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O burro, a linguagem e a realidade

Por Pedro Breier

13 de maio de 2020 : 21h13

“Jornal é que nem burro”, costuma dizer meu sagaz avô, “o que bota em cima ele carrega”. Lembrei da frase ao contemplar a seguinte declaração do vice-presidente da República, Hamilton Mourão:

Quem alinha discurso é bandido. Homens de honra, como Augusto Heleno, Braga Netto e Ramos, falam a verdade e cumprem a missão.

Mourão está se referindo aos depoimentos contraditórios dos generais/ministros no processo que apura as acusações de Sergio Moro a Jair Bolsonaro.

Não é incrível? Depoimentos incongruentes sobre o mesmo fato agora são, segundo o vice-presidente, sinal de honestidade! “Quem alinha discurso é bandido” e, consequentemente, quem relata os mesmos fatos de maneira contraditória é íntegro, correto, fala a verdade…

O jornal está em extinção, o que não retira a validade do chiste do meu avô – basta uma pequena atualização tecnológica. O Twitter (rede social onde Mourão postou a declaração), o Facebook, os portais de notícias, os blogs, todas as plataformas são como burros; o que colocar em cima, carregam. (Menos mal que ainda há burros com critérios éticos, jornalísticos e lógicos mínimos.)

Ainda que chocante, esta distorção sistemática da língua portuguesa é cada vez mais comum na vida pública brasileira.

O próprio Moro, por exemplo, é aclamado por um setor importante da sociedade como baluarte da moral e da lei. O slogan que adotou no Ministério da Justiça (e agora para si próprio) é um primário “Faça a coisa certa sempre”. Fora do mundo paralelo dos burros moristas – que, como já sabemos, carregam qualquer coisa que lhes coloquem em cima – é fácil constatar que, apesar das abundantes palavras laudatórias, Moro é um rematado delinquente. O número de vezes em que atropelou a lei com evidentes fins políticos e pessoais é prodigioso. Chamá-lo de criminoso, contudo, pode não pegar bem em determinados círculos; “herói” ou “exemplo” são termos mais utilizados para designar o ex-juiz e ex-ministro, em uma espetacular inversão linguística das coisas.

Jair Bolsonaro, então, é hours concours no quesito distorção da língua pátria. Nos seus apopléticos discursos ele é o presidente mais democrático, honesto e respeitador da Constituição de nossa história. De sua boca ouvimos que a pandemia iria matar “umas 800 pessoas”, que era uma “gripezinha” e, mais recentemente, que ela “já está indo embora”.

Sua prática é exatamente oposta ao que diz: Bolsonaro é autoritário, está envolvido em maracutaias muito mal explicadas, não respeita sequer as orientações do seu próprio ministério da saúde, quanto mais as ordens da Constituição. Quanto à pandemia, o Brasil caminha para ser o epicentro mundial, beirando as mil mortes oficiais diárias – o número real é, certamente, muito maior.

Entretanto, como não se tem notícia de burro questionando a carga que deve carregar, o presidente segue, impávido, mentindo como se não houvesse amanhã. Um de seus cretinos slogans é, desde as eleições de 2018, o “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Um escárnio de proporções continentais e um sacrilégio idem.

Em um artigo de 2018, Marcio Sotelo Felippe fez uma interessante consideração sobre os golpes de Estado de novo tipo:

A vigência e o texto da Constituição não se alteram, mas sua matéria é esvaziada por meio de interpretações anômalas, bizarras, e assim instaura-se um estado de anomia constitucional em que tudo é permitido porque desconsidera-se até mesmo o quadro lógico mínimo estabelecido pela linguagem normativa.

Se é possível desconsiderar o “quadro lógico mínimo estabelecido pela linguagem normativa” sem consequências, tudo é permitido. É o que estamos presenciando: cada agente político cria sua própria versão da realidade, como se tudo fosse uma questão de opinião, e a importância dos fatos vai minguando, minguando, até desaparecer.

Quem quer saber dos fatos? As versões de pessoas ilibadas como Bolsonaro, Mourão ou Moro sobre as coisas bastam. Se entrarem em conflito, cada cidadão pode escolher a sua versão e bola pra frente. Segue o jogo.

Esse bizarro estado de coisas, todavia, não parece ser sustentável.

Mesmo quando a linguagem é usada com precisão e beleza, ela não pode ser confundida com a realidade, pois trata-se apenas de um indicador, uma placa que aponta para algo real. Quando é usada para confundir e maquiar o que é real, então, a linguagem se torna frágil como a masculinidade do bolsonarista médio.

A realidade é uma força de grandeza distinta. Seu inexorável destino é passar por cima dos que se arvoram a impor aos demais suas visões de mundo convenientemente distorcidas. A realidade cedo ou tarde se impõe.

O genocídio, os mortos sem necessidade, a barbárie, o autoritarismo e a bandidagem não permanecerão escondidos sob mentiras grotescas e “raciocínios” pueris para sempre.

Pedro Breier

Pedro Breier é graduado em direito pela UFRGS e colunista do blog O Cafezinho.

