História: Brizola na Unicamp em 1987

Um panorama inicial do governo Bolsonaro ou Alegria, alegria

Por Pedro Breier

11 de janeiro de 2019 : 16h33

Começo este panorama inicial pela posse de Bolsonaro, a qual acompanhei por mais ou menos uma hora. Peguei o emocionante trecho em que Bolsonaro deu um estrondoso chá de cadeira no público, na imprensa e nos que acompanhavam pela televisão ou pela internet. O presidente tomava um café com os presidentes da Câmara e do Senado enquanto todos lhe esperavam, apalermados.

Meu destaque daquele fatídico dia vai para a cobertura da imprensa. Mais especificamente, de Boris Casoy e Amanda Klein, da RedeTV!, que produziram uma monstruosa quantidade de frases absurdas, as quais pareciam ter sido enviadas diretamente pela assessoria de imprensa do nosso novo presidente. Coisas como “agora as nomeações vão ser todas técnicas” e “acabou o toma lá, dá cá, segundo o presidente”. Não há mais, pelo jeito, preocupação em sequer esconder o alinhamento ou a falta de objetividade da cobertura. Acompanhemos como agirá a Globo, que não se bica muito com a família Bolsonaro.

As abundantes nomeações, para cargos no governo, de políticos que não se elegeram em 2018 são um belo exemplo de nomeações estritamente técnicas. Se acabou o toma lá, dá cá, imagino que nada será exigido em troca dos partidos desses derrotados da eleição.

É como a nomeação de Sérgio Moro para o ministério após este retirar o líder das pesquisas do páreo, condenando-o sem provas. Ou a nomeação do genro de Léo Pinheiro para a presidência da caixa; Pinheiro é o delator que mudou sua versão dos fatos para incriminar Lula, também sem provas. Deve ser tudo apenas uma mistura inocente entre estrita meritocracia e esquisitas coincidências.

Outro fato ocorrido no primeiro dia do novo governo é tão grave que não permite qualquer tipo de ironia. O esvaziamento da Funai, ao ser transferida para o Ministério da Agricultura a identificação, delimitação e demarcação de terras indígenas é, provavelmente, a medida mais triste de Bolsonaro até o momento. A expressão “colocar a raposa para cuidar do galinheiro” encaixa à perfeição aqui. No embalo da medida, a terra indígena Arara, no Pará, foi invadida por madeireiros há poucos dias. Essa verdadeira tragédia ambiental, social e cultural pode se tornar corriqueira no próximo período.

Voltemos ao assunto “nomeações técnicas”. Causou furor a escolha do filho do vice-presidente, o general Mourão, para o cargo de assessor especial do novo presidente do Banco do Brasil. Hamilton Mourão, filho do general, teve seu salário triplicado ao assumir o cargo.

A pitoresca deputada Joice Hasselmann (PSL), cuja votação avassaladora em São Paulo foi impulsionada por sua popularidade entre o público de direita na internet, postou, sobre o tema, um tweet do ex-tucano e agora bolsonarista Xico Graziano, no qual este afirma que a espetacular promoção do filho de Mourão é “normal” e que “quem estranha tá de sacanagem”. O post de Joice teve uma enxurrada de comentários. Dê uma olhada no post da deputada clicando aqui. Entre os comentários com maior número de reações há, é claro, as tiradas de sarro de pessoas de esquerda. Também aparecem, contudo, muitos eleitores de Bolsonaro decepcionados. Em outros posts da deputada é fácil encontrar outro tanto de desiludidos com a turma do PSL que prometeu mudar tudo isso daí.

Menciono tal fato porque ele é emblemático de que a correlação de forças começou a mudar. São apenas dez dias de governo e figuras como Joice já sentem na pele a diferença entre ser metralhadora giratória e ser vidraça. Imaginem como estará o capital político de Bolsonaro daqui a alguns meses, após a imparável sucessão de burradas dos integrantes do governo e a probabilíssima ausência de qualquer feito revelante em prol da população.

Uma matéria de ontem do Uol demonstra com acuidade o nível de insanidade do nosso momento político: “Olavo de Carvalho questiona se a Terra orbita o Sol; o que diz a ciência?”

Olavo de Carvalho é o homem que indicou “apenas” os ministros da educação e das relações exteriores. Como disse o Chico Buarque, “Com esses ministros, é preferível que a Cultura não tenha ministério”.

