A fakenews do “ataque” de Ciro à Marcia Tiburi

Marcia Tiburi. Foto: Guilherme Santos/Sul21

A irritação de petistas com Ciro Gomes é perfeitamente compreensível.

Ciro está fazendo críticas muito duras ao PT e a Lula. Eu concordo com algumas dessas críticas, outras não.

Entretanto, é incontestável que os petistas também atacam Ciro Gomes, duramente, sistematicamente, há muito tempo. Os ataques podem não vir diretamente das lideranças; é uma coisa que emerge de baixo, de um setor da militância e dos sites mais vinculados aos interesses do partido, mas isso, no final, não faz diferença, porque o clima de animosidade que se produz é o mesmo caso a crítica viesse de um dirigente.

É normal, portanto, que os petistas rebatam Ciro Gomes. É normal que ataquem Ciro Gomes. Que jurem de pé junto que nunca irão votar nele. Que digam que ele “já era”, que está “morto” politicamente, que se “autodestruiu”, “marinou”.

Nos últimos meses, a quantidade de vezes que petistas “mataram” Ciro Gomes é imensa.

Isso é da política.

Eu acabei de publicar, aqui no Cafezinho, a resposta do deputado Paulo Pimenta, líder do PT na Câmara, à entrevista de Ciro Gomes à BBC. O Cafezinho está aberto para o debate, e procuramos respeitar petistas, trabalhistas, e até mesmo liberais e conservadores.

O debate precisa acontecer, sem papas na língua, sem patrulhamentos, sem melindres excessivos. A conjuntura não nos permite ser demasiadamente sensíveis.

Entretanto, promover fake news é errado.

Se Ciro tivesse, de fato, agredido ou “atacado” Marcia Tiburi, eu seria o primeiro a me revoltar contra esse fato, porque conheci a Marcia na campanha de 2018 e pude testemunhar que é uma pessoa extremamente doce, que não merece, de maneira nenhuma, receber qualquer tipo de tratamento hostil por parte de ninguém.

Eu votei em Marcia Tiburi e apoiei sua campanha aqui no Cafezinho.

O fato, porém, é que não houve agressão nenhuma. Ao contrário, Ciro elogiou Marcia Tiburi.

Reproduzo o trecho em que ele fala de Marcia incluindo um pouco antes e um pouco depois, para ninguém dizer que estou descontextualizando:

BBC News Brasil – O senhor acha que o PT faz algo semelhante?

Gomes – Rigorosamente a mesma coisa. Quantos votos teve a candidata a governadora do Rio de Janeiro nas eleições passadas? Você tem ideia? Rio de Janeiro é a maior concentração de artista por metro quadrado, intelectuais, engenheiros, do Brasil. É a sede da Globo, da ABI, enfim, de tudo o que é progressista.

Sabe quantos porcento PT tirou lá? Dois por cento. Porque a Marcia Tiburi, que é uma figura respeitável, queridíssima e tal, faz apologia do cu na televisão. Eu tenho até vergonha de citar e isso não quer dizer que não haja uma grande interessante questão nesta tese da Marcia Tiburi, mas foi o que dominou o debate no Rio de Janeiro. Você quer uma governadora que faz apologia?

O trecho em que Ciro fala de Marcia está no minuto 16:23. O player abaixo já está no ponto.

***

Ciro mencionou um fato que preocupou muito o PT e a campanha de Marcia Tiburi desde o início. Deu na coluna da Monica Bergamo, na Folha, em junho de 2018:

“O PT ficou assustado com a repercussão, nas redes sociais, do vídeo em que a filósofa Marcia Tiburi, pré-candidata ao governo do Rio, declara num festival de literatura, em 2017, que “o cu é uma coisa muito boa na vida das pessoas. E o cu sobretudo é laico, é das coisas mais laicas que há nesse mundo”.

