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Uma resposta ao artigo de Ding Gang no Global Times

Por Redação

09 de dezembro de 2018 : 11h04

Uma resposta ao artigo de Ding Gang no Global Times

Por Gaio Doria & Diego Pautasso

Vivemos um contexto de transição sistêmica no qual há um recrudescimento da competição interestatal e interempresarial, como grande potencial irruptivo – como bem salienta Giovanni Arrighi. Num contexto como esse, de guerras comerciais, rivalidade entre potências, crise aguda do capitalismo, espiral de violência, irracionalidade e comportamento de inspiração fascista, a cautela, o diálogo e humanismo são importantes matizadores.

O artigo publicado no jornal Global Times, em 6 de dezembro, intitulado “As lições do Brasil não são aplicáveis na China” (Lessons of Brazil not applicable to China), de Ding Dang, não é alentador a essa quadra histórica. Originalmente, o texto foi dedicado a responder o colunista do New York Times, Bret Stephens, que utilizou o Brasil como um exemplo para fazer china-bashing e prever o colapso da economia chinesa em moldes semelhantes ao ocorrido com a economia brasileira. Ao responder ao estadunidense, Ding Gang profere uma série de despropérios ao Brasil – ao mesmo tempo em que exalta a China como um grande exemplo de civilização.

Antes de passar para a análise do texto em si, devemos assinalar alguns pontos. O Global Times é um jornal afiliado ao Diário do Povo e, logo, pertence ao Partido Comunista da China. No entanto, é considerado uma espécie de tabloide, por apresentar uma linguagem mais agressiva e destoante do discurso oficial protocolar reproduzido pelas demais mídias estatais. Ou seja, não se publica um texto no Global Times sem passar por uma série de aprovações editoriais – sobretudo em se tratando de um órgão com compromissos políticos autoevidentes que se presta a mandar recados, reforçar discursos ou lançar novas ideias através de interlocutores.

Sobre o texto, é preciso destacar que seu autor, Ding Gang, não é um desconhecido, mas um prestigioso editor sênior do Diário do Povo e pesquisador no Instituto de Estudos Financeiros da Universidade do Povo da China. Na sanha de se contrapor aos ataques promovidos por Stephens, Ding Gang expressou uma compreensão arraigada em muitos formadores de opinião na China, acerca do lugar do seu país no mundo.

Para além da autoconfiança nacional ou dos elogios às singularidades culturais de um país que é, de fato, um Estado Civilização – como destaca Martin Jacques -, o artigo está eivado de problemas.

Primeiro, Ding Gang se equivoca cientificamente, dado que teorias racialistas não possuem mais crédito nas ciências humanas.

Segundo, há um equívoco diplomático, pois, ao debater com o autor estadunidense, disparou contra um terceiro país – aliás, não obstante a mudança recente de governo, um ‘parceiro estratégico’ desde 1993. Terceiro, há uma contradição política, dado que não há socialismo – com características chinesas, como defendem seus dirigentes – sem humanismo.

Por fim, mas não menos importante, há uma disfunção histórica, uma vez que a narrativa do autor chinês recria um certo excepcionalismo, via de regra irmanado aos valores xenófobos e, no limite, neocoloniais. Justamente o país que sucumbiu ao “século de humilhações”, após a Guerra do Ópio, e enfrentou toda sorte de dissabor, tão bem cristalizado num cartaz à época exibido em Xangai – “proibida a entrada de chineses e cachorros” -, como lembra Domenico Losurdo.

Não se pode esquecer que os atuais êxitos da China foram construídos a partir dos notáveis insucessos do ‘homem doente da Ásia’, ao sucumbir ao colonialismo de várias potências, fracassar em revoltas e reformas estruturais endógenas, superar o vício disseminado do ópio e enfrentar todo tipo de pilhagem, desorganização e humilhação.

Foi a experiência da Revolução de Outubro de 1917 e a consequente propagação do marxismo que libertou a China dos grilhões de seu passado e produziu uma saída real que, sintetizada na trajetória do Partido Comunista da China, foi capaz de modernizar não apenas o país como sua cultura.

Assim como a China, a história do Brasil tem sido marcada por contradições. A última nação a libertar os escravos também foi o país mais dinâmico do sistema econômico internacional (junto com o Japão) entre 1930-80 – e hoje volta a enfrentar um período de dificuldades. Em suma, não resta dúvida que valores, culturas e cosmologias compõem a singularidade de uma civilização, povo e nação, assim como é certo que estes ocupam lugares variáveis no espaço e no tempo. Atualmente, o governo chinês e sua diplomacia têm sido hábeis em falar num ‘mundo harmonioso’, em relações win-win e em chinese dream – em oposição ao fardo do homem branco, white supremacy e mesmo às atuais intervenções humanitárias ocidentais. Mais do que demonstrar desconhecimento sobre a história do Brasil, o editor sênior do Diário do Povo negligencia os sacrifícios feitos pelo povo chinês nos últimos dois séculos, em grande medida decorrentes do imperialismo ocidental e de certas disfunções do antigo Império do Meio. Ademais, ajuda a jogar água no moinho daqueles que alimentam a sinofobia e a narrativa anti-chinesa.

A China, pois, tem todos os meios para liderar a nova ordem internacional, mas seus êxitos não se dissociam das concepções que vão embalar sua liderança. Ao mundo, resta saber se os conceitos oficiais lograrão se sobrepor a valores como estes expressos por Ding Gang.

Gaio Doria é doutor em direito pela Universidade do Povo da China.

Diego Pautasso é doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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3 comentários

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Paulo

09 de dezembro de 2018 às 11h47

No fundo, eu acho que os chineses, tanto quanto os americanos, nutrem um certo desprezo pelo Brasil, ao tempo em que reconhecem nossa pujança econômica (a ser contida, na visão estratégica de ambos). Por isso, considero que, como já disse alguém, num passado longínquo, o Brasil não tem aliados, o Brasil tem interesses. Não devemos nos atrelar cega e unilateralmente a nenhum desses dois gigantes, mas explorar no limite a rivalidade entre ambos, enquanto não conseguirmos nos estabelecer em uma 3ª via, em uma potência econômica e militar, a longo prazo. Mas Bolsonaro começou muito mal, nesse aspecto de relações internacionais. Triste ver que mesmo os militares, ultranacionalistas, se renderam (ao menos aparentemente) a essa visão entreguista do Capitão…

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    Oblivion

    09 de dezembro de 2018 às 12h53

    Ultranacionalistas? Prezado Paulo, infelizmente não tenho enxergado nada de ultranacionalismo neles, muito pelo contrário. E sobre o capitão, eu acrescentaria que, além de entreguista, é um vira-lata que envergonha um país inteiro ao sair batendo continência pra bandeira americana e agora até pra qualquer assessor de trump. Pra mim, esses fatos são muito mais vexaminosos de quando lafer foi obrigado a retirar os sapatos. Mas parece que o mundo enlouqueceu… e ainda o enxergam como nacionalista.

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      Paulo

      09 de dezembro de 2018 às 18h32

      Falo pela história. O próprio Henry Kissinger reconheceu isso, ao comentar o quão difícil era negociar com eles, no período do Regime Militar…se, atualmente, nem eles o são, ficará difícil encontrar alguém…

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