As patacoadas do novo governo continuam sucedendo-se implacavelmente – e não há sinais de que serão interrompidas:

  • Um edital para compra de livros didáticos que autorizava citações sem bibliografia, materiais com erros de revisão e a existência de publicidade foi divulgado. O governo recuou após a avalanche de críticas.
  • O Brasil saiu do Pacto Global para a Migração da ONU. É irrisório o número de imigrantes que buscam o Brasil como destino; a medida deve prejudicar inúmeros brasileiros que migram para o exterior.
  • Bolsonaro falou em diminuição da alíquota máxima do IR e em aumento do IOF. Foi desmentido por Onyx Lorenzoni e pelo secretário da Receita Federal, Marcos Cintra. O presidente deve se abster de fazer novas declarações sobre economia.
  • Onyx, ministro da Casa Civil, protagonizou o momento mais cômico do novo governo (até agora). Segundo a coluna Painel, da Folha, as demissões em massa de funcionários considerados “petistas” fizeram com que faltasse gente para tocar pedidos de exoneração e nomeações.

Você consegue imaginar um cenário em que essa mistura esdrúxula de loucura anticomunista/anti-intelectual com ultraliberalismo econômico resulte em algo diferente do caos? Nem eu.

Me parece ser questão de (nem tanto) tempo (assim), portanto, o derretimento da popularidade de Bolsonaro.

E é aí que entra o papel do campo popular. Se fizermos um bom trabalho, a virtualmente inevitável desmoralização do presidente pode ser acompanhada do debacle desse conjunto de ideias e valores conservadores e reacionários que coloca energia em coisas absolutamente ridículas ao mesmo tempo em que escanteia, não por acaso, as questões fulcrais para o país – alguém tem notícia de alguma medida do governo para melhorar o nível de emprego no país, aliás?

Estou no time dos que pensam que é saudável, sim, a avalanche de piadas e memes sobre coisas como o apoteótico anúncio da ministra Damares Alves de que, a partir de agora, meninos vestem azul e meninas vestem rosa. Entretanto, seremos sábios se direcionarmos toda essa criatividade também para temas mais complexos, como reforma da previdência ou o ataque à Justiça do Trabalho. Dá mais trabalho, mas certamente rola.

A irreverência e o humor são armas poderosas na disputa ideológica. Se a política pode ser definida como a arte do convencimento, que sejamos inteligentes e criativos para convencer usando a bizarrice do governo Bolsonaro a nosso favor.

A serenidade e a alegria são os estados internos benéficos que devemos buscar para aproveitar nosso potencial criativo na luta. Mas como, se estamos sob a égide do governo mais boçal da história do Brasil e à beira de uma tragédia social sem precedentes?

Assim ensinam os grandes mestres espirituais da história da humanidade: se dependermos do que acontece externamente a nós, estamos mal arranjados. O externo é caótico, muda o tempo todo e, não raro, pode nos jogar para baixo.

Se aceitarmos a transitoriedade das coisas do mundo, podemos tornarmo-nos cada vez mais capazes de alcançar a serena paz e a sutil alegria que estão sempre disponíveis, dentro de nós mesmos, caso foquemos toda nossa atenção no momento presente. Dica quente para ajudar no processo: meditação.

Assim, lutando uma batalha por vez com tranquilidade, disposição e criatividade, passaremos incólumes (ou quase) por este momento de fortes turbulências e saborearemos a inexorável vitória sobre as trevas. A luta fica mais gostosa se for travada com alegria.

Pedro Breier

Pedro Breier é graduado em direito pela UFRGS e colunista do blog O Cafezinho.

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16 comentários

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kiko

14 de janeiro de 2019 às 05h05

o curioso é que tudo o que o cafezinho falou que bolsanaro esta fazendo dona marmota e o presidiario fizeram tambem-em escalar muito maior é claro, me pergunto onde estava o cafezinho pra denunciar o pt nessas horas???

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Márcio Nunes

13 de janeiro de 2019 às 16h34

Chora PTzada, a economia está reagindo, o dólar caindo, a bolsa subindo, só tem 13 dias de governo, o melhor é que o Brasil irá melhorar e vai beneficiar a todos ( inclusive os que procuram pêlo em ovo) … deveriam todos os insatisfeitos irem com passagem só de ida pra Venezuela ou pra Cuba.

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    Sebastião

    13 de janeiro de 2019 às 17h10

    Na época de Lula você não dizia isso. Procure e pesquise, e veja que era Lula, foi a melhor. Se for um cara de boa fé, porque se for de má fé, vai fazer pouco caso. E por que não outros países, próximo como o Haiti? Vocês falam tanto da migração venezuelana, mas nada sobre o Haiti. Interessante, que pessoas como você, deveria criticar e procurar pelo em ovos, o tempo todo na era Lula, e mesmo assim, você continuou morando no Brasil? Ou tinha brasileiros que mandava você morar nos EUA? Por desgosto seu?

