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Brasil já venceu o tarifaço — Parte 3: a ampliação de mercados

0 Comentários🗣️🔥 Nas duas primeiras partes desta série, acompanhamos a escalada da ameaça tarifária dos Estados Unidos contra o Brasil — do anúncio da tarifa de 25% (depois 50%) sobre produtos brasileiros até a longa lista de exceções que poupou café, carnes, celulose, petróleo, aeronaves da Embraer e até suco de laranja. Chegou a hora […]

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Vista aerea do Porto de Santos com navios e containeres — o maior porto do Brasil.
Porto de Santos (SP), o maior porto da America Latina. Foto: Jorge Andrade / Flickr (CC BY 2.0)

Nas duas primeiras partes desta série, acompanhamos a escalada da ameaça tarifária dos Estados Unidos contra o Brasil — do anúncio da tarifa de 25% (depois 50%) sobre produtos brasileiros até a longa lista de exceções que poupou café, carnes, celulose, petróleo, aeronaves da Embraer e até suco de laranja. Chegou a hora de fechar o balanço com os dados duros. E o veredito dos números é claro: o tarifaço pode ter causado dor real a setores específicos, mas o Brasil, no agregado, superou a tempestade — e saiu dela com o comércio exterior maior, mais diversificado e menos dependente de Washington do que entrou.

É a tese que sustenta esta série desde a Parte 1, e que os números confirmam sem ambiguidade: as exportações brasileiras no total cresceram. Na janela dos últimos 50 meses (dezembro/2021 a abril/2026), a exportação mensal média do Brasil saltou de US$ 19,6 bilhões para US$ 29,9 bilhões — alta de +52,7%. Em valores acumulados em 12 meses, o país passou de US$ 234,8 bilhões para US$ 358,6 bilhões exportados por ano. A corrente de comércio (exportações + importações) cresceu +46,6%, passando de US$ 446,2 bilhões para US$ 654,2 bilhões acumulados em 12 meses.

Para esta análise, compilamos 64 meses de dados oficiais de comércio exterior na API da ONU Comtrade — a base estatística das Nações Unidas — e trabalhamos com média móvel mensal de 12 meses (mm12m), mês a mês. Importante: todos os valores que aparecem a seguir são médias mensais (a média móvel dá, para cada mês, a média dos últimos 12); quando citamos o acumulado em 12 meses, isso fica explícito. A janela de observação são os últimos 50 meses.

Lembrete metodológico: corrente de comércio = exportações + importações; média móvel mensal de 12 meses, em valores correntes de US$ bilhões por mês. Sempre que aparecer “por mês”, trata-se da média móvel; quando for “acumulado 12 meses”, estará indicado.

O gráfico que conta toda a história

Antes dos números, olhe para a curva. É o resumo visual de tudo o que aconteceu com os dois maiores parceiros do Brasil:

Corrente de comércio do Brasil com China e Estados Unidos — média móvel 12 meses
Corrente de comércio do Brasil com a China (vermelho) e os Estados Unidos (azul-escuro). Média móvel mensal de 12 meses, em US$ bilhões/mês. Últimos 50 meses. Fonte: UN Comtrade.

Há duas histórias em uma só imagem:

  • A China subiu, e subiu muito. A corrente de comércio Brasil-China saltou de cerca de US$ 8,5 bi para quase US$ 13,3 bi por mês — um avanço de +25,3% em quatro anos. Acumulado em 12 meses: de cerca de US$ 102 bi para US$ 159 bi.
  • Os Estados Unidos recuaram. Foram a única relação entre os grandes parceiros a encolher: de US$ 5,24 bi para US$ 4,79 bi por mês — uma queda de −8,6%. Acumulado em 12 meses: de US$ 62,9 bi para US$ 57,5 bi.

E note o detalhe decisivo: enquanto a curva chinesa dispara, a americana afina e cai. O abismo entre as duas só faz crescer — e é exatamente este o ponto. O tarifaço não esmagou o comércio exterior do Brasil; apenas redirecionou o seu fluxo para longe dos Estados Unidos.

A pergunta central: quanto os EUA representam hoje?

