Live do Cafezinho (18 h): Pós-verdade na política brasileira (uma conversa com Fabio Palacio)

Migração partidária mostra que oposicão resistiu ao tsunami bolsonarista

Por Miguel do Rosário

09 de julho de 2020 : 10h55

Reportagem da Folha publicada hoje com números e gráfico de migração partidária dos prefeitos eleitos em 2016 nos permite antecipar duas observações rápidas, antes de passarmos a uma análise mais detalhada:

1) A oposição de esquerda ao governo Bolsonaro emergiu ferida, menor, mas sobreviveu ao tsunami bolsonarista iniciado nas eleições de 2018. O partido que mais perdeu, o PSB, não o foi por uma questão propriamente ideologica, mas por um movimento regional, do governador da Paraíba, João Azevedo, que migrou para o Cidadania. Entretanto, a queda não foi brutal. No total, os partidos de oposição à esquerda do governo mantiveram 1.155 prefeituras, com perda de apenas 112 administrações para legendas mais alinhadas ao governo federal. E mesmo estes que fizeram isso, não se pode afirmar que todos se alinharam, efetivamente, a Bolsonaro.

2) O sangramento era inevitável, e uma consequência lógica do resultado eleitoral de 2018. A lógica municipalista ainda prevalecente em pequenas cidades é governista, em virtude da forte dependência financeira que estas administrações tem de transferências estaduais e federais. Se muda o governo federal, há necessariamente migração de prefeitos na direção dos partidos alinhados ao governo.

Com base nos números levantados pela Folha, fizemos nossos próprios gráficos.

Entre os partidos de oposição, houve uma certa acomodação interna, como já foi dito, com migração de PSB para Cidadania. Também houve alguma migração para o Avante, que cresceu de maneira extraordinária, de 2 para 65 prefeitos.

No total, os partidos de oposição saíram de 26% do total de prefeituras no país em 2016 para 23% hoje.

Fizemos ainda uma divisão dos prefeitos por cinco grandes blocos ideológicos.

É claro que esses blocos ideológicos são apenas um exercício de imaginação, pois se dentro dos partidos de esquerda não se pode observar grande coerência ideológica, que dirá de blocos.

Mas como a falta de coerência ocorre tanto à direita como à esquerda, então uma coisa neutraliza a outra.

De um lado, temos um bloco “bolsonarista”, formado por legendas como PSL, PTB, Republicanos, etc, que ganhou 280 prefeituras e cresceu 27%. Foi o bloco que cresceu mais e isso se compreende como um movimento inevitável. Hoje esse bloco tem 1.301 prefeitos.

De outro, temos um bloco de centro-direita, liderado por partidos mais tradicionais, como DEM, MDB e PSDB, que ainda tem o maior número de prefeituras no país: quase 3 mil administrações, respondendo por 53% de todas as prefeituras brasileiras.

Por fim temos três blocos progressistas:

  1. o trabalhista, composto por PDT, PSB e Rede, que se aproximaram muito nos últimos meses e fecharam acordos eleitorais em vários estados. Esse bloco administra 612 cidades, o que corresponde a 11% das prefeituras do país.
  2. o bloco petista, que tem atuado no parlamento, nas redes e nos movimentos sociais de maneira bastante próxima, formado por PT, Psol e PCdoB. São 300 prefeituras, ou 5,4% do país.
  3. E o bloco progressista independente, formado por legendas como PV, Cidadania, Avante, Pros e Solidariedade. Embora esse bloco tenha se aproximado bastante do bloco trabalhista, inclusive com alguns de seus integrantes participando de eventos nacionais, como o Janelas pela Democracia, ainda é prudente deixá-lo como um grupo à parte. Esse bloco administra 367 municípios, o que corresponde a 6,6% do total das cidades brasileiras.

Conclusão

O fenômeno de migração partidária faz parte da tradição política nacional, e se segue uma lógica vertical, de cima para baixo. Conforme os ventos sopram nas esferas federais e estaduais, eles interferem na vida municipal.

Entretanto, as mudanças foram menos intensas do que poderiam ser, mostrando que a tsunami bolsonarista pode ter perdido força, conforme inclusive mostram as pesquisas de aprovação do governo.

