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Uma análise sobre o artigo de Luciano Huck

Por Pedro Breier

11 de fevereiro de 2020 : 14h15

Gilberto Maringoni, quadro importante do PSOL, fez um alerta para a esquerda: Luciano Huck está tentando se posicionar como o anti-Bolsonaro. Maringoni baseia esta opinião no artigo que o apresentador de TV publicou na Folha no último dia 5, para o qual pede muita atenção.

Sigamos o conselho do Maringoni e analisemos o escrito.

No antelóquio (acabei de descobrir a existência desta peculiar palavra) do texto, Huck conta a história trágica de Douglas, morador de uma favela do Rio de Janeiro. O apresentador inicia o segundo parágrafo dessa forma: “Estávamos no alto da Favela do Quarenta (…)”, uma evidente tentativa de mostrar-se inserido na periferia e conectado à população marginalizada. É uma estratégia que não surpreende, considerando as incursões de Huck por lugares pobres do Brasil no seu programa semanal, o “Caldeirão do Huck”. Depois de creditar o infortúnio de Douglas à desigualdade social, pauta histórica da esquerda, ele explicita sua estratégia: “Como apresentador de TV, passei as ultimas (sic) duas décadas vendo, ouvindo e compartilhando as histórias de pessoas que vivem em favelas, em regiões remotas e em outras áreas degradadas. Como cidadão ativo e empreendedor social, estive e continuo procurando maneiras de contribuir para dar oportunidades e destravar o potencial de dezenas de milhões de brasileiros em situações de pobreza.”

No parágrafo seguinte, mais apontamentos sobre a desigualdade, com um trecho que poderia ter saído da boca de um membro do Partidão: “(a desigualdade é) legado do desdém cínico de uma elite pelos mais pobres”. Na verdade, um comunista diria “a elite” e não “uma elite”. Descendo algumas linhas no artigo de Huck se entende porque ele usou o artigo “uma”. Reparem na seguinte frase: “No Brasil, os milionários pagamos menos imposto sobre a renda e o patrimônio do que nos países democráticos mais desenvolvidos. Enquanto isso, o modelo impõe uma carga duríssima de impostos indiretos sobre os mais pobres.”
Huck quer se apresentar como integrante de um suposto setor da elite que se importa com os pobres e, naturalmente, se descolar do setor que não se importa. Mesmo sendo um milionário, Huck acha injusto que os milionários paguem proporcionalmente menos imposto que pessoas de baixa renda. O discurso contra o sistema tributário regressivo brasileiro é outra bandeira histórica da esquerda que o apresentador da Globo resolveu balançar.

Avançando no artigo, lê-se que para diminuir a desigualdade são necessários “avanços drásticos na cobertura e na qualidade do sistema público de ensino básico”, mais uma pauta tradicional da esquerda abraçada por Huck. Suas propostas mais concretas, embora ainda um tanto vagas, para a melhoria do ensino público são “investir com mais critério, priorizando o treinamento e a promoção dos professores, ensino da primeira infância, continuidade com qualidade nos ciclos seguintes, valorização do ensino técnico e currículos antenados com o século 21”.

Nada sobre o que talvez seja a grande questão: a atratividade da carreira de professor do ensino básico. Para que tenhamos um ensino público de qualidade é necessário que a carreira dos que ensinam seja atrativa. Se a carreira de professor fosse tão recompensadora quanto a de médico, em termos de salário e status, haveria uma multidão de mentes brilhantes investindo na ideia de dar aulas. Também não há, no texto, nenhuma linha falando sobre mais investimento na estrutura física das escolas (salas de aula, mesas, cadeiras, lousas, computadores modernos, internet de qualidade), outro ponto fundamental para uma melhoria consistente do ensino público — o próprio Huck reconhece a discrepância entre as escolas privadas e as públicas: “Os mais ricos têm o privilégio de pagar por escolas de ponta, enquanto crianças mais pobres, como o Douglas, têm acesso a um aprendizado de menor qualidade(…)”. Na verdade, o articulista é contra a construção e inauguração de prédios novos (!): “Em vez de construir e inaugurar prédios novos, o foco deveria ser investir com mais critério(…)”.

