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Uma análise (com viés trabalhista) sobre o embate Ciro X Lula

Por Redação

15 de novembro de 2019 : 12h19

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Ciro Gomes x Lula: do declínio à alternativa

Por Lucas Batista

A esquerda nunca esteve unida, e isso é natural. É saudável que existam divergências programáticas, especialmente entre tradições políticas tão diferentes como o Trabalhismo e o Lulopetismo.

Mas hoje os filhos pródigos do Petismo, ou até pessoas de boa fé seduzidas pelo canto da unidade irrestrita, clamam por um unidade contra a extrema-direita. Ora, no que se baseia essa pretensa ideia de unidade? Como é possível existir unidade com uma figura de força gravitacional do tamanho de Lula? O que a experiência histórica nos demonstra é que todas as unidades com o PT desde 1989 se dão entorno do que Lula decide, seja entorno dele ou de quem ele indicar, que nunca é alguém de fora do PT, a não ser em alianças de cidades na qual o PT não tem chance de ter algum destaque.

No segundo turno, quando o Ciro Gomes foi para a Europa, Caetano Veloso perguntou para ele o porque dele agir com rancor naquele momento tão decisivo para o país. Ciro então disse que nunca toma atitudes por rancor, ele apenas faz política. Quem diz que o Ciro está pensando com o fígado é desonesto, ou na melhor das hipóteses alguém que desconhece Ciro Gomes de verdade. A alternativa naquela altura era dada aos olhos de todos, afundar junto com o PT, ajudando-o a manter a hegemonia da oposição, ou se afastar e construir uma alternativa. Ciro optou pelo segundo; apanhou do PT, mas cresceu para o resto.

“Gostando ou não, não dá para fazer oposição sem alguém do tamanho do Lula”, lamentam, em seu derrotismo. Eu, por outro lado, vejo o PT em franco declínio: manteve sua base justamente consolidada no nordeste, mas perdeu de lavada no Norte, Centro-Oeste, Sul e Sudeste.

As porcentagens de votos do Bolsonaro em alguns dos principais estados no segundo turno são eloquentes: Minas Gerais (58,21%), Paraná (68,43%), Rio Grande do Sul (63,24%), Rio de Janeiro (67,95%), Rondônia (72,18), Roraima (71,88%), Santa Catarina (75,92%), São Paulo (67,97%). Isso para não pegar alguns municípios do interior de RJ e SP, onde Bolsonaro deu lavadas de mais de 80%.

Em alguns desses estados, o PT já havia ganho em outras eleições, mas nunca com tamanha vantagem. A rejeição ao PT se mostra tão factual que nenhum candidato ao governo declarou apoio a Haddad na altura do segundo turno, algo inédito. Porque seria um decreto de perda da eleição estadual.

Somente Fakenews não explica isso, e sim o desgaste de um governo que ficou 13 anos no poder, e saiu pela porta dos fundos sem forças para sequer reagir, em meio a vários escândalos de natureza ética de seus integrantes, e com uma guinada neoliberal do último mandato da Dilma, a conselho do Lula. Esses fatores deram substância para a pré-disposição em acreditar nas fakenews.

Quanto ao Lula, sua liderança politica é incontestável, porém hoje ela é limitada. Não só legalmente por ele estar inelegível e alimentar novamente esperanças de uma possível candidatura sua, e de novo empurrar um poste, repetindo o risco de reeleger Bolsonaro (daí o Ciro dizer que o Lula não aprendeu nada, e com razão), mas também pelo fato de, assim como Bolsonaro, sua rejeição cada vez mais se sobrepor a sua aprovação fiel de 30%.

A pergunta que fica é, o que vai ser do PT depois que o Lula sair de cena? O personalismo que não cria novas lideranças sempre tem esse caráter limitado. O próprio PDT sofreu com isso após a morte de Brizola, até se reconstruir. O PT deve seguir o mesmo caminho, mas sem a rica tradição e linha ideológica do Trabalhismo.