A fala de Marcia Tiburi sobre o “cu” é a fala de uma escritora, uma filósofa, exercendo sua liberdade de expressão, feita muito antes dela cogitar ser candidata a governadora. É uma frase de quem procura se distanciar ao máximo do conservadorismo moral que vem asfixiando, nos últimos anos, o debate político brasileiro. É uma belíssima e corajosa “apologia do cu”, e um grito de liberdade.

O vídeo, contudo, se tornou uma peça de propaganda negativa contra Marcia Tiburi e, por extensão, contra toda a esquerda dita “identitária”.

Não vou me aprofundar aqui no debate, ultracomplexo e delicado, sobre a questão identitária, que é central na política contemporânea. Jair Bolsonaro foi eleito, em boa parte, porque conseguiu emplacar a narrativa, falsa mas, por alguma razão, convincente, de que a esquerda tem obsessões identitárias. Daí a facilidade com que fake news como “mamadeira de piroca” e “kit gay” se disseminaram por algumas redes.

Também não vou debater com a própria Marcia Tiburi, que reagiu chamando Ciro de “coronel mimado”. Ela, sim, “atacou” Ciro Gomes, usando inclusive um adjetivo “coronel” que muitos consideram preconceituoso contra o nordeste. Ela está no direito dela. Como filiada ao PT e ex-candidata do PT ao governo do Rio, Marcia Tiburi acabou assimilando essa irritação orgânica – e, como já disse, justificável – de grande parte do petismo contra as falas de Ciro. Além do mais, do jeito que o fato foi interpretado por alguns sites, como “ataque vil, rasteiro, grosseiro”, seria difícil mesmo que ela não se sentisse ofendida. É possível que tenha formado opinião através dessas interpretações da entrevista antes mesmo de assisti-la.

Esse ódio petista a Ciro nasceu muito antes do líder trabalhista começar a fazer as críticas mais duras ao PT que tem feito nos últimos meses. É antigo. Eu sofri isso na pele já em abril de 2018, quando ousei escrever alguns artigos mencionando a possibilidade do campo progressista se unir em torno de Ciro. Fui linchado nas redes petistas com muita violência – mas também defendido, publicamente, por quase todos meus amigos petistas, é justo notar. Mas isso também não é assunto desse post.

Quanto ao artigo de Jean Wyllys, é apenas lamentável que alguém que ganhou emprego numa universidade americana para pesquisar “fake news” acabe, ele mesmo, reproduzindo fake news.

Se é para combater fakenews, então temos que ser coerentes e não usar de notícias falsas a nosso favor.

No caso, Ciro Gomes NÃO atacou Marcia Tiburi.

Ciro fez um alerta que intelectuais progressistas tem feito há algum tempo. Não é questão de asfixiar ou esconder as causas identitárias, mas apenas de tomar o cuidado para não mostrá-las de maneira caricatural, divisiva, antipopular.

As lutas identitárias, e nisso concordo em parte com Jean Wyllys, são parte integrante das lutas populares, mas elas tem de ser vistas, efetivamente, como populares. Isso não acontecerá com discursos em prol do “cu”; sim, isso vale não apenas para políticos, ou para momentos eleitorais, mas também para intelectuais que almejem participar do debate político de maneira propositiva, com objetivo pragmático de combater o fascismo e o conservadorismo.

Não é possível mais negar que alguns discursos, por mais bem intencionados que sejam, acabam por promover uma imagem caricatural tanto da política identitária quanto do intelectual preocupado com questões identitárias. A linguagem, a forma, a postura, são tão importantes quanto o conteúdo.

Problematizar essa questão, como fez Ciro, é fundamental, se quisermos, um dia, voltar a ganhar eleições.

Se é para fazer uma crítica à fala de Ciro, seria que Marcia não pontuou, como ele disse, 2% nas eleições, e sim quase 6% dos votos válidos. Marcia Tiburi obteve 447 mil votos no primeiro turno.

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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