídas é tão importante, para a esquerda, quanto ampliar sua intenção de votos, tanto para ganhar as eleições como para governar em seguida. A fórmula para isso é um pouco diferente da campanha destinada aos mais pobres, que usa uma linguagem mais emotiva. As faixas instruídas precisam ser seduzidas por planos de governos inovadores, criativos, ambiciosos, fazendo-as desfrutar, antecipadamente, em sua imaginação, das delícias do desenvolvimento. Pensar grande é preciso: um país cruzado por trens de alta velocidade; indústrias avançadas e competitivas internacionalmente; uma comunicação pública arrojada, corajosa; e ideias para um sistema nacional de comunicação muito além dos clichês bolorentos (e confortavelmente inatingíveis) sobre “regulamentação da mídia”…

 

 

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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14 comentários

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Serg1o Se7e

20 de setembro de 2018 às 11h27

Por que nunca é analisado o fato de que entre os mais estudados (que em tese teriam mais condições de decisão, pois saberiam interpretar melhor as falas, os textos, as opiniões) a escolha é “não pt”?
A preferência pelo pt é, pelo artigo, apenas maior entre os muito menos escolarizados. Isso não é importante?

Ou seja, isso não acaba ratificando a não tão lenda urbana que só pobre e dependente de assistencialismo vota no pt?

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Alexandre Neres

19 de setembro de 2018 às 20h42

Seguindo a linha Ricupero, o que é bom a gente mostra, o que não é a gente varre pra baixo do tapete, talvez por coincidência, esqueceu-se de abordar aquele critério segundo o qual o voto de alguns candidatos está mais cristalizado do que de outros, com pouquíssimas chances de serem alterados. Por que será?

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Paulo

19 de setembro de 2018 às 19h32

Impressionante a vantagem de Bolsonaro sobre Haddad no Sul. Fui até consultar um “mapa de calor” das eleições de 2014, e os votos de Dilma foram maioria, no RS (por cidades em que ganhou, não, necessariamente, por nº total de eleitores, o que não chequei), com o estado 2/3 pintado de vermelho contra 1/3 de azul (Aécio). Parece que o jogo mudou, pra este ano…

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    Paulo

    19 de setembro de 2018 às 20h20

    Vou me penitenciar aqui, em termos: Aécio venceu Dilma, em 2014, no RS (53% dos votos válidos), mas foi por menor percentual que aqueles obtidos pelo “mineirim” no PR e em SC. Digo em termos porque, se não representa uma mudança radical, a rejeição a Haddad (e ao PT), na Região, subiu…poderia a Região Sul ser a fiel da balança, nas eleições?

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      Alexandre Neres

      19 de setembro de 2018 às 20h38

      Pena que a Região Sul não é populosa, pouco acrescenta no cenário nacional. Diferentemente de uma região mais ao norte, mais ao leste, cujo povo é conhecido por ser caloroso e não canso de me banhar naquelas praias maravilhosas.

      Responder

        Paulo

        19 de setembro de 2018 às 21h08

        Alexandre, a Região Sul tem o mesmo eleitorado das Regiões NO e CO somadas. Nestas últimas, há um equilíbrio entre os dois candidatos, e, portanto, não se constituirão em áreas decisivas no embate do 2º turno. Na Região Sul, porém, a vantagem de Bolsonaro sobre Haddad é de 52% a 28%. Será que o NE tirará essa diferença, já que na maior Região, a SE, Bolsonaro também vence, embora por margem menor, mas com um nº de votos bem significativo, no volume total?

        Responder

          Alexandre Neres

          20 de setembro de 2018 às 09h46

          Prezado Paulo, a Região Nordeste é a cidadela do PT. Tira essa diferença de letra. Com a diferença de que nas eleições anteriores São Paulo era a cidadela do PSDB, de Aécio em 2014. Só que agora no 2º turno Andrade já tasca um 45 a 34% no bozo na capital paulista.

          Responder

Dulce

19 de setembro de 2018 às 19h32

Vamos ver onde o #elenão é menos rejeitado que haddad:
Mais de 5 salários mínimos ;
Brancos;
Quase empates (só dois pontos a mais que haddad):
De 2 a 5 salários mínimos;
Evangélicos.

