Os países do BRICS avançam numa frente pouco comentada da cooperação do bloco: a construção de uma estrutura conjunta para desenvolvimento e produção de tecnologias médicas — de vacinas a radiofármacos, passando pela aplicação de inteligência artificial na saúde pública. O tema ganhou impulso durante a presidência brasileira do grupo, que tratou a área como uma das prioridades estratégicas do ano.
O argumento central: menos dependência da indústria farmacêutica internacional
Por trás da iniciativa está uma motivação geopolítica clara, verbalizada pelo presidente da Fiocruz, Mario Moreira, durante reunião ministerial de saúde do BRICS: a ideia é transformar a cooperação entre os países-membros num “tecido institucional” capaz de dar ao bloco maior autonomia frente à indústria farmacêutica dos países ricos. O Centro de Desenvolvimento de Vacinas do BRICS já opera nessa linha, mantendo um repositório digital conjunto de projetos em desenvolvimento entre os países-membros — uma tentativa de compartilhar conhecimento científico sem depender exclusivamente de patentes e tecnologias controladas por grandes farmacêuticas ocidentais.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, já havia defendido publicamente essa mesma estratégia, apontando a cooperação entre os países do BRICS como caminho para reduzir desigualdades no acesso a tecnologias médicas — com destaque para uma parceria já em funcionamento com a Rússia voltada à fabricação de radiofármacos, insumos essenciais para exames e tratamentos de medicina nuclear, sobretudo no combate ao câncer.
Radiofármacos e hospitais inteligentes: o caso chinês
A cooperação com a China ilustra bem o alcance prático dessas parcerias. Em missão à China no início do ano, Padilha se reuniu com gigantes chinesas de tecnologia médica como Huawei, Mindray e Neusoft para discutir desde infraestrutura digital hospitalar até o desenvolvimento de UTIs inteligentes baseadas em inteligência artificial. O objetivo declarado é usar essas parcerias — parte delas financiadas pelo Banco de Desenvolvimento do BRICS — para construir a primeira rede de serviços de saúde inteligentes do Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo produção local de equipamentos e medicamentos, em vez de depender apenas de importação.
Tuberculose: a doença que o mundo rico esqueceu
Um dos exemplos mais concretos de cooperação já em andamento é a Rede de Pesquisa em Tuberculose do BRICS, hoje em sua 18ª edição. O tema é tratado como prioridade justamente por afetar de forma desproporcional os países do Sul Global: segundo o ministro da Saúde da África do Sul, Aaron Motsoaledi, a tuberculose já matou historicamente mais pessoas do que a peste bubônica, a varíola, a malária e a Aids somadas — mas segue sendo negligenciada em termos de investimento científico global justamente por atingir majoritariamente populações pobres. A vacina mais usada contra a doença, a BCG, tem cerca de cem anos, e alternativas mais modernas ainda estão em fase de estudo — um vácuo que o bloco quer preencher com pesquisa conjunta.
IA na saúde: promessa que ainda enfrenta obstáculos práticos
O uso de inteligência artificial é tratado como eixo transversal dessas parcerias, com aplicações que vão da medicina de precisão — personalização de tratamentos a partir de dados genéticos e ambientais — à gestão hospitalar. Mas o próprio bloco reconhece que essa integração esbarra em obstáculos concretos: os países-membros têm infraestruturas tecnológicas muito diferentes entre si, estruturas regulatórias que não conversam facilmente, e o desafio adicional de garantir privacidade e segurança de dados sensíveis de saúde — problema que qualquer sistema de compartilhamento internacional de informações médicas enfrenta, independentemente do bloco geopolítico.
O que fica de fora do discurso oficial
Vale registrar o que esse tipo de cooperação não resolve sozinho: parcerias e centros de pesquisa conjuntos são passos relevantes, mas a distância entre “projeto em desenvolvimento” e “vacina ou radiofármaco efetivamente disponível à população” costuma ser longa, cara e sujeita a percalços regulatórios — como mostra o próprio caso da vacina contra tuberculose, ainda em fase de estudo apesar de décadas de discussão sobre o tema. A aposta do BRICS em soberania tecnológica na saúde é, portanto, uma estratégia de longo prazo, cujos resultados concretos para a população dos países-membros — inclusive o Brasil — ainda dependem de anos de execução, financiamento sustentado e capacidade de transformar acordos diplomáticos em produção real de medicamentos e equipamentos acessíveis ao cidadão comum.


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