Se o tarifaço funcionasse, esperaríamos ver a importância dos Estados Unidos nas exportações brasileiras cair — e é exatamente o que os números mostram, em uma queda livre paciente e contínua. Comparemos três momentos distintos, sempre em participação sobre o total exportado pelo Brasil (média móvel mensal de 12 meses):

Parceiro Há 50 meses Há 1 ano Hoje (abr/2026) Variação
Estados Unidos 12,36% 12,34% 10,01% −2,35 p.p.
China 26,37% 26,92% 29,95% +3,58 p.p.

Os Estados Unidos perderam mais de 2,3 pontos percentuais de participação nas exportações brasileiras em quatro anos. Para ler sem rodeios: hoje, para cada US$ 1 que o Brasil vende aos Estados Unidos, vende quase US$ 3 para a China. Há 50 meses essa razão era de pouco menos de 1 para 2. A assimetria só faz crescer.

E atenção ao dado que mais importa para a tese desta série: as vendas para os Estados Unidos até cresceram em valor absoluto (+23,7%) — mas cresceram muito menos que o total exportado pelo Brasil (+52,7%). Por isso a participação americana cai. Em outras palavras, mesmo quando o bolo quase dobrou, a fatia dos EUA encolheu. O resto foi todo para outros compradores.

Quem está entrando no lugar dos EUA? Os novos mercados

Aqui está o achado que mais reforça a tese: quem está ganhando o espaço deixado pela retração americana não é apenas a China, mas uma constelação de economias emergentes da Ásia e do Oriente Médio. Vejamos país a país, com dados de exportação brasileira em média móvel mensal de 12 meses — o contraste entre “há 50 meses” e “agora” é a prova de que o Brasil está encontrando novos clientes:

Filipinas — o caso mais eloquente

Há 50 meses, as Filipinas compravam do Brasil cerca de US$ 89 milhões por mês (0,46% das exportações brasileiras; acumulado em 12 meses de US$ 1,07 bilhão). Hoje, compram US$ 211 milhões por mês (0,71% do total; acumulado em 12 meses de US$ 2,53 bilhões). É um salto de +135,7% no valor exportado. Um mercado que era residual tornou-se relevante — e o fez exatamente enquanto os Estados Unidos recuavam.

Egito — mais que dobrou

O Egito passou de US$ 137 milhões/mês há 50 meses para US$ 334 milhões/mês agora — alta de +144,1%. Em acumulado 12 meses, saiu de US$ 1,64 bilhão para US$ 4,01 bilhões. A participação nas exportações brasileiras subiu de 0,70% para 1,12%.

Iraque — multiplicou por oito

O caso mais extremo. Há 50 meses o Iraque comprava do Brasil apenas US$ 15 milhões/mês (0,08% do total; acumulado 12 meses de US$ 180 milhões). Hoje absorve US$ 116 milhões/mês (0,39% do total; acumulado 12 meses de US$ 1,39 bilhão). Uma variação de +671% — quase oito vezes mais. Um país quase invisível na pauta brasileira tornou-se comprador de mais de um bilhão de dólares por ano.

China — o gigante que cresceu ainda mais

Para comparação de escala: a China passou de US$ 5,16 bilhões/mês há 50 meses para US$ 8,95 bilhões/mês agora (+73,5%). Acumulado em 12 meses: de US$ 61,9 bilhões para US$ 107,4 bilhões exportados. Sozinha, a China absorve hoje quase 30% de tudo o que o Brasil vende ao mundo.

O padrão é inequívoco: cada vez que os Estados Unidos recuam, vários compradores no Oriente e no Sul avançam. Bangladesh, Turquia, Indonésia, Emirados Árabes e outros seguem a mesma trajetória ascendente. O Brasil está, de fato, diversificando — não apenas desviando vendas temporariamente.

A prova do crime: o que aconteceu produto a produto

Até aqui vimos o agregado. Mas a parte mais reveladora está num cruzamento por produto. A indústria dizia que o tarifaço destruiria exportações-chave. Para os produtos efetivamente ameaçados, os dados confirmam que houve queda para os EUA — mas, em vez de evaporar, a venda foi redirecionada para outros compradores. Para os produtos preservados pela lista de exceções, o comércio floresceu.