Eis o busílis: o quase-candidato simplesmente não pode defender maior investimento no ensino público. Seu limite é o “investir com mais critério” porque seu programa econômico é o liberal, para o qual investimento público é blasfêmia. O próprio Huck não deixou margem para dúvidas quanto às suas ideias sobre linha econômica ao afirmar para uma plateia de executivos, em setembro do ano passado, que a agenda econômica do governo Bolsonaro é correta. A mesma linha de raciocínio serve para a sua proposta de aperfeiçoamento da rede de proteção social: “Inteligência artificial e tecnologias da informação, além de empenho administrativo”. No essencial — direcionar uma maior parte do orçamento público para a área — Huck não toca.

É blasfêmia.

Um liberal raiz não pode cogitar, por exemplo, uma simples auditoria da dívida pública, que consumiu 40,66% do orçamento do país inteiro em 2018 (fonte: Auditoria Cidadã da Dívida), ou a bagatela de 1,065 trilhão de reais. Para sermos justos, há setores importantes da esquerda que, faz um bom tempo, deixaram de falar sobre esse verdadeiro monstro devorador de orçamentos, como as principais lideranças do Partido dos Trabalhadores. Dilma Rousseff chegou a vetar, no auge das movimentações pró-impeachment, um projeto de lei que determinava a auditoria da dívida e, sabe-se lá como, havia sido aprovado pelo congresso. Vai ver foi o temor da Santa Inquisição do Liberalismo Econômico, que joga na fogueira quem ouse questionar seus dogmas.

Decerto não passa pela cabeça de Luciano Huck enfrentar a Inquisição político-econômica moderna, seja porque concorda com os dogmas liberais, seja porque mesmo que divergisse, não poderia fazê-lo sem perder o apoio de setores importantes da elite econômica para sua empreitada. Por isso suas propostas são esta mixórdia de pautas vinculadas à esquerda, que afinal soam bem para um candidato, com a austeridade insana da direita. O resultado são platitudes como as sugestões de “mais critério” nos investimentos ou “currículos antenados com o século XXI”, quando é evidente que para começar a resolver os problemas do ensino público é dramaticamente necessário mais investimento… público.

Na parte final do texto, Huck afirma que o país precisa de novas lideranças e se coloca como uma alavanca para o seu surgimento, mencionando o Agora e o RenovaBR, respectivamente um “movimento” e uma “escola apartidária para treinar potenciais líderes políticos”. Se sua ambição presidencial é um fato, e tudo indica que é, o apresentador parece estar recrutando um exército de candidatos a cargos eletivos para criar uma base política dentro das instituições suprapartidária. “O Brasil precisa”, afinal, “de uma ampla coalizão política para enfrentar a desigualdade de oportunidades, replicando as boas experiências e as boas práticas, sejam elas da direita ou da esquerda”, escreve Huck. É aquela piada que ficou até manjada nos últimos ano: falou que não é de esquerda nem de direita, já sabemos que é de direita.

Não quero afirmar que todas as práticas da direita são descartáveis — se procurarmos bem devemos achar algo útil à sociedade — mas na dicotomia entre Estado que investe no país e Estado que, como um tesoureiro ranzinza, só propõe cortar gastos, há que se escolher um lado. O malabarismo retórico não tem o poder de materializar as propostas “esquerdistas” de Huck sem aumentar o investimento público.

De qualquer forma, em que pese a facilidade com que se pode desconstruir as ideias de Huck, tem razão de ser a preocupação de Maringoni. É um discurso bem engendrado para seduzir incautos com as ideias fantasiosas de que Huck pode unir o país e acabar com a disputa entre direita e esquerda. A(s) esquerda(s) precisa pensar e discutir suas estratégias para o enfrentamento que se avizinha. Como o presente texto já se estendeu um pouco, deixo esse debate para um próximo.

Pedro Breier

Pedro Breier é graduado em direito pela UFRGS e colunista do blog O Cafezinho.

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14 comentários

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Paulo

11 de fevereiro de 2020 às 21h51

É um acinte a candidatura desse indivíduo. Em outros tempos, seria escarneado e ridicularizado. Atualmente, capaz até de ser eleito…

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    Carlos Marighella

    12 de fevereiro de 2020 às 09h08

    A possível candidatura dele é legítima, infelizmente não há nada na lei que impeça isso.
    Ronald Reagan era um só um péssimo ator quando foi eleito presidente dos Estados Unidos, havia até aquela piada do cara que entrou em coma, e, ao perguntar o que tinha acontecido durante o coma, disse “Ah tá, e o Reagan virou presidente, né?”.
    A ignorância da nossa sociedade, aliada a um governo fraco, possibilita o surgimento dessas figuras um tanto estranhas.

