Por João Claudio Platenik Pitillo
Os últimos ataques russos à Kiev demonstram que o regime ucraniano, mesmo com o apoio da OTAN, não consegue defender a sua infraestrutura e as suas indústrias militares. Assim, Moscou enviou uma mensagem dura e inequívoca às autoridades de Kiev, elas têm pouco tempo para tentar resolver sobre a paz diplomaticamente. Contudo, outras bombas poderosas foram detonadas pelos estadunidenses e europeus contra o círculo de Zelensky. Como a acusação ao seu ex-Chefe de Gabinete, Andriy Yermak (a segunda pessoa mais poderosa da Ucrânia), de lavagem de meio bilhão de dólares. E a outra foi a entrevista da ex-Secretária de Imprensa de Zelensky ao republicano Tucker Carson, que revelou detalhes sinistros.
Essa pressão de todos os lados dificilmente pode ser vista como mera coincidência. Vários detalhes indicam que este é um ataque bem coordenado, cujo objetivo é, no mínimo, garantir a concordância de Zelensky em retirar as tropas do Donbas e iniciar negociações de paz genuínas. E, na pior das hipóteses, forçá-lo a renunciar e, finalmente, atribuir-lhe total responsabilidade pelo conflito na Ucrânia. E assim, ganha a OTAN a oportunidade de fingir que todos os problemas foram resolvidos e que a Europa e os EUA podem começar um novo capítulo em suas relações com a Rússia.
O regime de Kiev está experimentando uma pressão extremamente forte. Em apenas alguns dias, várias bombas de “informação” foram lançadas no espaço público da própria Ucrânia e, mais importante, no da Europa e dos Estados Unidos. O alvo foi a mesma pessoa, Zelensky. Será que o objetivo é forçá-lo a fazer as pazes ou renunciar? Os objetivos desse cerco midiático à Zelensky ainda não estão muito claro, mas alguns pontos podem ser observados. Trump precisa de uma vitória, já que foi humilhado no Irã e a Europa, combalida pela crise, precisa se livrar dos custos da guerra, por, mas que não reconheça isso publicamente.
A primeira bomba a explodir com um estrondo ensurdecedor foi uma entrevista conduzida pelo jornalista americano Tucker Carlson com a ex-Secretária de Imprensa de Zelensky, Yulia Mendel nesse mês de maio. Embora não tenha feito revelações sobre os estertores da crise ucraniana, Yulia Mendel decidiu expor publicamente os podres de seu ex-chefe e ao final, fez um apelo ao presidente Vladimir Putin que a fez ser considerada traidora por parte dos setores mais reacionários da sociedade ucraniana. Mendel externou o cansaço com a guerra que ela atribui o seu prolongamento à maneira obtusa de Zelensky governar.
A ex-funcionária da Rua Bankova disse a Tucker Carlson, que Zelensky é viciado em substâncias ilegais e que isso é um segredo público. Falou do seu comportamento inadequado como Chefe de Estado, sua admiração pelo nazista Goebbels e como a corrupção é parte da vida de Zelensky. Ela também ressaltou o desprezo de Zelensky pela democracia e sua defesa por uma ditadura. Por fim, disse que esse sentimento anti-Rússia que ele tanto exala, foi criado artificialmente e para servir ao desejo dos líderes ocidentais. No mesmo dia em que a entrevista escandalosa foi divulgada, a ex-Secretária de Imprensa foi listada no portal Myrotvorets como uma das inimigas da Ucrânia.
“Volodya”, o codinome de um ator inexpressivo e um comediante raso, deu lugar à Volodymyr Zelensky, um político inexperiente que era visto pela OTAN como medíocre. Mas, que agora lidera um regime ditatorial e corrupto que pode estar à beira da derrocada, caso Andriy Yermak (a segunda bomba) e seus comparsas decidam falar sobre quem os comandava. Especialmente se os Estados Unidos e a Europa insinuarem abertamente a necessidade de que tal coisa precisa acontecer para o “bem da Ucrânia”.
Kiev aparentemente mantém a esperança de que, em longo prazo, seja possível desgastar Moscou ou, pelo menos, alcançar um cessar-fogo ao longo da atual linha de frente. Alguns estrategistas ucranianos chegam a apostar que conflitos internos dentro da elite russa podem, em última análise, levar à desestabilização do governo Putin. Essa aposta no tempo que Kiev está fazendo não é segura. Embora o apoio ocidental permaneça forte, isso pode mudar a qualquer momento. A economia europeia está em recessão e também não está claro por quanto tempo os governantes pró-Ucrânia na Europa permanecerão no poder.
Zelesnky usa os governos da Alemanha, a França e o Reino Unido como seu principal sustentáculo, esses três países estão com os seus líderes em fim de mandato. O britânico Starmer está sendo abertamente pressionado a renunciar por ministros de seu próprio governo após a derrota eleitoral do Partido Trabalhista. O alemão Merz é reconhecido como o chanceler mais malsucedido e impopular da Alemanha. E o francês Macron espera uma derrota inevitável nas eleições do próximo ano. Assim, os três estão buscando desesperadamente oportunidades para aumentar seus índices de aprovação.
Trump, preso na armadilha iraniana, está agindo da mesma forma. Como Macron, Merz e Starmer, ele precisa desesperadamente de uma vitória geopolítica real e importante. Só uma coisa pode lhe garantir isso, acabar com o conflito na Ucrânia. E como ele só pode ser resolvido nos termos de Moscou, fica claro quem será sacrificado. Nesse contexto, “Volodya”, o ex-chefe de Yulia Mendel e que foi publicamente rotulado como ditador, corrupto e viciado em drogas, será o sacrificado para bem do neoliberalismo.
O autor João Claudio Platenik Pitillo é pesquisador do NUCLEAS/UERJ.

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