Live do Cafezinho: bate papo com o cineasta cearense Wolney Oliveira

França conquista paulistanos de baixa renda, evangélicos e eleitores de Bolsonaro

Por Miguel do Rosário

12 de setembro de 2020 : 23h20

A pesquisa Atlas Político sobre as eleições em São Paulo, divulgada há poucos dias, foi realizada pela internet entre os dias 26 de agosto e 1 de setembro. Ela já chega, portanto, um pouco desatualizada. Ela traz a presença de Marta Suplicy, por exemplo, e a mesma já declarou apoio a Covas. 

Segundo o relatório completo ao qual tivemos acesso, ela entrevistou 1.514 pessoas, através de “questionário estruturado pela web”. 

Esse formato tende a valorizar, naturalmente, os eleitores mais ricos e mais engajados em redes sociais. Pode parecer inacreditável para alguns, mas ainda há pessoas, sobretudo mais idosas, ou mais pobres, que usam pouco ou quase nada a internet. 

Esses problemas sempre podem ser minimizados, todavia, na edição final da pesquisa, através de técnicas de ponderação. 

Vamos saltar para as conclusões. Diante da margem de erro de 3%, pode-se dizer que a pesquisa sinalizou que há quatro candidatos no jogo: Covas, Boulos, Russomano e França. Os quatro estão empatados tecnicamente. 

Covas apresenta uma certa liderança numérica, mas os outros estão empatados dentro da margem de erro, com 11% e 12%.

O mais interessante, numa pesquisa, são seus dados estratificados, que são o mais próximo do que os estrategistas eleitorais chamam de “qualitativas”, processos imensamente custosos, nos quais empresas especializadas fazem longas entrevistas com pessoas oriundas de várias camadas sociais, para entender o que pensam. 

Apenas o que se pede a todos é que não levem essas pesquisas a ferro e fogo, nem procurem conspirações em cada entrelinha. As últimas eleições, aqui no Brasil e em outros países já deixaram claro que pesquisas não ganham eleições.

Compilamos os dados estratificados e os jogamos numa tabela mais simples, apenas com os quatro principais candidatos. Os outros candidatos tem menos de 2% e, aparentemente, estão fora do jogo, ao menos por enquanto.

 

Entre homens, a vantagem de Bruno Covas é significativa; ele pontua 24%, mas fica em último lugar entre as mulheres, com apenas 7%. 

Entre mulheres, a liderança fica com Marcio França, que pontua 15%, contra 10% de Guilherme Boulos e 14% de Russomano. 

As mulheres formam 54% do eleitorado paulistano. 

Na estratificação por renda, temos uma situação curiosa.

O candidato mais à esquerda, Guilherme Boulos, lidera entre os mais ricos, com salários acima de 10 salários, com 18%.  Suponho que a explicação para isso deva ser o voto de professores universitários. 

Já entre os mais pobres, com renda abaixo de 2 salários, a liderança (embora puramente numérica, porque ao cabo estão todos tecnicamente empatados, com apenas 1 ou 2 pontos a menos) é de Marcio França, com 15%.

A divisão por religião tornou-se importante para as análises eleitorais, sobretudo após a eleição de Bolsonaro, onde ficou patente a importância do voto religioso, em especial do eleitorado evangélico. 

Entre os evangélicos, Boulos tem uma performance ruim, obtendo apenas 3% das intenções de voto, ao passo que Marcio França consegue ter um bom desempenho nesse segmento, com 14%, atrás apenas de Russomano, com 27%. Covas tem apenas 6% de votos entre evangélicos.

Já entre agnósticos e ateus, Boulos tem a liderança isolada, com 37% das intenções de voto. 

O voto por escolaridade ajuda a reforçar nossa tese de que esse eleitor mais rico, com renda familiar acima de 10 salários, que vota em Boulos, é formado principalmente de professores ou pesquisadores universitários, na ativa ou aposentados. 

Entre eleitores com ensino superior, Boulos é líder, com 20% das intenções de voto, seguido de Covas, com 16% e França, com 12%.

Segundo o Atlas Político, cerca de 26% dos eleitores de São Paulo tem ensino superior. 

Já entre os eleitores que admitiram não ter ido além do ensino fundamental, Boulos cai para 3%, enquanto Covas tem 18% desse eleitorado, e França 13%.

A pesquisa do Atlas cruzou as intenções de voto para a prefeitura de São Paulo com a declaração de voto no segundo turno das últimas eleições presidenciais. 

Entre eleitores que votaram em Bolsonaro, Boulos marcou exatamente… zero. 

O eleitor de Boulos é formado inteiramente por quem votou em Haddad. O psolista não consegue morder um pontinho do voto bolsonarista. 

O eleitor de Bolsonaro se divide entre Covas, Russomano e França. 

