Este artigo é a parte 4 da série Os quatro picaretas: Eduardo, Paulo, Jason e Guo. Os links para as partes anteriores estão no fim da página.
Os leitores desta série já conhecem o caminho do dinheiro. Uma empresa de fachada chamada HCHK pagou US$ 140 mil (R$ 756 mil) à empresa de Paulo Figueiredo, pelo trabalho de implantar a Gettr no Brasil.
Outro fundo de fachada despejou milhões na própria Gettr, a rede social trumpista comandada por Jason Miller. Desse caixa saíram patrocínios a eventos bolsonaristas às vésperas da eleição de 2022.
A empresa de Figueiredo foi condenada pela Justiça americana a devolver o que recebeu. A Gettr também, em US$ 35,6 milhões (R$ 192 milhões).
Falta apresentar o dono do dinheiro. O chinês que abastecia as fachadas acaba de receber sua conta da Justiça americana. Trinta anos de prisão.
Na manhã de 29 de junho de 2026, um chinês de terno entrou na sala 15D do tribunal federal de Manhattan. Intérpretes de mandarim aguardavam ao lado dos advogados.
A defesa tentou de tudo até o último minuto. Pediu adiamento, exigiu documentos secretos do FBI e chegou a questionar a sanidade mental do réu para ser sentenciado.
A juíza Analisa Torres avaliou e declarou o homem em plenas condições. Em seguida, condenou Miles Guo a 30 anos de prisão.
Guo tem muitos nomes. Nasceu Guo Wengui, virou Ho Wan Kwok nos documentos de Hong Kong, adotou Miles Guo nos Estados Unidos.
Entre os seguidores, atendia por apelidos de chefão. Irmão Sete, o Principal, o Boss.
Guo é a fonte de tudo. É dele o dinheiro que atravessou as fachadas e desceu até uma casa em Weston, na Flórida.
O júri já havia dado seu veredicto em julho de 2024, depois de oito semanas de julgamento. Culpado de conspiração de racketeering, a lei americana contra o crime organizado, de fraude eletrônica, de fraude de valores mobiliários e de lavagem de dinheiro.
A fraude funcionou de 2018 a março de 2023. Guo vendia aos seguidores ações da GTV, sua empresa de mídia, empréstimos conversíveis pelas chamadas Fazendas Himalaia, clubes de vantagens do G Clubs e uma criptomoeda própria, a Himalaya Exchange.
O discurso era sempre o mesmo. Investir nas empresas de Guo era financiar a derrubada do Partido Comunista Chinês.
As vítimas eram, em enorme parte, chineses da diáspora. Gente que odiava o regime de Pequim de verdade e entregou as economias da vida a quem prometia combatê-lo.
Os promotores calcularam mais de US$ 1 bilhão (R$ 5,4 bilhões) captados de milhares de pessoas. O dinheiro tinha outro destino.
A Justiça confiscou uma mansão de US$ 26,5 milhões (R$ 143 milhões) em Mahwah, Nova Jersey. A ordem de confisco lista até um espelho italiano de madeira dourada com detalhes rococó.
A garagem tinha Bugatti, Lamborghini e Rolls-Royce. Uma concessionária de carros de luxo do Texas chegou a entrar no processo reclamando a propriedade de veículos apreendidos.
Num dos episódios citados pela juíza, Guo mandou os subordinados usarem o G Clubs, ou outra empresa privada, para pagar uma mesa de centro caríssima. O dinheiro dos seguidores era o cofre pessoal do chefe.
Para entender quem é Guo, é preciso voltar à China. E aqui a precisão importa, porque a história dele por lá é cheia de armadilhas.
Guo nasceu pobre em Shandong, um entre oito filhos de uma família rural. Não terminou os estudos e começou a vida em Zhengzhou, capital da província de Henan.
Ele sempre contou que foi preso em 1989 por apoiar os estudantes da Praça da Paz Celestial. O jurista dissidente Teng Biao aponta outra história, registrada numa cópia de sentença de 1991, a de que a prisão foi por fraude na venda de gasolina.
O que existe de sólido é outra coisa. Na década de 1990, Guo ergueu em Zhengzhou o grupo imobiliário Yuda.
Em 2017, um tribunal chinês condenou a empresa e três de seus executivos por fraudar bancos em 1,5 bilhão de yuans (R$ 1,2 bilhão) em empréstimos, com contratos falsos e empresas de fachada. Uma das condenadas era sobrinha de Guo.
Os executivos confessaram e disseram ter agido sob orientação do patrão. Guo, já no exterior, não foi julgado, e chamou o processo de fabricação política.
O salto para Pequim veio com o terreno mais cobiçado da cidade, de frente para o parque olímpico. Guo disputava a área quando o vice-prefeito Liu Zhihua, responsável pelas obras da Olimpíada, caiu preso por corrupção em 2006.
A revista Caixin, a mais respeitada publicação de jornalismo investigativo da China, apurou que foi Guo quem entregou às autoridades uma gravação sexual comprometedora de Liu. Com o rival fora do caminho, Guo recuperou o terreno pelo preço antigo.