Caso 1 — Aço semiacabado (HS 7207): o alvo perfeito

O aço semiacabado foi talvez o produto mais citado como “na mira” da tarifa. Os números não mentem: as vendas para os Estados Unidos despencaram 39,2% na média móvel mensal de 12 meses (de US$ 326 milhões para US$ 198 milhões por mês). Mas veja para onde esse aço foi:

Destino do aço semiacabado Variação (50 meses)
Estados Unidos −39,2%
França +318,1%
Polônia +178,0%
Espanha +244,1%
Alemanha +92,2%
Peru +53,5%

O aço que saiu dos EUA não sumiu — mudou de porto. A Europa (França, Polônia, Espanha, Alemanha) absorveu o que Washington deixou de comprar. É o redirecionamento comercial em estado puro, capturado em dado mensal.

Caso 2 — Etanol: a vingança silenciosa

O etanol foi o epicentro simbólico da briga — os EUA reclamavam da tarifa brasileira de 18% sobre o produto americano. Pois bem: a venda de etanol do Brasil para os EUA caiu pela metade (−53,3%) na média móvel mensal de 12 meses. E quem apareceu para comprar? A Holanda, porta de entrada europeia, com alta de +32,5%.

Caso 3 — Suco de laranja e alumínio: a recompensa da isenção

Aqui a história se inverte — e isso é crucial para o argumento. O suco de laranja, preservado na lista de exceções do USTR (junto com café, carnes e celulose), não só resistiu como disparou para os EUA: +174,1% na média móvel mensal de 12 meses (de US$ 40 milhões para US$ 109 milhões por mês). O mesmo com o alumínio, que subiu +91,7% para os Estados Unidos.

Produto Status na lista Variação para os EUA
Aço semiacabado ameaçado −39,2%
Etanol ameaçado −53,3%
Suco de laranja isento +174,1%
Alumínio isento +91,7%
Café isento +16,9%

A correlação é quase cirúrgica: produtos na mira da tarifa, caíram para os EUA; produtos poupados, prosperaram. Mas — e este é o ponto central do artigo — mesmo os que caíram para os EUA encontraram outros compradores e não se perderam no caminho.

A grande síntese: o Brasil aprendeu a não depender de um só cliente

Junte todas as peças e o quadro que se forma é inequívoco:

  1. As exportações totais do Brasil cresceram 52,7% em quatro anos — passando de US$ 234,8 bi para US$ 358,6 bi acumulados em 12 meses.
  2. A corrente de comércio total cresceu 46,6% — de US$ 446,2 bi para US$ 654,2 bi acumulados em 12 meses.
  3. A relação com os EUA foi a única, entre os grandes parceiros, a encolher (−8,6% na corrente de comércio mensal).
  4. A participação americana nas exportações brasileiras caiu de 12,36% para 10,01% — o nível mais baixo da série analisada.
  5. Uma constelação de novos mercados emergiu — Filipinas (+135,7%), Egito (+144,1%), Iraque (+671%), Bangladesh, Turquia, Indonésia, Emirados — demonstrando diversificação real, não mero desvio temporário.
  6. Produtos efetivamente tarifados foram redirecionados (aço → Europa; etanol → Holanda), enquanto produtos poupados pela lista de exceções (suco, café, alumínio) floresceram com os EUA.

O tarifaço, portanto, não destruiu a pauta brasileira — reordenou a sua geografia. Os setores que dependerem exclusivamente do mercado americano sentiram (e ainda podem sentir) o golpe. Para o país como um todo, porém, a conclusão é a oposta: o comércio exterior é hoje maior, mais diversificado e mais resiliente do que antes da guerra tarifária.

O que vem agora

Há, é claro, riscos a vigiar. Os Estados Unidos ainda ensaiam uma “segunda lista de exceções” e novos pacotes tarifários podem mirar produtos hoje protegidos. Setores específicos — sobretudo a siderurgia e o complexo sucroalcooleiro — seguirão pressionados. Mas a lição macro dos 50 meses é clara: cada vez que uma porta se fecha no Norte, várias se abrem no Oriente e no Sul.

O Brasil não “venceu” o tarifaço no sentido de ter saído ileso — houve baixas reais em fábricas e lavouras específicas. Mas venceu no sentido que realmente importa para um país: manteve o seu comércio crescendo, diversificou parceiros e reduziu a própria vulnerabilidade. E, no jogo longo da economia, isso é o mais próximo de uma vitória que se pode obter.

 

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