Na opinião deste analista, os números sugerem que o candidato progressista com mais potencial para quebrar a espinha dorsal do movimento conservador, na maior cidade brasileira, obtendo votos de moradores da periferia, evangélicos, eleitores de Bolsonaro, é Marcio França, cuja candidatura foi oficializada neste final de semana.  França é do PSB e terá como vice Antonio Neto, do PDT. 

É preciso lembrar que Bolsonaro ganhou as eleições em São Paulo, tanto no primeiro como no segundo turno. Candidatos sem potencial para virar um mísero voto do eleitor bolsonarista, e que não conseguirem praticamente nenhuma entrada no segmento evangélico, terão imensa dificuldade para vencer o segundo turno da eleição paulistana. 

No primeiro turno, Bolsonaro teve 44% dos votos válidos na cidade de São Paulo; no segundo, 60%. 

Hoje, depois de um ano e 8 meses de governo, a administração Bolsonaro é rejeitada por 57% dos eleitores paulistanos; 40% ainda o aprovam, todavia. 

A rejeição a Bolsonaro é maior entre mais escolarizados e com maior renda: entre eleitores com ensino superior, 70% rejeitam Bolsonaro. Entre eleitores com renda familiar acima de 5 salários, 66% reprovam seu governo. 

Entre eleitores mais pobres, com renda até 2 salários, a rejeição de Bolsonaro é de 57%, contra 41% de aprovação. 

O desempenho de Bolsonaro, entre os eleitores paulistanos, é melhor entre aqueles com renda entre 2 e 3 salários, entre os quais ele é aprovado por 48% mas reprovado também por 48%. 

A pesquisa mostrou, além disso, que 48% dos eleitores paulistanos são a favor do impeachment do presidente Jair Bolsonaro; 46% responderam que são contra. 

A avaliação do governo Bruno Covas, segundo a mesma pesquisa, não é boa: apenas 17% responderam que o consideram bom ou ótimo, contra 45% que preferiam qualificá-lo de ruim ou péssimo.  Esses números mostram uma liderança política com grandes dificuldades de se reeleger. 

A pesquisa do Atlas Político também mensura a imagem das principais lideranças políticas nacionais entre os eleitores paulistanos. Aqueles com maior aprovação são: Paulo Guedes (42%) e Bolsonaro (40%); entre os que tem maior rejeição estão Doria (76%), Lula (74%) e Rodrigo Maia (74%). 

Entre os nomes da esquerda, temos Haddad, com 27% de aprovação e 65% e rejeição; Lula, com 22% de aprovação, além da rejeição mencionada no parágrafo acima; e Ciro, com 21% de aprovação e 64% de rejeição. 

A pesquisa apura ainda a imagem dos principais candidatos. Entre aqueles com rejeição acima de 60%, temos Martha Suplicy, Jilmar Tatto e Joice Hasselman. As melhores pontuações positivas ficaram com Covas (35%), França (29%), Russomano (28%) e Boulos (24%). 

Download do relatório completo do Atlas Político.

 

 

 

   

 

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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13 comentários

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Paulo Cesar Cabelo

13 de setembro de 2020 às 23h53

O fato de Miguel dizer que França ganha votos de eleitores de um genocída como se fosse algo bom mostra o quão deturpada está a mente de Miguel do Rosário.
Se Boulos for para o segundo turno França , Miguel e Ciro apoiarão Covas ou até Russomano.
Eu fui o primeiro a constatar que o Cafezinho servia a extrema-direita.

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Miramar (eleitor do Márcio França desde 2018. E do Ciro desde 1998)

13 de setembro de 2020 às 12h18

Mas isso é óbvio. O PSOL paulistano é formado majoritariamente por riquinhos e descolados forma dos em escolas de pedagogia ultramoderna. Gente que acha que o aumento dos evangélicos nas periferias é um grande problema por fazer com que as pessoas não necessariamente votem no candidato dos iluminados.
Em tempo: nada contra o Boulos enquanto pessoa. Infelizmente ele optou por andar com a turminha do PT, o que o inviabiliza como opção eleitoral para milhões de pessoas como eu. Mais ou menos como acontece com o Flávio Dino.

Agora, que é hilário ver o PT paulistano virar mera força auxiliar do PSOL (coisa que já acontece com o PT carioca), isso é.

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    Roberto Agnaldo Tropical

    14 de setembro de 2020 às 02h36

    Além do gado do Bozo, temos também o gado da rede Globo. Já que a vênus platinada e seus marrecos amestrados transformaram o PT numa organização criminosa para roubar os cofres públicos, seus fantoches não votam na nova Geni, nem com quem se atreve com ela andar.

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      Miramar

      15 de setembro de 2020 às 00h24

      A família Tropical não aprecia meus comentários.

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Batista

13 de setembro de 2020 às 11h11

“Entre eleitores com ensino superior, Boulos é líder, com 20% das intenções de voto, seguido de Covas, com 16% e França, com 12%.

O candidato mais à esquerda, Guilherme Boulos, lidera entre os mais ricos, com salários acima de 10 salários, com 18%.