Para as eleições municipais deste ano, estarão em disputa cinco tendências:

  • O crescimento do bolsonarismo, impulsionado por mais verbas partidárias, mais recursos políticos, mais visibilidade por parte de Bolsonaro e aliados.
  • O crescimento de uma centro-direita mais independente em relação ao governo; esse grupo está relativamente “protegido” dos ataques da extrema-direita, por ser difícil, até mesmo ridículo, identificá-lo como “esquerda”.
  • O crescimento do bloco petista, que forma uma oposição mais coesa e mais dura ao governo Bolsonaro, e pode ser beneficiado eleitoralmente por isso, sobretudo em cidades onde a polarização politica for grande, e este bloco estiver bem posicionado politicamente. Este bloco conta com o apoio de um cabo eleitoral importante, que é o ex-presidente Lula, cujo poder de transferência de votos será testado mais uma vez.
  • O crescimento do bloco trabalhista, que também faz uma oposição dura ao governo Bolsonaro, embora talvez menos coesa a nível municipal, e que pode ser beneficiado por dois fatores: consegue escapar da polarização entre bolsonarismo X petismo, e tem uma liderança muito ativa, Ciro Gomes.
  • O crescimento do bloco progressista independente, que tem a vantagem de fugir das duas polarizações: daquela entre bolsonaristas X petistas, e daquela entre petistas X trabalhistas. Com isso, o bloco se posiciona de maneira mais suave no cenário, embora isso nem sempre seja uma vantagem, pois também pode ser motivo de isolamento.

Além dessas tendências, também observaremos no cenário duas grandes disputas políticas nessas eleições, uma à direita, outra à esquerda.

De um lado, teremos o bolsonarismo disputando a hegemonia da direita. Isso não é tarefa fácil, sobretudo considerando a poderosa capilaridade regional das legendas tradicionais, como DEM, PSDB e MDB.

De outro, a esquerda viverá uma espécie de prévias das eleições presidenciais de 2022, com Lula e Ciro disputando uma queda de braço e usando o pleito municipal como suporte político da estratégia nacional.

Apenas o eleitor dará a palavra final, que provavelmente será muito diferente da previsão de qualquer analista.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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2 comentários

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O Demolidor

10 de julho de 2020 às 14h43

Vi ali uma forçação de barra chamada de “Bloco Progressista Independente“……No qual incluíram Roberto Freire, Alvaro Dias,Sarney Filho, Paulinho da Farsa, Fernando Collor….engraçado não incluírem o PSDB…

Enfim…..fora o supra citado “Bloco Progressista Independente (da esquerda)…..que tem o mérito de ser a unica “esquerda“ que ganhou parlamentares ( talvez pelo discurso bolsnarista/coxinha).

Pelo visto apesar das traições o PT se saiu melhor que todos os demais partidos….e estou incluindo ai os “ Trabalhistas“ (que votaram pelas disformas trabalhistas e previdenciárias do governo Bolsonaro e do governo golpista do Temer).

Não ligo se o blog me censurar…..de novo.

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Aureliano

09 de julho de 2020 às 13h08

Fora de Pauta

O sujeito finge que não, mas está desesperado
BOLSONARO FAZ DOIS EXAMES POR DIA PARA MONITORAR EFEITOS COLATERAIS DA CLOROQUINA

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/bolsonaro-faz-exames-cardiacos-duas-vezes-por-dia-para-monitorar-efeitos-colaterais-da-cloroquina/

Figurinha ridícula! Será que ele está ganhando dinheiro para fazer propaganda da cloroquina? Se está, deveria sair algemado do Palácio do Planalto para a cadeia. Se não está, também.

Bolsonaro me lembra aqueles vendedores de “remédio” que apareciam geralmente aos sábados, dia da feira, na cidadezinha onde eu morava. Eles vendiam uma única droga que servia para prisão de ventre, espinhela caída, sinusite, dor de dente,dor de “estômbago”, blenorragia, cancro mole, hemorroidas e inflamação na garganta. AS ÚNICAS DUAS relações diretas que eu vejo entre todas essas doenças é entre blenorragia e inflamação na garganta, E ENTRE PRISÃO DE VENTRE E HEMORROIDAS. Mas mesmo assim os caras vendiam esse remédio de montão.

E ainda diziam para o bando de trouxas que os cercavam e estavam em dúvida: “se vocês não se lembram do nome da doença, podem levar que a droga também serve”.
 

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