Ali ele construiu o Pangu Plaza, o prédio em forma de dragão ao lado do estádio Ninho de Pássaro. O cartão-postal do seu império.
O protetor de Guo nesses anos era Ma Jian, vice-ministro da Segurança do Estado, a principal agência de espionagem política da China. Em 2018, um tribunal condenou Ma à prisão perpétua por corrupção.
Processos correlatos descreveram dinheiro, imóveis em Hong Kong e outras vantagens que Guo teria dado a Ma, avaliadas em cerca de 60 milhões de yuans (R$ 46 milhões). Em troca, segundo essas decisões, o chefe da espionagem intervinha para salvar os negócios do amigo.
A joia da coroa foi a tomada da corretora estatal China Minzu Securities. O tribunal que julgou o caso concluiu que executivos a serviço de Guo pressionaram acionistas com métodos de intimidação, com ajuda de agentes da Segurança do Estado.
Promotores afirmaram que, no controle da corretora, Guo mandou desviar 2,05 bilhões de yuans (R$ 1,6 bilhão) para pagar dívidas de outras empresas suas. A holding de fachada usada na operação foi multada em 60 bilhões de yuans (R$ 45 bilhões). Um dos executivos resumiu o arranjo em juízo, a corretora funcionava como a carteira particular de Guo.
Repare no padrão. Foram condenados os executivos, as empresas, o espião e até a sobrinha.
Guo, nunca. Quando os processos chegaram aos tribunais, ele já havia deixado a China, em 2014, um passo à frente da operação anticorrupção que derrubou Ma Jian.
Já de malas prontas, ele aplicou o golpe mais ousado da carreira, contra a família real de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes. A história foi reconstruída pela revista Caixin com documentos, registros de aviação e ex-funcionários.
Guo chegou aos xeques pelas mãos do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, seu conhecido desde 2008. Convenceu os árabes a criar um fundo bilionário de investimentos e a adiantar US$ 3 bilhões (R$ 16,2 bilhões), em duas parcelas.
A primeira parcela, de US$ 1,5 bilhão (R$ 8,1 bilhões), seria aplicada num grande banco privado chinês. Segundo a ex-diretora financeira do grupo de Guo, o dinheiro voltou para a China em três dias e foi torrado em dívidas das empresas dele, na reforma de uma residência de luxo e na compra de um iate em Hong Kong.
A segunda parcela afundou numa aposta de bolsa que deu errado, com prejuízo perto de US$ 1 bilhão (R$ 5,4 bilhões). Quando os investidores de Abu Dhabi foram atrás das garantias, boa parte do que Guo havia oferecido já estava congelada na China.
Em 2015, instalou-se em Nova York. Em 2017, a Interpol emitiu um alerta vermelho de prisão contra ele, a pedido da China, e a agência AP noticiou que a polícia chinesa o investigava em pelo menos 19 casos, de suborno a sequestro.
Em Hong Kong, onde parte do dinheiro circulava, documentos judiciais revelaram uma investigação de lavagem sobre HK$ 32,9 bilhões (R$ 23 bilhões) movimentados por Guo, dois de seus filhos e sócios. Contas com pelo menos HK$ 1,56 bilhão (R$ 1,1 bilhão) foram congeladas.
Uma ex-assistente pessoal o acusou de estupro, o que motivou o pedido de um segundo alerta da Interpol. Nos Estados Unidos, ela moveu ação civil contra Guo, que nega tudo.
Foragido e investigado, Guo fez então a jogada da sua vida. Virou dissidente.
Pediu asilo político, instalou-se num apartamento de US$ 68 milhões (R$ 367 milhões) de frente para o Central Park e passou a produzir vídeos diários denunciando a corrupção do Partido Comunista. Parte da imprensa ocidental comprou o personagem.
Em 2017, ele conheceu Steve Bannon, o estrategista da eleição de Trump. Guo prometeu US$ 100 milhões (R$ 540 milhões) a uma entidade ligada a Bannon, contratou-o como consultor e o transformou em sócio da sua máquina de mídia.
Em agosto de 2020, Bannon foi preso por fraude justamente no iate de Guo. Dois meses antes, os dois haviam fundado o Novo Estado Federal da China, um governo de mentira que prometia derrubar Pequim.
Dessa máquina saíram a GTV, o G News e, em julho de 2021, a Gettr. A rede social comandada por Jason Miller, o porta-voz de Trump que é o personagem da parte 3 desta série.
Um registro necessário. A denúncia criminal americana não incluiu a Gettr entre os veículos da fraude, e o júri não julgou a plataforma.
Mas a Justiça da falência de Guo chegou lá pelo caminho do dinheiro. O administrador judicial provou que um fundo de fachada de Guo despejou US$ 21 milhões (R$ 113 milhões) na Gettr depois que ele já estava oficialmente falido, dinheiro que pertencia aos credores lesados.
A Gettr nem se defendeu. Em maio de 2026, foi condenada à revelia a devolver US$ 35,6 milhões (R$ 192 milhões), somadas outras transferências e juros.