Suponho que a explicação para isso deva ser o voto de professores universitários.

O voto por escolaridade ajuda a reforçar nossa tese de que esse eleitor mais rico, com renda familiar acima de 10 salários, que vota em Boulos, é formado principalmente de professores ou pesquisadores universitários, na ativa ou aposentados.”

Quem diria, professores universitários representam os mais ricos na cidade de São Paulo!

O que misturar informação e interesse político não sacia ao juntar fome com vontade de comer…

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    Tadeu

    13 de setembro de 2020 às 12h36

    Não diria OS mais ricos, mas professores universitários sem a menor sombra de dúvida fazem parte da burguesia e da elite econômica brasileira, e é uma grande hipocrisia histórica da política brasileira essa conversa de campo “popular”, “classe trabalhadora” cujos interesses essa burguesia intelectual supostamente defenderia. Só o que acontece é que ela disputa com o restante da burguesia para ver quem vai ter acesso à maior parte do orçamento público – ou seja, quem vai ficar com a maior parte do dinheiro que o estado extorque do contribuinte de classe média ou baixa. O bolsonarismo cresce em cima principalmente dessa hipocrisia da burguesia intelectual, principalmente quando ela adere ao plano globalista de combater a cultura e os valores nacionais com apologia a degenerações, o que a divorcia irremediavelmente do povo.

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      Batista

      14 de setembro de 2020 às 12h39

      ImpreCionante explicação, que junta e mistura dose extra de bestialógico ao shake em questão:

      “Não diria OS mais ricos, mas professores universitários sem a menor sombra de dúvida fazem parte da burguesia e da elite econômica brasileira…
      (…) Ela disputa com o restante da burguesia para ver quem vai ter acesso à maior parte do orçamento público…”

      Patrimonialismo, certeza, jamais passou perto, quanto mais fez parte, de sua set list política.

      E o ‘melhor’:

      “(…) O bolsonarismo cresce em cima principalmente dessa hipocrisia da burguesia intelectual, principalmente quando ela adere ao plano globalista de combater a cultura e os valores nacionais com apologia a degenerações, o que a divorcia irremediavelmente do povo.”

      Aí já é demais!
      Até mesmo nesse pleno e ‘supremo’ Brasil inzoneiro que, ‘merencório à luz da Lua’, adapta-se à moda da mediocridade desamparada do filtro da modéstia, no poder, e ao contumaz babar em bandeiras, americana e israelense.

      Passando a régua, é pior que xingar a mãe, é o aderir o fraco ao não pensar do ódio, à expiação.

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    Gustavo

    14 de setembro de 2020 às 10h20

    Um professor universitário federal ou estadual em início de carreira já está na faixa que recebe entre 5 e 10 salários mínimos.

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Sebastião

13 de setembro de 2020 às 10h55

Miguel, por que vocês estão focando mais no PDT e nos aliados, no blog? Entendo que tem um parceiro do Ceará no blog e talvez isso pese favoravelmente. Mas, o foco está tão grande, que outros estados do Brasil e capitais, nem sequer são citados.

França é um bom nome, e espero que ele seja eleito. Ao PT, se Tatto não for pro segundo turno, restará apoiar França. Como a capital – diferente do estado(como no interior, que são mais conservadores), sempre optou pela esquerda, por certo alguém da esquerda tende a ser eleito.

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    Gabriel Barbosa

    13 de setembro de 2020 às 11h49

    Sebastião, a maioria das convenções aqui no Ceará aconteceram neste final de semana. Então, é natural que esteja noticiando com essa frequência. Alguns partidos como PT, PSOL e PC do B agendaram suas convenções no decorrer da semana. Mas fique tranquilo que também vamos publicar sobre candidaturas de outras capitais. :)

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    Bozo O Korno

    13 de setembro de 2020 às 16h09

    Vc tb pergunta lá no PT247 “por que vocês estão focando mais no PT?”

    Não né?

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      Clarice

      16 de setembro de 2020 às 08h40

      Lá qualquer um que ouse fazer qualquer crítica, por mais branda e inocente que seja, ao PT, ao lulismo e não aja como um fanático doente pelo Lula é instantaneamente BANIDO do site. Lixo puro. O Cafezinho é bem democrático e já passou da hora dessa petezada maluca e fanática entender que existe esquerda crítica ao PT e que esta está cada vez mais forte, tentando andar com as próprias pernas e romper a hegemonia. Não gostou e acha que o PT está acima do bem e do mal? Paciência, o Brasil 247 tá aí pra vcs chamarem o Ciro de nazista e o Lula de deus supremo

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Paulo

12 de setembro de 2020 às 23h50

Tudo indica que Bruno Covas e Márcio França deverão disputar o 2º Turno, em São Paulo. A favor de Covas, o tradicionalismo e conservadorismo paulistanos. A favor de França, uma vaga esperança de mudança. Veremos o que prevalecerá!

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