Pois bem, podem tirar as conclusões sobre de quem miguel quer que cedamos a vontade.

Ps: que decepção, hein , miguel do rosário? Desprezando a regulação da midia só pq o seu candidato defende o erro estrondoso da dilma do controle remoto.
Espero um dia ver uma autocrítica do cafezinho.

Responder

    Spinoza

    19 de setembro de 2018 às 20h00

    A regulação da mídia do Haddad é a proibição da posse de mídia cruzada, o que na prática não regula absolutamente nada, tendo em vista que qualquer mídia vai falar o que a plutocracia quiser, se não falar não ganha anúncio e morre.

    Responder

Dulce

19 de setembro de 2018 às 19h11

Análise interessante.
(Postando de novo pq não apareceu da primeira vez).

Para quem ainda tem dificuldades em entender ou insiste em se iludir: o antipetismo (de direita) não é somente contra o PT stricto sensu. Para uma parcela expressiva da sociedade, o PT não é um partido, mas uma visão de mundo que deve ser odiada, combatida e, se possível, destruída. Logo, o Boulos é PT, a Manu é PT, o PSOL é PT, o Ciro é PT e, para seu segmento mais radical, até FHC é PT. Para esses, expressões como “comunismo”, “lulopetismo” ou “bolivarianismo” possuem equivalência semântica. Portanto, estimular o discurso do medo com o argumento de que caso o Haddad chegue ao segundo turno o antipetismo será usado contra ele e isso elegerá o Bolsonaro, não só é falacioso, mas também despolitizado e despolitizante. Até porque esse antipetismo também será utilizado contra o Ciro, caso chegue ao segundo turno, pela aliança que se configura hoje como a maior ameaça ao pouco que ainda resta de democracia no Brasil, juntamente com o deus-mercado: a do “Partido da Justiça” com a Mídia Empresarial. O anúncio de uma delação premiada envolvendo Ciro e Cid Gomes a 20 dias da eleição é um bom indicativo disto. A fala do Gen. Rocha Paiva contra o PT e contra “aquele outro candidato” que ameaçou prender o comandante do exército, idem. Se medo é o fator determinante do nosso voto, então façamos o seguinte: a gente desiste de votar nos candidatos do nosso campo – Boulos, Haddad e Ciro – e vamos apoiar a Marina, com sua pose de madre superiora do convento das clarissas, e fabricar a Macron de Xapuri. Assim todos ficarão felizes: “nós” porque “derrotamos” aquele que a gente não pode nem dizer o nome, para não atrair “maus fluidos”; o deus-mercado, com a ocupação dos cargos chaves do governo por seus filhos queridos, Giannetti e Lara Resende; a aliança mídia/Partido da Justiça porque sua agenda continuará a ser implementada, com a continuidade da lava jato – e de seus mecanismos de exceção – e a manutenção da prisão de Lula e dos privilégios do judiciário; e até certo professor da USP, secundado por seu colega do delta do Mississipi, porque enfim terá sido quebrada a polarização, o monstro petista-populista terá sido derrotado e os unicórnios cor de rosa voltarão a beber água nas imediações de Belo Monte que, é claro, será implodida. E ainda teremos como vice aquela figura simpática chamada Eduardo Jorge, que é meio aquele tio zoeira que todo mundo tem: vive fazendo merda, mas a gente perdoa porque é good vibes e traz uns presentes bacanas. Assim, se com Dubček houve a tentativa do “socialismo de rosto humano” e com o Marcello Caetano o “fascismo de rosto humano”, quem sabe com Marina não podemos tentar o “neoliberalismo de rosto humano”? E nós ainda poderemos passar os próximos quatro anos demonstrando indignação afetada nas redes sociais contra as “medidas antipopulares” tomadas pelo governo em “conluio com o rentismo” e discutindo – já que a gente acredita em eleições como um fim – quem é o melhor candidato pra derrotar o neoliberalismo e/ou o fascismo fortalecido em 2022. Não seria o melhor dos mundos para uma esquerda que fala em revolução, mas borra as calças de medo até na hora de dar um voto?