O mesmo administrador cobra de Jason Miller, pessoalmente, US$ 353 mil (R$ 1,9 milhão) que ele recebeu de empresas de fachada de Guo. Miller nega ligação do dinheiro com a fraude e briga na Justiça.
E cobra da empresa de Paulo Figueiredo os US$ 140 mil (R$ 756 mil) que ela recebeu da HCHK Technologies, outra fachada do bilionário, pelo trabalho de implantar a Gettr no Brasil. A empresa foi condenada à revelia em outubro de 2025, num processo em que a Justiça tratou a HCHK como alter ego de Guo, e tenta agora anular a sentença.
O ano em que esse dinheiro circulou diz tudo. Em 2022, enquanto Guo despejava milhões na Gettr por baixo dos panos, a plataforma patrocinava eventos bolsonaristas no Brasil, de congresso médico na pandemia a encontros com Eduardo Bolsonaro, e operava como assessoria digital da campanha de reeleição.
De volta a Manhattan, a juíza Torres fechou as contas em junho. O governo pedia confisco de US$ 1,3 bilhão (R$ 7 bilhões).
Ela abateu US$ 411 milhões (R$ 2,2 bilhões) que as empresas de Guo já haviam devolvido num acordo com a SEC, a CVM americana. Ficou uma condenação em dinheiro de US$ 889 milhões (R$ 4,8 bilhões), além dos bens confiscados.
A decisão registra uma cena reveladora. Mais de seis mil clientes da corretora de criptomoedas de Guo foram à Justiça dizer que se recusam a ser chamados de vítimas.
A juíza respondeu com a frieza da lei. A crença do investidor não muda a natureza da fraude, o que importa é que as promessas eram falsas.
É o retrato de uma seita. Os fiéis defendendo o guru que os depenou, num tumulto de petições que obrigou a corte a barrar seguidores como litigantes de má-fé.
O Departamento de Justiça acrescentou um detalhe assustador. Mesmo preso, Guo continuou comandando seu movimento, com transmissões ao vivo distribuídas pela Gettr, e promovendo novas moedas digitais, gerando novas vítimas.
A cúpula do esquema teve destinos diferentes. Yvette Wang, o braço direito, pegou dez anos de prisão.
William Je, o financista que operava os fundos em Hong Kong, segue foragido. A juíza considerou impraticável calcular restituição individual, e as vítimas dependerão de um programa administrativo de devolução que pode levar anos.
Guo ainda tenta escapar da pena. Três dias depois da sentença, seus advogados, pagos pelo contribuinte americano, protocolaram recurso no tribunal de apelações de Nova York.
O recurso segue pendente. Ele o aguarda atrás das grades.
A juíza recomendou que ele cumpra a pena numa prisão federal em Danbury. Fica em Connecticut, o mesmo estado onde corre a falência que alcançou a Gettr, Jason Miller e a empresa de Paulo Figueiredo.
O homem que financiou a picaretagem internacional começa seus 30 anos de cadeia. Do lado brasileiro da ponte, os beneficiários do seu dinheiro seguem soltos, ativos e influentes em Washington.
Leia as partes anteriores da série
- Parte 1. O elo perdido, a empresa no Texas que liga Eduardo Bolsonaro ao dinheiro do Master
- Parte 2. Os documentos da condenação da empresa de Paulo Figueiredo e da Gettr nos EUA
- Parte 3. As picaretagens de Jason Miller, o principal lobista do tarifaço contra o Brasil em Washington
Baixe os documentos desta reportagem
Os arquivos abaixo são autos oficiais da Justiça americana, obtidos por O Cafezinho. Clique para baixar.
A condenação criminal de Miles Guo (USA v. Guo, 1:23-cr-00118, S.D.N.Y.)
- A sentença criminal. 30 anos de prisão e condenação em dinheiro de US$ 889 milhões (2/7/2026)
- A decisão da juíza Analisa Torres sobre o confisco, com a mansão, os carros de luxo e a resposta aos seguidores que negam ser vítimas (29/6/2026)
- A ordem suplementar de confisco, incluindo contas no exterior em nome do foragido William Je (30/6/2026)
A condenação da empresa de Paulo Figueiredo (Despins v. International Treasure Group, Adv. 24-05119, Bankr. D. Conn.)
- A ordem da juíza Julie Manning concedendo o julgamento à revelia contra a empresa (30/10/2025)
- A sentença. Devolução de US$ 140 mil, com juros, de dinheiro transferido por Guo através de sua fachada HCHK (30/10/2025)
- A objeção do administrador da falência ao pedido de anulação da sentença, com e-mails de Paulo Figueiredo anexados (23/12/2025)
Também citados nesta reportagem, o recurso de Guo ao Segundo Circuito, o memorial de sentença do Departamento de Justiça, a condenação da Gettr (Adv. 24-05252) e a ação contra Jason Miller (Adv. 24-05219), publicados nas partes anteriores da série, a condenação de Ma Jian pelo Tribunal Intermediário de Dalian em 2018, as reportagens da revista Caixin de 2015 a 2019, a apuração da agência AP de 2017 e o acordo das empresas GTV com a SEC em 2021.


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