Live do Cafezinho (18 h): Pós-verdade na política brasileira (uma conversa com Fabio Palacio)

Frederico Krepe: a esquerda e a solidariedade identitária

Por Redação

21 de fevereiro de 2020 : 17h38

Por Frederico Krepe

Os eventos ao redor dos tiros contra Cid Gomes são de conhecimento geral da população brasileira e têm levado a várias discussões importantes. Desde a atuação das polícias no Brasil, até a crescente influência do bolsonarismo no seio militar e o seu total desrespeito por regras democráticas e consensos civilizatórios. A crise gerada pelos PMs amotinados foi motivo de reação de diversas forças do espectro político brasileiro, mas me chama a atenção na forma como setores da esquerda, especialmente PT e PSOL, e seus militantes nas redes reagiram ao ocorrido.

Um dos elementos que mais me chamou a atenção foi a falta de solidariedade de muitas pessoas e o tom seco e distante presente nos pronunciamentos, quando foram feitos, de várias lideranças (a única exceção foi o forte posicionamento de Dilma Rousseff). Tanto algumas figuras dos partidos como parte de suas respectivas militâncias tiveram uma imensa dificuldade em prestar um ato de solidariedade genuíno, sem amarras ou rancores e o que se viu, especialmente nas redes, foi muita gente atacando ou debochando de Cid Gomes, ou simplesmente se calando. Essa atitude é sintomática de algo que ocorre cada vez mais no seio de certos grupos de esquerda, a solidariedade identitária.

A solidariedade identitária parte do princípio de que só devemos ter genuína solidariedade e preocupação com aqueles que estão inteiramente incluídos no nosso grupo e pensam como nós. Nada fora disso é digno de nota. Muito dessa característica vem de uma cultura política cultivada pelo petismo desde a sua criação. A cultura política petista tem uma imensa dificuldade em se relacionar aqueles que pensam fora dos seus moldes ou que se afastaram, mas ainda são virtuais aliados. Foi assim com Brizola, com os comunistas no passado e hoje é assim com figuras como Marina Silva, Heloísa Helena, setores da esquerda do PSOL e lideranças como Ciro e Cid Gomes. O fato de estarem inseridos em tradições políticas diferentes e tecerem críticas ao PT faz com que a relação com determinados quadros seja sempre parcial ou protocolar se estes não aceitam se submeter à visão de mundo e estratégia política petista.

Esse comportamento ainda guarda algo mais básico, e muito mais perigoso, que é o clima constante de desumanização dos adversários, propagado pelo petismo. Em 2014, Marina Silva foi massacrada pela campanha petista de uma forma tão brutal que muitos nutrem um ódio desproporcional contra ela até hoje. Algo semelhante aconteceu com Ciro Gomes em 2018, já que o simples fato de se negar a subir no palanque petista no segundo turno, depois de ter sido atacado da forma mais baixa possível no primeiro, é suficiente para que ele seja pintado como um monstro. Com Cid Gomes a história é parecida. O senador ficou famoso pela frase “O Lula tá preso, babaca!” proferida e um ato político com lideranças do PT, mas se esquecem que ele também foi para a rua tentar ganhar votos para o Haddad. Não só isso, Haddad venceu em todas as cidades vencidas por Ciro e teve um desempenho extraordinário no Ceará. Todos esses fatos são descartados e o que sobra é o rancor e o ódio por quem está em raias diferentes, ainda que tenham inimigos comuns. É essa desumanização que vi se repetir com a reação de parte da militância influenciada por essas atitudes.

A solidariedade é um valor cada vez mais esquecido pela esquerda. A própria ação da esquerda parece se distanciar cada vez mais de uma orientação dada por valores. Pautas orientadas pela defesa da igualdade, da justiça, e da liberdade foram, sorrateiramente, dando espaço para reivindicações cada vez mais exclusivistas e divisivas.

Não é diferente no caso em questão. Só podemos ter solidariedade com aqueles que são do mesmo grupo que nós, qualquer um que seja diferente não merece nosso olhar. Deixamos de olhar para o universal, para o humano e passamos a nos preocupar somente para o grupal, o particular. A partir do momento que o grupal passa a desempenhar um papel de centralidade, esquecemos a razão, a empatia e a preocupação com o outro. Pior, pensamos estar com a razão completa e o outro estar completamente errado, o que faz com que sejamos violentos, arrogantes e nos comportemos de forma cada vez pior. Esse erro é extremamente comum no meio político e temos que tomar muito cuidado para não reproduzi-lo no cotiano de nossa ação política. A esquerda parece se esquecer que é exatamente esse o modus operandi da extrema-direita que tomou conta do país e repete os mesmos erros.

Penso que o momento exige refletir sobre o que realmente é ser de esquerda. Ser bom leitor de Marx, Lênin e outros não é o que nos faz de esquerda. Agitar gente na rua, construir um sindicado ou outro movimento também não. Tampouco levantar uma bandeira vermelha, colocar um boné do MST ou gritar “Marielle Vive!”, “Lula livre!” ou outras palavras de ordem. O que faz uma pessoa ser realmente de esquerda são os valores pelos quais ela luta para serem realizados na sociedade, valores de igualdade, solidariedade, justiça, liberdade entre outros. Todas as outras coisas citadas podem contribuir, passar a imagem de alguém de esquerda ou progressista, mas isso tudo é cosmético e visual. O verdadeiro conteúdo está nos valores que nos guiam e eles que devem ditar nossa ação política, não a ocasião, o cálculo político ou a busca por uma vitória institucional parcial. É urgente entendermos que o que nos move está além daquilo que mostramos aos outros, só assim conseguimos sair da solidariedade identitária em busca de algo mais forte e abrangente. Só assim nos reconectaremos com o povo e suas dores para podermos ganhar a hegemonia da sociedade novamente em direção a algo melhor. Só assim conseguiremos combater o autoritarismo que nos assola com força e apelo popular.