Responder

    Serg1o Se7e

    20 de setembro de 2018 às 11h31

    Resumindo de uma forma didática: há os pró-vermelhos e os anti-vermelhos (independente de sigla).

    Responder

Dulce

19 de setembro de 2018 às 19h06

Olha, eu vou só copiar esta análise aqui pq acho super pertinente para o debate. É de um autor q preferiu se manter anônimo.

Para quem ainda tem dificuldades em entender ou insiste em se iludir: o antipetismo (de direita) não é somente contra o PT stricto sensu. Para uma parcela expressiva da sociedade, o PT não é um partido, mas uma visão de mundo que deve ser odiada, combatida e, se possível, destruída. Logo, o Boulos é PT, a Manu é PT, o PSOL é PT, o Ciro é PT e, para seu segmento mais radical, até FHC é PT. Para esses, expressões como “comunismo”, “lulopetismo” ou “bolivarianismo” possuem equivalência semântica. Portanto, estimular o discurso do medo com o argumento de que caso o Haddad chegue ao segundo turno o antipetismo será usado contra ele e isso elegerá o Bolsonaro, não só é falacioso, mas também despolitizado e despolitizante. Até porque esse antipetismo também será utilizado contra o Ciro, caso chegue ao segundo turno, pela aliança que se configura hoje como a maior ameaça ao pouco que ainda resta de democracia no Brasil, juntamente com o deus-mercado: a do “Partido da Justiça” com a Mídia Empresarial. O anúncio de uma delação premiada envolvendo Ciro e Cid Gomes a 20 dias da eleição é um bom indicativo disto. A fala do Gen. Rocha Paiva contra o PT e contra “aquele outro candidato” que ameaçou prender o comandante do exército, idem. Se medo é o fator determinante do nosso voto, então façamos o seguinte: a gente desiste de votar nos candidatos do nosso campo – Boulos, Haddad e Ciro – e vamos apoiar a Marina, com sua pose de madre superiora do convento das clarissas, e fabricar a Macron de Xapuri. Assim todos ficarão felizes: “nós” porque “derrotamos” aquele que a gente não pode nem dizer o nome, para não atrair “maus fluidos”; o deus-mercado, com a ocupação dos cargos chaves do governo por seus filhos queridos, Giannetti e Lara Resende; a aliança mídia/Partido da Justiça porque sua agenda continuará a ser implementada, com a continuidade da lava jato – e de seus mecanismos de exceção – e a manutenção da prisão de Lula e dos privilégios do judiciário; e até certo professor da USP, secundado por seu colega do delta do Mississipi, porque enfim terá sido quebrada a polarização, o monstro petista-populista terá sido derrotado e os unicórnios cor de rosa voltarão a beber água nas imediações de Belo Monte que, é claro, será implodida. E ainda teremos como vice aquela figura simpática chamada Eduardo Jorge, que é meio aquele tio zoeira que todo mundo tem: vive fazendo merda, mas a gente perdoa porque é good vibes e traz uns presentes bacanas. Assim, se com Dubček houve a tentativa do “socialismo de rosto humano” e com o Marcello Caetano o “fascismo de rosto humano”, quem sabe com Marina não podemos tentar o “neoliberalismo de rosto humano”? E nós ainda poderemos passar os próximos quatro anos demonstrando indignação afetada nas redes sociais contra as “medidas antipopulares” tomadas pelo governo em “conluio com o rentismo” e discutindo – já que a gente acredita em eleições como um fim – quem é o melhor candidato pra derrotar o neoliberalismo e/ou o fascismo fortalecido em 2022. Não seria o melhor dos mundos para uma esquerda que fala em revolução, mas borra as calças de medo até na hora de dar um voto?

Responder

    Adam Smith Comuna

    19 de setembro de 2018 às 20h13

    Deixa eu verificar se entendi. Você quer combater o neoliberalismo do Paulo Guedes com o Haddad Insper, que pretende colocar Marcos Lisboa na fazenda? A Marina é neoliberal e o Haddad, que defende a mesma política macroeconômica, não?

    Responder

      Dulce

      19 de setembro de 2018 às 20h56

      Não entendeu.

      Responder

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