Live do Cafezinho: o caso Samuel Borelli, quando a esquerda produz fake news

É válido fazer alianças eleitorais com a direita?

Por Miguel do Rosário

17 de setembro de 2020 : 13h26

A notícia de que o PDT estaria costurando alianças com o DEM gerou um debate intenso, dentro do campo progressista, sobre o risco de se fazer alianças com legendas de direita.

Começo respondendo à pergunta do título: depende, naturalmente, das circunstâncias, de que direita estamos falando, do tipo de aliança.

Uma aliança política e eleitoral apenas ganha sentido em função do projeto nacional (ou da falta de) que lhe serve de fundo.

Se a aliança for para recuperar, reconstruir e modernizar o nosso parque industrial, melhorar expressivamente nossa educação, ampliar os investimentos em ciência e tecnologia, reduzir as desigualdades sociais, então me parece evidente que não apenas é válida, como desejável e necessária!

Alguns questionam o vice-presidente do PDT, Ciro Gomes, que vem defendendo publicamente a aliança entre seu partido e o DEM, por entrar em contradição: ora, não era o mesmo Ciro que tanto criticava as alianças do PT com a direita, sobretudo com o PMDB?

Essas objeções são válidas. Em diversos momentos, Ciro faz uma crítica superficial às alianças do PT com legendas conservadoras.

Mas afinal, o PT errou ao fazer alianças para vencer as eleições em 2002 e depois para governar?

Não. Esse não foi, definitivamente, o erro do PT.

As alianças forjadas por Lula com setores liberais e conservadores tornaram possíveis algumas políticas públicas que retiraram milhões de pessoas da condição de miséria, elevaram expressivamente o salário mínimo e geraram milhões de postos de trabalho.

O erro do PT não foi fazer a aliança com a centro-direita liberal, e sim ter se tornado, ele mesmo, por suas opções macro-econômicas, um partido subserviente ou mesmo simpático aos dogmas neoliberais. Ou seja, já não se tratava de se aliar aos liberais, e sim de se tornar um, e dos mais ortodoxos!

Ao fazê-lo, ao abraçar o neoliberalismo, o PT caiu nas graças do mercado financeiro, doméstico e internacional. Tornou-se o queridinho da imprensa mundial. Lula recebeu tapinha nas costas de Obama como “o cara”. Essa opção, todavia, minou as bases de qualquer mudança estrutural no país. O Brasil emerge da era petista, e isso antes mesmo do golpe de 2016, extremamente fragilizado: seu tecido econômico sofrera um processo brutal de primarização, e sua população encontrava-se mais despolitizada e desmobilizada do que nunca, com legendas e sindicatos progressistas semi-destruídos e apáticos. Não se criou think tanks de esquerda. O governo não tinha montado nenhum serviço eficaz de inteligência. Não houve qualquer iniciativa séria para estruturar e fomentar o surgimento de uma imprensa profissional independente. A Lava Jato apenas fez o estrago que fez porque encontrou terreno apropriado para isso.

Enquanto rádios comunitárias eram fechadas em massa pela Polícia Federal, e revistas e jornais progressistas recebiam quantidades absolutamente insignificantes de publicidade estatal, injetava-se dezenas de bilhões de reais nos grandes meios de comunicação. Já nos estertores do governo, tentou-se injetar às pressas alguma publicidade oficial em sites aliados, igualmente sem oferecer uma política pública mais universal e abrangente, o que contribuiu ainda mais para aumentar o grau de irritação e antipatia de amplos setores sociais contra a administração petista.

No campo da política judicial, viu-se o mesmo erro. Não houve propriamente uma “aliança”, e sim a decisão estratégica de usar o mais vulgar fisiologismo na indicação de nomes para tribunais superiores e Procuradoria Geral da República. E isso numa interpretação até generosa, pois alguns observadores, como o jurista Luiz Moreira, acham que as indicações do PT não foram fisiológicas, e sim inteiramente ideológicas, e que o partido apostou, loucamente, em valores punitivistas e no fortalecimento abusivo do judiciário e do ministério público.

No campo ético, deu-se um erro profundo e trágico.

É evidente que alianças eleitorais não podem jamais justificar a distribuição de áreas estratégicas do Estado a interesses partidários menores. A Petrobras jamais poderia ser entregue aos setores mais fisiológicos e corruptos do PMDB, do PP e do próprio PT, ao menos nunca nos termos obscuros (para dizer o mínimo) nos quais esses acordos foram realizados.

A Lava Jato foi uma operação espúria, politicamente contaminada por interesses antinacionais, imperialistas e mesquinhos. Disso já não restam dúvidas, e este blog foi um dos primeiros (senão o primeiro) a denunciar esses abusos. Mas não se pode perdoar tamanha negligência ética de um governo de esquerda na gestão de uma estatal de importância tão determinante para o desenvolvimento nacional.

Ao cabo de 13 anos de governos petistas, o que tínhamos? Um sistema financeiro mais concentrado e poderoso do que nunca; uma classe industrial mortalmente debilitada por uma política econômica ortodoxa; um desequilíbrio midiático terrível, com uma empresa (Globo) dominando os mercados de tv, cinema, livros, rádio, internet, de maneira sem paralelo em nenhum país democrático…

Esse tipo de aliança, que fortalece adversários ideológicos e debilita parceiros, não pode dar certo.

Aliás, é até difícil chamar isso de “aliança”.