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      Araujo Silva

      14 de janeiro de 2019 às 10h00

      “A era Lula” nao mais foi que uma gastanca incontrolada, irresponsavel e mal planejada durante otimos ventos e um Brasil enxuto e de moeda forte da época. Já em 2006 ja se falava que o PT iria quebrar o pais, coisa que se concretizou mais rapido que imaginavam… Todo o terceiro mundo cresceu igual ou mais que o Brasil nessa tua “era Lula” com o Boom dos comodities, só pesquisar. 16 anos de 13, veja onde estamos. Pior educacao do mundo, economia esfrangalhada, emigracao em massa, violencia recorde e outros…

      Responder

Gustavo

13 de janeiro de 2019 às 08h35

Texto muito bom mas achei que algumas trapalhadas se é que podemos dizer assim ficaram de fora

A troca da embaixada de Israel deve ter retaliação dos países árabes que são grandes importadores de carne e frango do Brasil

O ministro da casa civil já confessou ter utilizado caixa 2 em suas campanhas eleitorais

Queiroz se esquiva de dar explicações sobre as movimentações anormais

Deve ter mais algumas mas no momento consegui lembrar dessas

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Parazinho

13 de janeiro de 2019 às 00h27

Um bom texto, espero acordar amanhã e descobrir que foi apenas um pesadelo, mas a realidade mostra que temos o dever de resistir a esses dias obscuros que estão chegando.

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🐉

12 de janeiro de 2019 às 13h05

Muito bom.

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Paulo Cesar

12 de janeiro de 2019 às 10h13

Até que enfim o Cafezinho deu uma dentro.
Excelente texto!
Bolsonaro me lembra Melkor , personagem de Tolkien.
Melkor tentou destruir a música dos Valhar introduzindo sons desarmoniosos mas ao fazer isso o contaste tornou a música mais bela apenas.
Da mesma forma a cada dia que Bolsonaro governa o governo Lula e até o governo Dilma parecem melhores.

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Paulo

11 de janeiro de 2019 às 18h20

Eu acho bom não torcer para a desmoralização plena do Capitão. A alternativa pode ser pior…

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    José

    12 de janeiro de 2019 às 08h20

    Nada pode ser pior que a dodge babando no bolsonazi.

    Responder

    Alan Cepile

    12 de janeiro de 2019 às 09h06

    Torcer eu torço pro meu time, política é coisa séria, o presidente foi eleito pra fazer a obrigação dele, sem depender de torcida.

    Responder

    Paulo Cesar

    12 de janeiro de 2019 às 10h22

    Como esses ciristas são covardes.
    Vão fazer o que?
    Implantar uma ditadura abertamente?
    Só iriam se queimar ainda mais , nada seria pior para a imagem da direita.
    Seu pensamento traduz a covardia dos que ficam em cima do muro , como Ciro.
    Destruir a imagem de Bolsonaro também desmoralizará as forças armadas.
    Parece que o medo de vocês é que ia atrapalhar o plano do Ciro de ser sucessor do capitão hahaha

    Responder

Marcelo Abb

11 de janeiro de 2019 às 17h57

Texto irretocável.

Parabéns por sempre trazer a meditação e a atenção plena nos seus textos!

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    Pedro Breier

    12 de janeiro de 2019 às 21h33

    Obrigado, Marcelo! Legal saber que reverbera, vamo que vamo.

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      Marcelo Abb

      14 de janeiro de 2019 às 08h52

      Vamo que vamo.

      Só o mindfulness para nos sustentar nesse período tão complicado.

      Forte abraço!

      Responder

Ricardo Oliveira

11 de janeiro de 2019 às 16h57

Prezado, seu texto é impecável quando analisado pela ótica do transloucado governo que se apoderou do país mas não esqueçamos que isso foi alcançado na aposta de que a sociedade brasileira estava acéfala e a esquerda refém de uma situação que não mudou, a grande maioria foi manipulada por informações falsas, pelo apelo ao sentimento passional contra tudo e ela ainda está sendo bombardeada diariamente pelo marketing estratégico desta mídia corporativa, briga com a Globo é boi de piranha, este governo só se sustenta via propaganda e caça as bruxas, o único plano é entregar e desmontar tudo que for possível do estado e isso é fácil de fazer, precisamos usar as mesmas armas, as mesmas estratégias mas com conteúdo claro, objetivo e discurso direto para que as pessoas se deem conta do que está em jogo, a batalha não é da esquerda contra a direita é de ter ou não um país pra dizer que é seu e ter orgulho disto, precisamos de novas lideranças, novas ideias, novos sujeitos e no momento vejo tudo muito acomodado esperando o governo se ferrar, nosso país é que vai pro buraco e depois pra consertar vai levar 50 anos. Não podemos contar com a justiça ela sempre foi da elite só que agora a coisa está escancarada, os militares são bajulados e pouco inteligentes só veem seu umbigo, não temos mais penetração nas bases a esquerda fez tudo o que combatia, está na hora de recomeçar, pois a luta será longa.

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