* estudante de pós-graduação em Filosofia da UFJF.

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11 comentários

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Eduardo Debaco

21 de fevereiro de 2020 às 23h16

Não sei a que esquerda você se refere, até onde li, todos condenam o motim bolsonarista.

A solidariedade, não só da Dilma, como da Gleisi, foi muito maior do que a do Ciro com o Lula e o Haddad.

Agora, O Cafezinho pensa que é de esquerda, mas depois de um ano e pouco de governo fascista, ainda sente verdadeira compulsão em atacar o PT e outros partidos verdadeiramente de esquerda.

Com tudo que vêm acontecendo, está na hora do Ciro e seus apoiadores fazerem uma autocrítica das suas posições nos últimos 2 anos. Não vejo o PT atacando ou sequer respondendo os seus ataques.

O dia que vocês realmente forem de esquerda, vão dialogar com o PT, até lá, estarão a serviço da elite.

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    Miramar

    22 de fevereiro de 2020 às 01h07

    O mínimo que espero do Ciro é que esse continue defendendo as próprias ideias, além de manter uma distância segura dos canalhas da “esquerda verdadeira”; canalhas da mesma estirpe do bolsonarismo.

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chichano goncalvez

21 de fevereiro de 2020 às 21h43

Não acredito, que com bons modos iremos melhorar a vida de quem precisa,: O Brazil só muda com revolução, palavras do Ivan Pinheiro, e esta mais do que passando da hora de com ferro fere, com ferro será ferido.

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Paulo

21 de fevereiro de 2020 às 20h17

A semente da discórdia – hegemonia cultural gramsciana – foi lançada na sociedade brasileira pela esquerda, especialmente pelo PT. Difícil recuperarmos o velho Brasil, agora…

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    putin

    22 de fevereiro de 2020 às 10h59

    todo mundo procura hegemonia cultural. alias acho o brasil muito mergulhado na cultura de direita, hoje como 30 anos atras (por exemplo no gosto sadico de aplaudir os massacres policiais ou no considerar o trabalho domestico coisa de seres inferiores).
    vejo que ainda vc nao se libertou totalmente da propaganda infame direitista, mas melhorou comparado com um ano atras.

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      Paulo

      22 de fevereiro de 2020 às 12h04

      Sim, procura hegemonia cultural mas não dividindo a sociedade e conspirando contra o futuro do país, fazendo emergir fantasmas que estavam no armário, como o racismo, tão odioso quanto as cotas, por exemplo. Eu não me pauto por propaganda. O advento do conservadorismo foi bom para frear as esquerdas que estavam condenando à morte o sonho de um Brasil grande, que eu considero ser o nosso destino (porém, embora conservador nos costumes, não sou liberal e nem neo-liberal, na economia, mas pragmático). Você sim, parece-me deixar-se conduzir pela ideologia. Você é o viés trocado do Sérgio Araújo (com seus inúmeros nicks), mas evoluiu, ao aceitar a verdade do “presidencialismo de coalizão”, durante os Governos petistas, entretanto ainda tem dificuldades para reconhecer em Lula e na cúpula do PT, por exemplo, a condição de bandidos que são…

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      Beto

      26 de fevereiro de 2020 às 11h44

      o progressismo é maior mal desse país e deve ser fortemente combatido, o povo é conservador e que se dê todo poder ao povo!

      Pessoas progressistas são inimigas do povo e por isso devem ser fortemente combatidas, tanto da direita quanto da esquerda!

      O povo é contra o aborto e ponto, não vamos por isso em pauta, o povo é contra as drogas, casamento gay e ponto…. não tem que existir debate!
      deveriamos levantar assuntos importantes como saneamento básico, programa citifico, nuclear, etc….. o restante é anti popular, logo pressuponho ser anti povo….

      #TodoPoderAoPovo

      #MorteAPosModernidade

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Psilocibes Cubensis

21 de fevereiro de 2020 às 19h58

Narrativa totalmente falsa , todos os petistas e psolistas que vi comentando aplaudiram a atitude de Cid.
Agora que tal o Miguel mostrar uma das suas matérias chamando a esquerda de ” policiofóbica”??
Quanto a charge , união incondicional e acrítica chama-se fascismo , a esquerda é crítica , nunca seremos uma turba sem cérebro perfeitamente unida.

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    Miramar

    22 de fevereiro de 2020 às 01h11

    Ninguém criticou a polícia. Criticamos milicianos fardados. Lembrando que junto ao Cid, em meio ao povo, estava o comandante da PM cearense, além do comandante da Guarda Civil de Sobral, que teve a mão atingida por um dos disparos.

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Alan C

21 de fevereiro de 2020 às 18h40

Vamos falar objetivamente:

1) Dilma só disse o que disse pq está, pelo menos por enquanto, fora da alta cúpula do PT. Isso a possibilitou o que não possibilita ao resto, dizer simplesmente a verdade. Quando ela estava dentro da tal cúpula, ficou do lado do Eduardo Cunha contra seu próprio ministro, por coincidência da vida, Cid Gomes, que por isso pediu demissão.

2) PT não quer que o povo sinta pena e se identifique com Cid, por isso fica mudo, é uma estratégia política, mas quer que todo o campo da esquerda fosse às ruas por Lula…

3) Os blogs (provavelmente) pagos pelo PT tb não disseram nada.

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    putin

    22 de fevereiro de 2020 às 10h52

    mentira, o 247 faz 2 dias que só fala nisso e ferozmente do lado do cid.

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