Paris Café: O PT tem um projeto de governo? Qual é?

Cid Benjamin: Algumas considerações a respeito da saída de Marcelo Freixo do PSOL

Por Redação

18 de junho de 2021 : 08h14

Por Cid Benjamin

1) Não é verdade que Freixo não tenha sido candidato a prefeito do Rio em 2020 porque o PSol não aceitou fazer alianças. Com a exceção do PDT, que se movia unicamente em torno aos interesses da candidatura de Ciro Gomes e, por isso, não retiraria mesmo o nome da Martha Rocha, o campo progressista estava disposto a apoiá-lo, mas Freixo preferiu não disputar a eleição. Quando se aprofundou o desgaste de Marcelo Crivella, Freixo mudou de ideia e comunicou ao partido que aceitaria a indicação. Só que, àquela altura, já havia uma candidatura aprovada em convenção, a campanha estava em curso e, naquelas circunstâncias, a própria candidata escolhida, Renata Souza, não aceitou retirar seu nome. Nem o Psol, nem Renata, podem ser criticados.

2) Não é verdade que na eleição para o governo do estado no ano que vem o Psol não aceitaria fazer alianças. O que, sim, é fato, é que dificilmente aceitaria compor com a direita não fascista (Paes ou Rodrigo Maia) já no primeiro turno. Mas não havia ressalvas a uma aliança com o campo progressista e, nem mesmo, a uma ampla aliança antifascista envolvendo a “direita civilizada” no segundo turno.

3) Ao sair agora do Psol para o PSB, Freixo se ilude. Provavelmente pensa que terá o apoio de Rodrigo Maia e Eduardo Paes no primeiro turno. Mas é quase certo que tanto Maia, como Paes, tenham candidato próprio, que deve apoiar Lula para presidente, mas estará contra Freixo na disputa para governador. Assim, o arco de alianças que Freixo terá no primeiro turno não será muito diferente do que teria se não tivesse trocado de partido.

4) É verdade que o PSol tem mecanismos internos que, às vezes, abrem brechas para procedimentos formais incômodos. Exemplo são as prévias para a escolha de candidatos majoritários nos casos em que há mais de um pretendente. Isso gera situações em que pré-candidatos com pouca expressão se inscrevem apenas para ganhar mais visibilidade política. Claro, essa situação incomoda os “candidatos naturais”. Talvez seja conveniente estabelecer condições mais rígidas para a inscrição nas prévias, de forma a coibir movimentos oportunistas que pouco têm a ver com a disputa eleitoral em si e atendem essencialmente a interesses individuais. De qualquer forma, é preciso lembrar que, nas vezes em que Freixo foi candidato a prefeito no Rio, ele não teve que se submeter a prévias. Vale lembrar, também, que, na última eleição municipal em São Paulo, Boulos, embora fosse o “candidato natural”, participou das prévias e as venceu. De qualquer forma, fica uma pergunta: é melhor a situação atual, embora com percalços, ou que o partido tenha um “dono”, sem democracia interna.

5) A trajetória política de Freixo é muito mais alinhada com a do PSol do que com a do PSB. Seria, inclusive, mais alinhada com a do PT do que com a do PSB. Este último muitas vezes é um partido aliado da esquerda, mas não sempre. Não nos esqueçamos que, com uma bancada de 32 deputados federais, o PSB deu 29 votos a favor do impeachment da Dilma Roussef em 2016. Fica a interrogação sobre como Freixo – uma figura de esquerda indubitavelmente – se sentiria na bancada do PSB se situações como esta se repetissem.

6) O Psol perde neste episódio. Freixo é uma de suas maiores expressões na sociedade brasileira e, no Rio, é a maior. E pode levar consigo, mesmo que não agora, figuras respeitadas no partido. Mas nem por isso é maior do que o Psol. Hoje o movimento de Freixo está sintonizado com o senso comum das camadas progressistas, que sentem a necessidade de unidade para enfrentar a onda de fascistização. Resta ver que explicação dará se no ano que vem não conseguir o apoio da “direita civilizada” – o que é a hipótese mais provável. Continuará afirmando que foi correto trocar o Psol pelo PSB?
7) Por fim, deve-se lembrar um ponto positivo nesse processo: a saída de Freixo se deu sem agressões de parte a parte. Isso é importante porque ele continua no campo do Psol e poderá perfeitamente ser o candidato do partido a governador no ano que vem. Além do que, os caminhos podem se encontrar mais adiante.

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5 comentários

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Rafael Hernandes

18 de junho de 2021 às 16h48

Cid, que analise ótima !!!! Até que enfim um texto que representa o que eu penso.

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EdsonLuiz.

18 de junho de 2021 às 16h23

Eu concordo em muita coisa com o articulista.

A identidade da luta anticrime no Rio de Janeiro está por hora exclusivamente com o PSOL, partido que mostra consciência e preocupação e que ataca o problema desde sua fundação, Marcelo Freixo incluído, claro, e como um dos nomes principais dessa luta e, nela, o nome mais divulgado.