Para que haja uma aliança equilibrada entre o campo popular e forças conservadoras, é preciso que o primeiro se mantenha intensamente mobilizado. Para isso, o governo popular precisa manter canais de comunicação direta com a população.

Hoje, diante da ameaças sombrias que pairam no horizonte, com o avanço de um populismo autoritário e irracional, a construção de alianças entre partidos populares e partidos liberais e conservadores é absolutamente necessária.

Mas o que se pede é uma aliança de verdade, e não a transmutação dos partidos populares em partidos liberais e conservadores. Não adianta a militância usar bonezinho do MST e camisa do Che Guevara, e aceitar que seu partido nomeie banqueiro neoliberal para o ministério da economia.

Os partidos populares podem ser aliar a legendas conservadoras, desde que estas alianças não sejam um obstáculo a consecução de um projeto nacional, desde que sejam republicanas, pautadas por acordos de ordem programática, e desde que o partido popular não deixe, jamais, de manter sua base mobilizada em prol das reformas necessárias à emancipação, segurança e bem estar da classe trabalhadora.

Parte importante do sucesso político da social democracia escandinava vem de uma parceria, de mais de 30 anos, entre social-democratas e liberais.

Apenas poderemos julgar as alianças entre diferentes partidos brasileiros, portanto, à luz das realizações sociais e econômicas que poderão advir delas.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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8 comentários

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Luiz

18 de setembro de 2020 às 03h32

Como pode ser belo o palavreado na política. Há uma substancial diferença entre “fazer aliança” e obter o apoio. O banqueiro da “aliança” é aquele mesmo que estará lidando com o dinheiro do povo, ou a capacidade de transmutação do “lavajatismo” nos deixou com a liberdade de criar personagens? Numa estrutura, o moralismo é exatamente aquilo que a faz criticável. As estruturas são apenas reduções funcionais que possibilitam mais ou menos a sociedade desejada. Já as teses antropológicas, especulativas que são, poderão nos levar à recorrente consonância do puritanismo liberal com o primitivismo sociológico do neoliberalismo. Forjados na idealidade do ideal liberal: o ilibado civilista nas graças da síntese matemática contábil. Para este modelo de pessoa, o consagrado tripé da Lógica clássica, em toda a sua completude, é servil até ao irracionalismo. Então, o pecado original em seu esplendor de paraíso perdido será o esfuminho a destacar a pessoa em meio às forças naturais.

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Sebastião

17 de setembro de 2020 às 21h57

Prefiro usar o argumento de Wagner em relação a Ciro. Ele disse que pelo fato do DEM, está alinhado politicamente a Bolsonaro, tanto com ministros como em votações, será contraditório Ciro se opor a Bolsonaro em 2022.

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Netho

17 de setembro de 2020 às 19h19

‘Tem de estancar a sangria! Com Supremo; com tudo!”. Romero Jucá, ex-senador e líder de todos os governos no Senado – desde FHC até o Cartel Temerário -, já acumula discípulos suficientes na PGR e o número de súditos na Magna Magistratura necessário para levar ao forno o mais recente sabor da PGR – Pizzaria Geral da República conhecido como “à moda Aras”. Quanto às alianças à direita e à estrema-direita, o engenheiro Leonel já percebera a natureza de Lula e o papel do PT na história: remover todos os partidos da ”velha esquerda” do fronte ideológico e torná-los coadjuvantes, além de servir de ”camisinha” para a direita assentar a sua agenda, gradualmente. O PT é a esquerda que a direita gosta, dizia Brizola. Lula e o PT são o “neoliberalismo de esquerda” agora a caminho de se tornar um anexo do puxadinho do que sobrou após o tsunami provocado pelo ‘mau militar’ que empurrou todo o espectro político para gravitar em torno do projeto de poder militar-miliciano de natureza autoritária comandado pelos pretorianos encastelados no Forte Apache. O PT e a oposição supostamente de esquerda encontra-se catatônica e dispersa, completamente desorientada no tabuleiro eleitoral feito baratas tontas. O cenário de 2022 aponta para a tragédia repetindo a farsa de 2018. Lula é o principal responsável pela farsa de 2018 e será protagonista da tragédia em 2022 com a reeleição do filhote da ditadura.

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Ronei Silveira

17 de setembro de 2020 às 18h27

Ué mas nao era golpista a direita…? Jà fizeram a paz…? Kkkkkkkkkkkkk

Pateticos !!

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Conde

17 de setembro de 2020 às 17h20

Não é nenhuma novidade mas resumindo…para o poder vale tudo, até dizer que são de esquerda… ?!?!

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Jerson7

17 de setembro de 2020 às 17h14

Nunca existiu direita ou esquerda no Brasil até a chegada de Bolsonaro. Somente bandos de pilantras camuflados de partidos políticos que se uniam ou fingiam de brigar com o único intentoo de ficar no poder para assaltar os cofres públicos o mais possível. Um silencioso acordo para que um não incomodasse os negócios do outro .

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    Arthur Fonzarelli

    17 de setembro de 2020 às 17h19

    Minha pele chega a arrepiar quando em 2020 ouço alguém falar em “projeto político” e quando esse alguém é um político mesmo uma gota de suor desce minhas costas.

    Projetos políticos em democracias não existem, o dia a dia dita os rumos da política e das decisões.

    Fiquem expertos quando algum político quer lançar um “projeto nacional”… fiquem muito expertos seus tontoloes !!

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Germano

17 de setembro de 2020 às 17h11

Esse texto quer dizer que o GOPI de 2014 não foi tão golpe assim ?!?! Kkkk

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