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      elioricardoalves

      14 de fevereiro de 2020 às 18h39

      Olha Carlos pessoas ficam preocupadas com se e esquerda ou direita tem que ser uma união de políticos nunca se vê isso esse pais poderia ser um pouquinho melhor se eles se trabalhassem por este pais não e o que se vê roubalheira aumento dos próprios salários e o Brasil se afundando mais por excesso de gastos

      Responder

putin

11 de fevereiro de 2020 às 19h53

é preciso parar com esta mentira descarada que o serviço da divida come o 40% do orçamento!
o interesse medio é 8% e, pois a divida/pib é o dobro do orçamento/pib, a divida custa o 16% do orçamento e NAO o 40%!!!
a diferença de 24% é grana que sai quando se paga uma divida em vencimento (“amortizaçao da divida”) mas isso nao se deve contabilizar no orçamento como gasto publico, assim como nao se contabiliza como arrecadaçao publica a grana que entra quando a divida é contraida!
ta certo?
fazer oposilao sim mas con verdade e sem demagogia e distorçao da realidade, por favor.

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Abdel Romenia

11 de fevereiro de 2020 às 19h36

Huck – Frota 2022 entào…tà confirmado ? Kkkkkkkkkkkkkkkkkk

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    Alan C

    12 de fevereiro de 2020 às 00h41

    Um aproveitador e um paspalho, a cara da direita! rsrs

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Gilmar Tranquilão

11 de fevereiro de 2020 às 16h27

Mais um super liberal da direita kkkkkkk

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Psilocibes Cubensis

11 de fevereiro de 2020 às 16h04

Huck diz o que vai fazer e não diz como , puro populismo barato.
Tirando a questão tributária , na qual ele disse apenas o óbvio.
Contudo ele tem mais visão do que Ciro que caminha para a direita aonde não há espaço pra ele crescer.

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Wellington

11 de fevereiro de 2020 às 15h41

“Seu limite é o “investir com mais critério” porque seu programa econômico é o liberal, para o qual investimento público é blasfêmia.”

Veja que não é nada disso prezado esquedista tupiniquim, investimento público não é nada blasfêmia em hipótese nenhuma.

É dinheiro jogado fora quando mal investido ou sem dar resultados. Construir escolas ou hospitais só para fazer número e usar para propaganda política é blasfêmia.

Jogar fora bilhões para construir estádios para uma porcaria de copa do mundo quando falta algodão nos hospitais é uma desgraça blasfemica, por exemplo.

Entendo que esquerdistas tupiniquim não consigam ir além do binarismo mas vocês possuem uma opinião bastante deturpada de tudo que não é a vossa prezada ideologia, filha do preconceito implantado nas escolas superiores e faculdades ?

Longe de mim pegar as partes desse comediante.

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    Luiz

    11 de fevereiro de 2020 às 20h32

    O Paraná é um grande produtor de algodão!

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    baranga prenha

    11 de fevereiro de 2020 às 20h53

    São afetos por binarismo do bem rasteiro, preembaldo, e ainda se acham melhores que os outros quando gritam algumas palavras de ordem feitos trogloditas.

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    Valtair Noschang

    18 de maio de 2020 às 14h28

    Meu caro, veja estes dados. São esclarecedores quanto ao baixo investimento em educação básica no Brasil, comparado aos países desenvolvidos. Investimos menos da metade. É verdade, precisamos criar mecanismos de recompensa financeira aos professores por resultados alcançados. Mas isso também só será possível com enorme aumento do investimento. https://www.todospelaeducacao.org.br/conteudo/Quanto-dinheiro-o-Brasil-coloca-na-Educacao-Publica

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Evandro Garcia

11 de fevereiro de 2020 às 15h10

O novo salvador dos pobres, o novo Lula…LuLiano Huck !! Kkkkkkk

É certeza que os brasileiros cairão nessa novamente.

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Alan C

11 de fevereiro de 2020 às 15h03

1º) Somente um péssimo governo, cheio de escândalos, envolvimento com milícia, corrupção, rachadinhas, suspeita de envolvimento em assassinatos de parlamentares, jesus na goiabeira, golden shower e etc, etc, etc….. .. . .. . . … …… poderia dar brecha à chegada de um aventureiro oportunista como um apresentador de TV.

2º) Pedro, cuidado ao citar a Auditoria Cidadã da Dívida, o redator-chefe já disse que não é uma fonte séria, acredite….

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