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Frank Capra. Foto: Vortex Cultural

Por que Frank Capra lutava?

Por Victor Lages

07 de fevereiro de 2019 : 12h39

Começando a coluna semanal da Fênix Filmes n’O Cafezinho sobre cinema e séries, a discussão de hoje é sobre o poder do cinema em cima da opinião pública, a partir da série de documentários “Por que lutamos?” (ou “Why we fight?”), produzidos por Frank Capra junto com o Departamento de Guerra dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial.

Frank Capra. Foto: Vortex Cultural

Acho importante apresentar, inicialmente, a figura central desse texto: o diretor e roteirista Frank Capra. Considerado o cineasta mais representativo e premiado da Era Roosevelt (1933-1945), Capra discutia em seus filmes questões relacionadas aos temas da Grande Depressão Econômica da década de 1930, do espírito do otimismo da política econômica e da Grande Guerra.

Criava, em sua carreira, um conjunto fílmico que disseminava os ideais, princípios e valores fundamentais da identidade nacional coletiva americana e que buscava configurar um projeto de monumentalização mítica da história dos Estados Unidos da América. Os filmes de Capra falavam de pessoas comuns, que esqueciam as diferenças para se unirem em torno de um mesmo ideal, transmitindo uma sensação de segurança e positividade em sua crença na força dos valores democráticos, na liberdade de expressão e no desejo norte-americano de progresso. Os roteiros eram lindos de assistir e não tem, ainda hoje, como não esboçar um sorriso de esperança de dias melhores ao assistir aos seus filmes.

Em sua autobiografia, o cineasta conta uma história que mudou sua vida quanto à Guerra: um homem calvo, que usava óculos de lentes grossas, foi à sua casa quando ele estava muito doente e, sob o som de um discurso de Adolf Hitler transmitido pelo rádio ao fundo, chamou-o de covarde por abandonar, num momento em que o mundo estava em crise, sua responsabilidade de disseminar uma mensagem de otimismo, e não empregar seus talentos criativos de modo que servissem melhor aos propósitos de Deus e da humanidade: “Você pode falar com centenas de milhões, por duas horas – e no escuro”. Esse momento, quase saído de uma cena de cinema, foi decisivo para Capra aceitar a proposta feita pelo presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt.

Acontece que, em meados da década de 1930, a indústria cinematográfica estava totalmente recuperada da crise gerada pela Grande Depressão, provocada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929. Tal recuperação despertou o interesse do governo, que tentou tirar partido das salas lotadas pelos espectadores em busca de entretenimento para esquecerem, pelo menos por alguns momentos, as grandes dificuldades que os esperavam lá fora. Portanto, o cinema hollywoodiano começou a produzir filmes cujos roteiros tentaram disseminar a confiança e o otimismo na recuperação econômica dos Estados Unidos.

E isso foi levado até a Segunda Guerra Mundial. Após o ataque japonês à base norte-americana de Pearl Harbor, a direção da propaganda política ficou sob a responsabilidade do general George C. Marshall e do presidente. O poderoso militar tomou a iniciativa de convidar para participar dos projetos do governo e das Forças Armadas, o cineasta mais premiado de Hollywood – o próprio Capra, que já tinha vencido 3 Oscars –, sugerindo-o a produção de documentários.

Por que lutamos? – Foto: Military History Now

Foi aí que, sob a égide do Ministério da Guerra dos Estados Unidos e liderada pelo diretor, foi iniciada a produção da série “Por Que Lutamos?” (1942 – 1945), composta de sete documentários, que deveriam prioritariamente explicar à sociedade norte-americana, o porquê da participação dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, já que até aquele momento o discurso oficial (de caráter isolacionista) havia a considerado um “conflito europeu” e simultaneamente esclarecer a opinião pública norte-americana sobre os principais acontecimentos da guerra.

O objetivo era produzir uma série de filmes que permitissem aos soldados identificarem-se com o seu passado nacional, encarar o futuro e compreender melhor os homens e as nações ao lado de quem iam ser lançados no combate e, assim, compreenderem porque estavam de uniforme.

As estratégias utilizadas nos documentários eram meramente visual e discursiva: usavam mapas para mostrar o mundo dividido em duas partes (uma livre, que usava preceitos de Moisés, Cristo e Maomé, e a outra sujeita à escravidão, dominada por Hitler, Mussolini e Hirohito); apropriavam-se de imagens de cemitérios e cadáveres para chocar os espectadores; emitiam discursos das ocupações nazistas pela Europa como uma ameba que digeria tudo o que alcançava; expunham os métodos de tomada de poder etc.

Uma das cenas mais chocantes da série vem no terceiro capítulo, em que os sons cada vez mais agressivos e rápidos se contrapõem aos rostos dos habitantes franceses que assistiam à invasão, com destaque ao plano de um francês que não consegue conter as lágrimas diante do desfile das tropas alemães em Paris. A carga emocional era realmente apelativa, mas comovente.

Cena de “Por que lutamos?” – Foto: Film Reference

Além disso, imagens pontuais manifestavam o espírito de perseverança norte-americana, como a de londrinos recolhendo objetos pessoais entre as ruínas com um sorriso de firmeza, russos com rostos de otimismo e certeza de vitória próxima e chineses firmes às ondas de massacres e torturas.

No cômputo total, a série “Por que lutamos?” surge como uma das mais eficazes peças de propaganda em que o cinema contribuiu com o conflito. Para Capra, entre outras honrarias, veio a Ordem do Império Britânico, entregue por Winston Churchill. Mas as grandes perguntas que ficam, ao final dessa leitura, são: será que o cinema ainda tem a força para motivar milhares de pessoas para a guerra? Será que essas pessoas ainda se motivam por imagens a defenderem seu país? Será que por tão pouco pessoas direcionam suas opiniões públicas para uma crença imposta por forças maiores? Será que imagens, infográficos e notícias ainda têm força para mudar a opinião de alguém? Será?

 

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