O depoimento de Lula à juíza Gabriela Hardt

Ditadura, um projeto em construção

Por Denise Assis

20 de outubro de 2018 : 16h13

Denise Assis – jornalista –

 Confesso que fiquei agradecida à “agilidade” e à “sagacidade” da grande imprensa, por ter me concedido, 38 dias depois da posse (como ministro do Supremo) e dos rapapés ao ministro Dias Toffoli, (em 13 de setembro) as informações que me intrigavam. O que faz, pela primeira vez na história, um general dentro do gabinete do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF)? Por fim, entendi que a medida foi profilática.

Tendo como certo (?) que o próximo presidente da República seria um ex-capitão do Exército, “num momento em que os militares estão abandonando o recolhimento dos últimos anos e voltaram a ganhar protagonismo, inclusive com a perspectiva cada vez mais próxima de um capitão da reserva vir a assumir o Palácio do Planalto, o presidente do Supremo pensou na simbologia do gesto de convidar um general para sua equipe e assim reforçar a interlocução com as Forças Armadas”. Desta forma, com capricho e clareza, os repórteres Carolina Brígido e Vinicius Sassine, da Revista Época, explicaram o inusitado da escolha, ontem, 19 de outubro.

É bom que se recorde, que talvez para demonstrar o afinamento com o assessor escolhido, o presidente do Supremo, tão logo chegou ao cargo, tratou de fazer um reparo histórico. Chamou de “movimento”, o que centenas de livros de estudiosos – e mais os documentos do Estado Americano – já haviam classificado como “golpe de 1964”. Na contramão de litros de tinta, metros e metros de carimbos, Toffoli se posicionou ao lado da versão esquizofrênica daqueles que se recusam a rever posição e a chamar pelo nome o que de fato aconteceu. Ou seja, o segmento fardado.

Poxa, eu já me contorcia há tempos de curiosidade sobre a presença do general Fernando Azevedo no STF, mas nada como esperar o momento oportuno, não é mesmo? A matéria foi publicada ontem – sexta-feira. Um dia depois de Michel – pendurado por um fio nos intrincados processos que o colocam “na beira do cais”, graças às citações em processo sobre o Porto de Santos – editar o que está sendo chamado de “Ato-1” do próximo(?) governo, já “esperado” pelo ministro Toffoli e as pesquisas de opinião pública.

O Ato, portanto, saiu publicado no Diário Oficial de 18 de outubro, envolto na aura de “colaboração” do ilegítimo e, agora, a perigo, Michel, para com a equipe que chega (?) ao Planalto. E quem não preza a própria pele? Vai que alguém agradecido se lembra de lhe dar um “foro”? O documento – Decreto nº 9.527, de 15 de outubro de 2018 – cria a “Força Tarefa de Inteligência para enfrentamento ao Crime Organizado no Brasil”. O objetivo principal desta Força é: “Analisar e compartilhar dados e de produzir relatórios de inteligência com vistas a subsidiar a elaboração de políticas públicas e a ação governamental no enfrentamento a organizações criminosas que afrontam o Estado brasileiro e as suas instituições”.

A última vez que vimos algo parecido, atendia pelo nome de DOI-CODI ou, “A Casa da Vovó”, como contou em seu livro de mesmo nome, o jornalista Marcelo Godoy. Era assim que os agentes lotados na unidade de São Paulo a chamavam, conforme revelaram em relatos detalhados, no livro, sobre a época da ditadura civil-militar (1964/1985). No Rio, o DOI-CODI era conhecido como “sucursal do inferno”.

Aqui, permitam-me o atrevimento e um reparo aos historiadores. O correto, em minha opinião, seria: 1964/1989, quando finalmente pudemos eleger o presidente, quesito considerado fundamental para que se reconheça um país como uma democracia.