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6 comentários

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Paulo

14 de maio de 2020 às 22h35

Pedro, até poderia concordar contigo. Mas falta um elemento nessa discussão: o PT da era Lula. Não dá pra não contrapor a essa narrativa a “outra” narrativa. A de que Lula seria vítima de “lawfare”, argumento tão comum no denominado “campo progressista”. Pra mim – embora ressalve Sérgio Moro, por ora, cuja história, possivelmente, ainda está por ser escrita -, falta-nos a presença de homens públicos, de estadistas, da direita à esquerda. O depoimento dos generais de pijama, esta semana, tiveram um efeito devastador na credibilidade e no sentido de honra que eu atribuía aos militares. Mais um mito que se esvai no lamaçal da vida política brasileira. Combinaram uma versão e se submeteram ao jugo político de um insano…

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vanda guerra maffra

14 de maio de 2020 às 14h41

Concordo com vc em genero e numero, mas acho que o comentario sobre a fragilidade sexual do bolsonario medio tira a força do seu texto pq parece que suas ponderações precisam de reforço.
E a liberdade sexual ou performance de cada um,ou de um grupo nao interessa nesta luta.. .

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gandhi

14 de maio de 2020 às 14h14

O unico interesse de Moro sempre foi o STF, nada mais.

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julio perin

14 de maio de 2020 às 11h59

O genocídio, os mortos sem necessidade, a barbárie, o autoritarismo e a bandidagem não permanecerão escondidos sob mentiras grotescas e “raciocínios” pueris para sempre. Mesmo que venha a tona da luz será que os culpados pagarão ? Olhando para o passado creio que não, mas a luta continua !

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Alexandre Neres

14 de maio de 2020 às 00h06

Concordo em gênero, número e grau com a crítica que Ciro Gomes fez a Moro em relação a Bolsonaro. Primeiro, vale frisar que o lavajatismo propiciou as condições para que surgisse o bolsonarismo.

Moro jogou a eleição no colo de Bolsonaro. Qualquer pessoa com um mínimo de senso político sabe quem Bolsonaro é, já que nunca fez a menor questão de esconder quem é. Se Moro quiser alegar que não sabia, que se assuma um analfabeto político.

Se estou em um governo com a qual não concordo, peço pra sair ou então, se for cometido algum crime, denuncio a quem de direito. O que não dá é o cara ficar lá o tempo inteiro, chafurdar na lama e agora querer tirar onda de herói. O marreco disse que o presidente não tava envolvido no escândalo dos laranjas do PSL, ligou para diversas autoridades para dizer que foram hackeadas, considerando que em nenhum desses casos poderia ter tido acesso aos processos por questões de sigilo. Em outro caso, Bolsonaro disse para a imprensa que Moro tinha enviado pra ele um dossiê, mas não tinha lido. Isso pra não mencionar a defesa que fez daqueles bandidos fardados do Ceará. Trocando em miúdos, Moro queria só a interferência política dele próprio na PF.

Chega no depoimento, matreiramente, diz que não cabe a ele dizer se Bolsonaro cometeu ou não crime, que não tem nada de prova relativamente à treta que vinha desde agosto/2019, tudo isso com o escopo de não se incriminar. Todavia, o que foi mais bizarro foi o marreco dizer quais gravações eram relevantes e quais não eram, tal qual um juiz, sem ser questionado por seus pares. Imaginem se um réu da Lava Jato tivesse dito que apagou as mensagens telefônicas por questões de segurança ou que poderiam expor questões do governo? Em Curitiba seria obstrução de justiça na veia, xilindró na certa.

E agora ainda quer posar de herói, dizer que não aceitou ingerência na IF, com o apoio maciço da mídia amiga, que jamais questionou nem o pedido de pensão indevido sem amparo legal. Se portou como um traíra, cuspindo no prato que comeu, e teve uma atitude canalha com sua comadre, expondo uma conversa particular quando escreveu aquela frase de efeito de que não estava à venda apenas para a posteridade e colocou a deputadazinha de escada para sobressair. Em suma, não passa de um alcaguete sem um pingo de ética. Um moralista sem moral.

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Dinarte Araujo Neto

13 de maio de 2020 às 21h32

Maravilhoso texto que dá um bálsamo na angústia da gente. Em meio a tanta insanidade racionalizada o autor Pedro Breier nos ilumina o hospício da linguagem manipulada pra adaptar os meios aos fins no vale-tudo do Poder político delegado pelo voto popular. A resultante da realidade é bastante pastosa e lisa, e as esquerdas mesmo com tanta pose de erudição e leituras em obras e livros toma um banho de varadas que a deixa atônica com o que lhe aconteceu na práxis do poder, como Haddad até hoje está atônito diante da força da mentira que convenceu muito do eleitorado, que recebeu apoio governamental como nunca na república, a cerca ´verdade´da mamadeira de piroca, um eleitorado que é tutelado por forças obscuras irracionais e linguagem distorcida como o grupo de poder vigente.

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