A família Bolsonaro não aprende — ou aprende exatamente o que quer. Nesta terça-feira (21/7), em Brasília, o senador e presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro, reeditou diante de uma plateia de diplomatas estrangeiros o mesmo número que custou ao pai, Jair Bolsonaro, oito anos de inelegibilidade: espalhar mentiras sobre as urnas eletrônicas para autoridades de outros países, segundo revelou a Folha de S.Paulo.
Diante de representantes de mais de 40 países — entre eles EUA, China, Reino Unido, Japão e União Europeia —, num evento fechado à imprensa, Flávio insinuou que as urnas brasileiras teriam “a mesma origem” da empresa venezuelana Smartmatic, citada num suposto relatório da CIA sobre fraude eleitoral na Venezuela em 2012.
A afirmação é simplesmente falsa. E não é falsa desde ontem: a Justiça Eleitoral desmentiu esse boato ainda em 2020, esclarecendo que a Smartmatic jamais forneceu urnas ou softwares de votação ao Brasil — a empresa prestou apenas serviços acessórios de conexão de dados e voz, e chegou a disputar uma licitação de urnas em 2020, que perdeu para a brasileira Positivo. Ou seja: o presidenciável do PL foi a uma reunião com embaixadores requentar uma mentira desmentida há seis anos.
O mesmo crime que derrubou o pai
A cena é uma cópia quase literal de julho de 2022, quando Jair Bolsonaro convocou embaixadores ao Palácio da Alvorada para atacar o sistema eleitoral com dados falsos e distorcidos. Aquele espetáculo custou caro: em 2023, o TSE condenou o então presidente à inelegibilidade por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação.
Hoje, Jair Bolsonaro está preso, condenado a 27 anos pela trama golpista que tentou impedir a posse do governo eleito em 2022. E o filho, em vez de se afastar do roteiro que destruiu politicamente o pai, resolve repeti-lo ponto por ponto — desta vez às escondidas, num evento que sua equipe fez questão de não divulgar à imprensa.
O truque retórico também é herdado: assim como o pai sempre fez, Flávio atira a suspeita e depois finge isenção, dizendo que “não está questionando” o sistema de votação — logo após compará-lo a um esquema de fraude venezuelano — e pedindo aos países que enviem o máximo possível de observadores estrangeiros para as eleições de 2026.
Preparando o terreno para contestar a derrota
O objetivo da manobra é transparente. A poucos meses da eleição, o clã bolsonarista começa a construir, de novo, a narrativa de fraude — o seguro-desemprego preferido da extrema direita para o caso, cada vez mais provável, de derrota nas urnas. Semear dúvida sobre as urnas junto a governos estrangeiros é a etapa internacional dessa operação: se perder, o bolsonarismo quer poder gritar “fraude” com eco lá fora.
No mesmo evento, Flávio completou a cartilha familiar: disse que o pai foi condenado “sem nenhuma prova” e é vítima de uma “farsa” do Judiciário, acusou a Polícia Federal de estar aparelhada para perseguir opositores e prometeu que, em seu eventual governo, as instituições voltariam a “investigar criminosos” — como se a condenação do pai, referendada em todas as instâncias, não fosse justamente o resultado de uma investigação criminal.
De quebra, acenou ao mercado com a promessa de acelerar licenciamentos e abrir terras indígenas à mineração, embrulhada no verniz de dar “autonomia” aos povos originários para explorar o próprio subsolo — receita conhecida de quem pretende entregar a Amazônia ao garimpo e ao grande capital.
Procurada pela Folha, a pré-campanha de Flávio não respondeu. O silêncio é compreensível: não há defesa possível para quem mente a diplomatas sobre a democracia do próprio país — ainda mais quando o precedente familiar terminou em inelegibilidade e cadeia.
Foto: Agência Senado (Wikimedia Commons)


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