Feito o link entre o Ato-1 de Michel, e a circulação da aguardada (por mim, ansiosamente) explicação pelo contrato do general Fernando para o Supremo, eis que, na noite do mesmo 19, o respeitável público é surpreendido em seus lares, na hora do jantar, pelo resultado de uma pesquisa, encomendada pela Rede Globo ao Datafolha, em companhia do jornal Folha de São Paulo, sobre “as possibilidades de haver um regime autoritário no país” ou, indo direto ao ponto: como veria a implantação de uma ditadura. Como vocês podem observar, o tema estava “em pauta”.

Não nos esqueçamos que no dia 18, (quinta) a Folha de São Paulo, na cobertura da acirrada disputa, para a presidência, circulou com a denúncia da jornalista Patrícia Campos Mello, de que “empresas estão comprando pacotes de disparos em massa de mensagens contra o PT no whatsApp e preparam uma grande operação na semana anterior ao segundo turno.” E, complementava: “A prática é ilegal, pois se trata de doação de campanha por empresas, vedada pela legislação eleitoral, e não declarada.” 

Então, vejamos. Em meio a uma eleição que acontece depois de um impeachment reconhecido internacionalmente como um golpe (2016) – pois apesar de seguir os ritos jurídicos estabelecidos não conseguiu demonstrar a materialidade do crime – onde o candidato da ultradireita aparece como favorito, e é egresso das Forças Armadas, do nada surge uma pesquisa sobre a aceitação ou não de uma ditadura.

E, vinda logo após a grave denúncia, que coloca em risco a chapa “vencedora” – na aposta dos veículos tradicionais de mídia, do precavido presidente do Supremo, e do próprio candidato – que por via das dúvidas já escalou um time de generais para ocupar cargos de ministro em seu governo, sem contar os demais escalões das esferas de poder. E quem não se lembra dos coronéis em postos chaves nas estatais e multinacionais, na época dos generais anteriores?

A perplexidade tomou conta de todos que, de tão confusos, antes de perguntar quem e porque foi encomendada a pesquisa, passaram a discutir itens tais como: censura (23% aceitam); a chance de se instalar uma nova ditadura (31% acham que sim); o governo teria direito de fechar o Congresso (71% discordam, mas 21% concordam e 6% não sabem) e, por fim, a cereja do bolo. O estado poderia torturar suspeitos para tentar obter confissões ou informações? Neste quesito 80% se colocaram contra e 16% a favor.

Ora, senhores, num país que ainda procura 434 desaparecidos políticos, assombrado há pouco pelos relatos detalhados das práticas de tortura descritas no relatório oficial da Comissão Nacional da Verdade e as demais feitas nos estados, uma pesquisa destas encomendada no bojo de uma eleição marcada por palavras de ódio de um candidato que não se cansa de elogiar a ditadura e os torturadores, foi mais do que assustador. Foi falar em corda em casa de enforcado. Um sinal inequívoco de que o tema está na pauta e muito mais palpável do que pode supor o eleitorado. Junte-se todos os ingredientes acima, e teremos mais a temer, além da imprevisibilidade desta eleição que o TSE deixa correr frouxa, sem exercer o seu devido papel de fiscalizador.

 

 

 

 

 

Denise Assis

Denise Assis é jornalista e autora dos livros: "Propaganda e cinema a Serviço do Golpe" e "Imaculada". É colunista do blog O Cafezinho desde 2015.

Apoie O Cafezinho

Crowdfunding

Ajude o Cafezinho a continuar forte e independente, faça uma assinatura! Você pode contribuir mensalmente ou fazer uma doação de qualquer valor.

Veja como nos apoiar »

17 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário »

Ruy Acquaviva

22 de outubro de 2018 às 11h58

Alguém poderia me informar por onde anda o Ciro Gomes?

Ele falou que todos deveriam se unir para apoiá-lo na luta contra o candidato fascista e os golpistas mas agora, no momento mais crítico da História recente do País (quiçá de toda a História), onde ele está?

É esse que era para ser o grande líder na defesa da democracia?

Responder

    Carla Vigouroux

    22 de outubro de 2018 às 18h04

    Está em Paris, cansado.

