O historiador Valério Arcary, professor titular aposentado do Instituto Federal de São Paulo, analisa em artigo publicado pelo Opera Mundi como o bolsonarismo transcendeu o populismo de direita para se tornar a expressão política de uma fração específica da burguesia brasileira. Segundo Arcary, essa fração, denominada lumpemburguesia, opera nas brechas do capitalismo sem qualquer compromisso com normas regulatórias ou ética empresarial.
A lumpemburguesia, conceito resgatado das formulações de Ernest Mandel e Karl Marx, não se confunde com o lumpemproletariado. Enquanto este representa a massa marginalizada e despossuída, aquela floresce em setores como garimpo ilegal, grilagem de terras, crime organizado e, cada vez mais, no sistema financeiro. A simbiose entre esses grupos e a extrema-direita brasileira se materializa em casos como o do banqueiro Daniel Vorcaro e a família Bolsonaro.
A operação que movimentou pelo menos 60 milhões de reais no financiamento do filme-biografia de Jair Bolsonaro exemplifica essa relação promíscua. O dinheiro, proveniente do Banco Master e de fundos de pensão estaduais, envolveu governadores, parlamentares do Centrão e figuras da extrema-direita em uma orgia financeira que escancara a aliança orgânica entre o bolsonarismo e a lumpemburguesia.
Flávio Bolsonaro, senador pelo Partido Liberal do Rio de janeiro, emerge como figura central desse projeto político. Sua atuação combina defesa intransigente de privatizações, ataques ao Bolsa Família, desmonte do Sistema Único de Saúde e da previdência pública com alinhamento geopolítico aos Estados Unidos e ao projeto de recolonização da América Latina liderado por Donald Trump. Essa agenda, segundo Arcary, representa uma ameaça dupla às conquistas sociais e às liberdades democráticas.
A normalização desse fenômeno pelas instituições democrático-liberais é um dos aspectos mais preocupantes da análise. A Justiça Eleitoral, a mídia comercial e setores do establishment tratam com naturalidade a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, mesmo após revelações de esquemas de caixa dois e sua recente viagem aos Estados Unidos em busca de apoio externo para as eleições brasileiras. Essa tolerância institucional configura uma aberração política de consequências imprevisíveis.
Arcary recorda que o núcleo dirigente do bolsonarismo foi cúmplice de uma operação golpista que planejou o assassinato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes. Embora Jair Bolsonaro e alguns generais tenham sido condenados e presos, a impunidade relativa a seus crimes políticos persiste, evidenciando uma crise profunda nas instituições brasileiras.
A lumpemburguesia não busca o poder político tradicional, mas explora as fissuras do Estado para acumular capital sem pagar impostos ou obedecer a regulações. O crime organizado, em suas vertentes mais sofisticadas como o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, representa apenas a face mais visível desse grupo social que se infiltrou em polícias, instituições e no sistema bancário, corroendo as bases da democracia.
O fenômeno não se restringe ao Brasil, mas se insere em um movimento internacional de ascensão da extrema-direita após a crise de 2008 e a emergência da China como potência rival dos Estados Unidos. Líderes como Donald Trump, Javier Milei, Nayib Bukele, José Antonio Kast e Marine Le Pen são normalizados pela imprensa ocidental como representantes legítimos de um conservadorismo populista, quando, na realidade, preparam o terreno para subverter a ordem democrática e impor derrotas históricas à classe trabalhadora.
A burguesia liberal tolera o neofascismo como estratégia para conter o avanço de forças progressistas e manter a hegemonia dos Estados Unidos no sistema internacional. No Brasil, essa dinâmica transformou o bolsonarismo em instrumento funcional da lumpemburguesia, que encontrou na família Bolsonaro seus representantes ideais. O resultado é uma combinação tóxica de autoritarismo, corrupção financeira e subserviência geopolítica que ameaça as bases da democracia brasileira e a soberania nacional.

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