O problema carioca é um nó civilizatório importante – e muito grave – e precisa ser tratado com urgência. Também precisa envolver todos os nomes , instituições e forças políticas que demonstram ter consciência sobre a urgência em atacar o problema. que já está escorrendo para outros Estados e penetrando até mesmo as instituições do governo federal, as Forças Armadas inclusive, para o quê basta lembrar as drogas traficadas por militares do nosso exército encontradas pela polícia espanhola em um avião da presidência brasileira.

O problema do Rio já ganhou dimensão nacional pela contaminação acelerada com que está tomando todo o país, e por isso precisa ser assumido e tratado também nos projetos de candidaturas à presidência da república em 2022.

Claro que lutas civilizatórias devem agregar todos os que fazem declaração de intenção nesse sentido, e quando outros se conscientizam e se envolvem, devem ser recepcionados e não excluídos e desqualificados. Cito isto porque exclusão é coisa que ocorre muito nos movimentos sociais: a exclusão de pessoas, entidades e setores, objetivando por parte de quem exclui ter o controle do movimento, dar a direção que quer e depois instrumentalizar as lutas, as demandas sociais e os resultados conquistados para objetivos políticos pessoais e particulares.

Do freixo eu nunca percebi esse vício de exclusivismo e hegemonismo que sempre denuncio, essa apropriação de lutas que devem ser de todos. Mas não entendi quando Freixo fez, para mim corretamente, um apelo de que uma candidatura ao governo com um projeto de emergência para tratar as mazelas criminosas do Rio deveria ser de amplo espectro na sociedade e depois sinalizou ele, Freixo, apoio exclusivo a um nome, no caso o nome de Lula, como o nome nacional para essa luta, estreitando o leque que ele mesmo declarou que devia ser aberto, bem aberto.

A saída de Freixo do PSOL, para mim, não era recomendável nem necessária para enfrentar essa luta, muito pelo contrário. A saída dele coloca em situaçào delicada e em saia justa exatamente quem estava com ele construindo esta luta desde o primeiro momento. E se a saída do PSOL e sua ida para o PSB era pelo motivo de no PSOL não conseguir agregar certas forças nessa luta, a sinalização de exclusividade de apoio a Lula declarado por Freixo é um impecilho a agregar apoios à candidatura estadual de combate aos desmandos e aos crimes no Rio maior que o deveras empecilho para isso significado pelo PSOL. Era internamente ao PSOL que Freixo devia trabalhar para a absorção de outras forças progressistas necessárias, diferenças à parte.

Para o maravilhoso candidato a governador Marcelo Freixo dar mostras de que entende a luta contra o crime e as milícias no Rio como uma luta comum e urgente de todos os progressistas , quer sejam ideologicamente de Centro, de Direita ou de Esquerda, deve corrigir o movimento equivocado que fez de estritar o leque e reposicionar-se de forma adequada nesse projeto comum de luta contra o crime carioca, hoje já um crime nacionalizado principalmente por jair bolsonaro.

Essa luta no Rio é muito importante, é muito urgente e é de interesse de todo o Brasil. E Freixo é mesmo o nome que acumulou preparo e experiência para essa luta. Espero que se reposicione abrindo o leque que estreitou.

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Netho

18 de junho de 2021 às 15h30

Então, tá!
Malandro é malandro, mané é mané.
Freixo vacila há algum tempo.
E quem vacila sempre toma bola nas costas.
Sobretudo quando troca de camisa para jogar no quintal que a direita reserva aos seus “puxadinhos” travestidos de esquerdistas.
Aliás, quem matou Marielle Franco?
Quem mandou matar Marielle Franco?
O PSOL parece que esqueceu e só a família e a viúva cuidam do assunto.
Um péssimo exemplo do PSOL e de Freixo deixarem o sangue derramado no meio do caminho.
Não se diga que o partido não tem filiados e dinheiro dos fundos eleitoral e partidário suficientes para sustentar campanhas midiáticas nacionais de forma permanente.
Até porque não faltariam meios de comunicação dispostos a acolher as inserções em horários jornalísticos.

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Tony

18 de junho de 2021 às 10h55

Os brasilerios sabem que esse tal de PSOL é um receptaculo de desadatados e tor o proprio nome associado a essa porcaria nao leva a lugar nenhum….assim o Dino com o Partido Comunista.

Tentam se camuflar de moderados para ver se enganam alguem.

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José

18 de junho de 2021 às 10h10

Vivemos tempos difíceis. Creio que Freixo tem plena consciência de todos os riscos que o Cid apontou. Ele fez a sua escolha, certo ou errado, só o tempo dirá. De fato, a direita não fascista não tem a menor vontade de apoiar Freixo num primeiro turno. Mas não tem um nome, embora esteja em busca de um.

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