    Responder

Franco

22 de outubro de 2018 às 11h23

O candidato que já se considera eleito está afirmando que Lindbergh e Haddad irão fazer companhia ao Lula na mesma cela para com ele lá apodrecerem e vaticina em ultimato que os “marginais vermelhos” abandonem o país para não terem o mesmo destino. Quer dizer que o exílio de opositores já se dará a partir da posse e de forma sumária, por livre e espontânea pressão? Nesse caso, que regime será esse que passará a vigorar no Brasil? O mesmo dos anos de chumbo e do ame-o ou deixe-o? Precisa desenhar, acossados companheiros?

Responder

Lafaiete de Souza Spínola

21 de outubro de 2018 às 22h43

Estão transformando o Brasil numa colônia e para concretizar isso necessário se faz fomentar o ódio e manipular o povo!
Durante anos recrutaram e continuam recrutando todo tipo de testas de ferro!
ABRA O LINK:
https://www.facebook.com/LafaieteDeSouzaSpinola/posts/1160536374103769

FOTO:
Em 1993, no Sudão, do fotógrafo sul-africano Kevin Carter. Descreve uma criança faminta sem forças para continuar rastejando para um campo de alimento da ONU. O urubu espera a morte desta para então poder devorá-la. Dizem que os pais estavam nas proximidades, na luta por algo para comer.
O Sudão sofreu muito com os colonizadores faz séculos. Lá, fomentaram a divisão das tribos, sustentaram e sustentam tiranos! O petróleo e recursos minerais, como sempre, são os objetivos!

O urubu vê, apenas, uma provável carcaça!

O Sudão já está dividido.

Não permitamos que potências estrangeiras esfacelem o Brasil!

Responder

Luiz Alberto Sanz

20 de outubro de 2018 às 22h41

A grande incógnita é se os generais formados pela ESG vão mesmo estar dispostos a bater continência e submeter-se ao comando do capitão posto para fora da ESAO por insubordinação. O decreto assinado pelo General Etchegoyen e pelo “Presidente” Michel Temer dá ao primeiro poderes para intervir, requisitando os servidores públicos que achar necessários, em defesa do estado contra o “crime organizado”. Nas entrelinhas cada um lê o que quer. A leitura que parece consensual é a de um decreto que visa principalmente destroçar os movimentos sociais e sindicais e os partidos de esquerda. Mas não se pode esquecer que ações dos partidários do capitão (criação de caixa 2, formação de milícias que desfilam orgulhosamente, exposição nas redes sociais de civis soberbamente armados, agressão em bando a adversários políticos e divergentes sociais e religiosos) e seus apoiadores de seitas cristãs configuram “formação de quadrilha”. Bom pretexto para os generais, aqui como no Egito, se apresentarem como “comitê de salvação nacional” e deterem as “ameaças extremistas”, submetendo-nos a uma nova ditadura, desta vez, como da outra, com a aprovação das classes burguesas e pequeno-burguesas, do lumpesinato e de todos que se mostraram favoráveis à opressão na pesquisa Datafolha/OGlobo.

Responder

Paulo

20 de outubro de 2018 às 22h01

O paradoxo, dentro da tese invocada pela jornalista, é que as pesquisas indicam recusa da população à tortura e ao golpe. Teoria da conspiração por teoria da conspiração, eu arriscaria dizer que a Globo deu seu recado: não deem golpe, e, se derem, não torturem os opositores!

Responder

    Paulo

    20 de outubro de 2018 às 22h02

    Claro que as “pesquisas” sempre podem mudar, com o desdobrar dos acontecimentos que virão…

    Responder

    Marcelo Oliveira Soares

    21 de outubro de 2018 às 09h30

    Você acredita nisso?

    Responder

      Paulo

      21 de outubro de 2018 às 10h04

      Não acredito, nem desacredito. É apenas uma tentativa de explicação do porquê a Globo ter veiculado essa pesquisa agora (não sei se foi ela que encomendou, também)…

      Responder

    Luiz Cláudio Pedroso da Fonseca

    22 de outubro de 2018 às 10h14

    De um dinheiro de campanha do qual se faz questão de dizer que não é público, espera-se que compromisso com o que é público? ” Poderosos” nunca estão errados, e não é dessa intransigência que se acusa o PT? É claro, temos a nobreza do outro lado, ou, talvez, quando a concentração de renda for tudo que resultar do aumento do lucro, a mesmice “institucional” da mitigação do sistema com a corrupção.