Quanto ao Bolsonaro, ele teve 57.797.847 (55%) dos votos. Não foram fascistas que brotaram do chão. São milhões de brasileiros e brasileiras que votaram no Lula e na Dilma, que votaram na Marina Silva, que votaram no PSDB, mas que em meio a crise política e a desmoralização das instituições, buscaram um voto que jogasse no lixo todo o sistema “PTucano”, em que os dois se revezavam no poder, com fracas alternativas, e reproduziam as mesmas práticas. Ortodoxia liberal com concessões e programas sociais x ortodoxia liberal com privatizações e programas sociais, uma falsa polarização.

Some-se isso as pessoas que não se identificavam com nenhum dos dois candidatos, com dados imprecisos para análise política pois variam os motivos, mas são números significativos: BRANCOS 2.486.593 (2,14%), NULOS 8.608.105 (7,43%), ABSTENÇÕES 31.371.704 (21,30%).

Durante o primeiro ano de governo Bolsonaro, a sua base popular já derreteu quase pela metade, esses votos podem ir para qualquer candidato, mas o mais difícil é irem (ou voltarem) para o PT.

Ciro Gomes, por outro lado, cresceu consideravelmente com pouquíssima estrutura de campanha, teve um repertório de potencial crescimento especialmente no Sudeste, onde bateu o PT no Rio de Janeiro, e disputou de frente em MG e SP. Ainda carregado pela pecha de ser ex-aliado de Lula, teve dificuldades. Mas é um nome naturalmente forte no Nordeste, e precisa se consolidar nas demais regiões com a expansão do PDT e aliados.

Nessa linha, uma aliança nacional com PSB, PV e Rede para 2020 foi consolidada, tendo várias candidaturas fortes em todo país, com o horizonte de construir um campo alternativo ao PT e PSOL, e fortalecer os 4 para 2022. Enquanto isso o PT já abandonou seu aliado Freixo, e busca impor candidaturas próprias em todas as cidades possíveis, mesmo não tendo nenhuma competitiva fora do nordeste.

Hoje Ciro faz política e trabalha para se distanciar do PT e se apresentar como alternativa viável. Brizola também batia muito no PT, não apenas por ser o “sapo barbudo”; chamou Lula de neoliberal, disse que ele não gostava de trabalhar, questionou as contas de sua campanha insinuando a corrupção petista, e assim garantiu que ninguém nunca confundisse Brizola com o Petismo. Portanto faz parte bater, assim como faz parte do jogo político você escantear um dos principais partidos do país (PSB) só para impedir o adversário (do campo?) de crescer. Se vale tudo, então vale tudo.

Se não teve cordialidade do lado de lá, não terá do lado de cá. A diferença é que o PDT tem substância nas críticas, pois somos historicamente diferentes do PT (e é por isso também que estou no PDT). Temos que ouvir da presidente do PT que o Ciro é coronel, no estado em que o PT só governa por ser apoiado pelo Ciro. Quando buscamos diálogo, ouvimos um “Ciro não passa no PT nem com reza brava”. E não é rancor, longe disso, é disputa política. Lupi cumpre o papel diplomático do dirigente partidário, e Ciro cumpre o papel agitador da liderança política, não existe contradição aí, os dois se completam na liderança do PDT.

Por fim, o objetivo dessa análise não é debater com o Petista médio. Esse tem todo o direito de seguir acreditando na agenda do Lulopetismo, que eu não vejo como alternativa na conjuntura econômica atual (aí já é outro debate), mas sim defender a minha tese de que precisamos construir um campo nacionalista de centro-esquerda, que pode abranger Trabalhistas, Socialistas, Comunistas, e o centro politico (leia-se: Classe média, Pequenos e médios empresários, políticos, intelectuais, acadêmicos, artistas, etc), com um horizonte de construir um novo projeto de nação, que possa não apenas reverter os retrocessos do governo Bolsonaro e fazer programas sociais, mas também retomar o Desenvolvimento econômico não apenas “colocando os pobres no orçamento”, mas sim colocando os pobres para estudar em uma escola de qualidade, trabalhando em um emprego digno com direitos trabalhistas assegurados, com a retomada das indústrias de produtos básicos e de inovação tecnológica, construindo a soberania e a emancipação que o povo Brasileiro precisa e merece.

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1 comentário

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Carlos Marighella

15 de novembro de 2019 às 13h09

Da esquerda para a direita (hoje):

PSOL – PCdoB – PDT – PT – PSB

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