    Responder

Ricardo

20 de outubro de 2018 às 18h15

Nāo é apenas o Bolsonaro que o povo quer eleger. A esquerda nāo entendeu ou nāo quer entender que a coletividade quer varrer o PT para a lixeira. As falcatruas e a corrupçāo do Mecanismo foram expostas com a Lava Jato e se Bolsonaro resolver dar publicidade aos emprestimos via BNDES e as verbas cedidas via Lei Rouanet; bem como perdāo de dividas etc etc etc até o Dias Tofoli saira corrido do STF. Se o braço forte começar pegar a malandragem de terno e gravata vai ser a maior limpeza politica e ideologica da historia de uma naçāo. É só isso o medo dessa gente que vem roubando o Brasil ha 30 anos

Responder

    Brasil

    20 de outubro de 2018 às 18h27

    VC E UM IDIOTA POR COMPLETO ….
    BOLSONARO REPRESENTA O QUE HA DE PIOR !
    MILITAR SO OLHA PARA O PRÓPRIO UMBIGO MEU AMIGO E VC SERA MAIS UMAS DAS VITIMAS DELES SE NAO MUDAR ESTA MENTALIDADE IDIOTA QUE PLANTARAM NA SUA CABEÇA.

    Responder

    Benoit

    21 de outubro de 2018 às 08h25

    Vão eleger o Bolsonaro para isso, um político que está há quase 30 anos no congresso enchendo os bolsos com os privilégios parlamentares sem ter feito nada além de abrir as portas da política para a família dele, que parece ter um patrimômio mal explicado ou mal declarado, (ele também não empregou uma funcionária fantasma?)? É com esses juizes que ganham mais do que juizes em paises ricos, que gozam de privilégios inacreditáveis (2 meses de férias), juizes politizados que abusam do direito da maneira que for conveniente para eles mandando gente inocente para a cadeia, juizes que acumulam patrimônios de gente rica? Voce nunca leu um longo artigo sobre um certo juiz que apareceu uma vez na Revista Piaui para ter uma ideia do que significa nepotismo? É com esses militares que melhorarm muitíssimo de vida durante os anos da ditadura, que acumulam privilégios e se acham agressivamente donos no país que voce quer renovar o país?

    Responder

    Benoit

    21 de outubro de 2018 às 08h29

    E querem fazer isso com uma pessoa com a história do Bolsonaro, com os juizes que ganham mais do que nos países ricos, com os militares que se acham donos do país? Querem fazer isso contra o partido que mais fez pelo país, que mais fez contra a corrupção, que mais fez pela parte mais pobre da população? Parece que os muitos brasileiros querem mas é cair no conto do vigário.

    Responder

    Benoit

    21 de outubro de 2018 às 08h33

    Na Ucrânia também quiseram limpar o país de um dia para o outro mandando embora o governo eleito. O resultado foi guerra civil, perda de territórios, decadência econômica, mais pobreza. A única coisa que ficou igual foram os oligarcas que antes tinham o dinheiro do país e agora continuam tendo o dinheiro do país. Então as pessoas querem varrer a corrupção e para isso elegem um governo de direita? Deve ser a maior piada da década que voce está contando.

    Responder

    Marcelo Oliveira Soares

    21 de outubro de 2018 às 09h28

    Tipo o adorador do Boça, dono da Havan, que usou 12 milhões de reais para patrocinar “arte” através da Lei Rouanet?

    Responder

    Assim Falou Golbery

    22 de outubro de 2018 às 01h41

    Ao invés de encher sua boca imunda de Povo, devias dizer o queres; A volta da ditadura para se fazer o mesmo que Pinochet fazia: enchia estádio de opositores, fechava os portões e bombardeava com gás venono.

    Responder

Deixe uma resposta

Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com