Um novo relatório da Polícia Federal, obtido pela Folha de S.Paulo, revela a dimensão real do esquema de emendas atribuído a Valdemar Costa Neto: em 2024, o presidente do PL teria direcionado R$ 111,8 milhões em emendas parlamentares de comissão — mais do que 512 dos 513 deputados federais em exercício naquele ano. Valdemar está sem mandato desde dezembro de 2013, quando renunciou à cadeira na Câmara após ser condenado no processo do mensalão.
Um volume maior que quase toda a Câmara dos Deputados — mas não maior que Lira
O único parlamentar que superou o volume atribuído a Valdemar foi o então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que destinou R$ 255,3 milhões em emendas de comissão no mesmo ano. Para efeito de comparação: o montante ligado a Valdemar superou os R$ 102 milhões movimentados pelo relator da reforma tributária, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), e os R$ 91,6 milhões do então líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE) — ambos parlamentares em pleno exercício do mandato, ao contrário do dirigente do PL.
A própria Polícia Federal reconhece a anomalia no relatório enviado ao ministro Flávio Dino, do STF: segundo a corporação, Valdemar contava com autonomia para direcionar recursos de emendas conforme sua cota pessoal e particular, atribuída unicamente por sua condição de presidente da sigla — não por qualquer mandato eletivo, que ele não possui há treze anos.
Os “laranjas” identificados: Sóstenes, Motta e Capitão Alden
Uma segunda apuração, publicada pelo Estadão, identifica três deputados federais do PL cujos nomes teriam sido usados como fachada formal para as indicações atribuídas a Valdemar: o líder da bancada na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), aparece como solicitante de R$ 94 milhões — parte deles destinados a municípios de São Paulo, Paraná, Bahia e Pará, estados aos quais ele não tem qualquer vínculo de representação, já que é deputado pelo Rio de Janeiro. A maior emenda associada a seu nome, de R$ 25 milhões, foi enviada a Porto Seguro (BA).
Luiz Carlos Motta (PL-SP) aparece como responsável por duas emendas somando R$ 22,8 milhões, e Capitão Alden (PL-BA) por uma indicação de R$ 2,4 milhões para Itaguaçu da Bahia. Ambos negaram ter participado das decisões: Motta afirmou que seu nome passou a constar nos registros administrativos relacionados à tramitação dessas indicações por ter sido relator do Orçamento Geral da União naquele ano, e não por escolha própria. Já Alden foi mais direto: segundo ele, não houve qualquer contato comigo sobre esse assunto.
Como o esquema conseguiu se camuflar mesmo após o STF exigir transparência
Esse é o ponto que talvez mereça mais atenção no caso: em 2024, o próprio STF já havia determinado que o Congresso identificasse os verdadeiros “padrinhos” de cada emenda de comissão, numa tentativa de corrigir a opacidade que marcou o extinto orçamento secreto. Mesmo assim, boa parte dos recursos atribuídos a Valdemar apareceu nos registros oficiais apenas como indicação da “liderança do partido” — sem qualquer nome específico —, driblando exatamente a exigência de transparência imposta pela Corte. A prática não foi exclusividade do PL: partidos como PP, União Brasil e PT também usaram lideranças partidárias como autoras formais de repasses em 2024, e, segundo a Folha, mais de R$ 1 bilhão em verbas da Câmara seguiu esse mesmo caminho só em 2025.
O bloqueio de Dino e a queda abrupta em 2025
Ao determinar o bloqueio de R$ 119 milhões em bens de Valdemar, Dino foi enfático: segundo o ministro, o problema central é que um terceiro sem mandato tinha o poder e a ingerência sobre o direcionamento do orçamento público — uma situação que ele classificou como gravíssima. Chama atenção, aliás, um dado isolado no relatório da PF: o valor atribuído a Valdemar caiu drasticamente em 2025, para apenas R$ 7,4 milhões — uma queda de mais de 90% em relação ao ano anterior, cujos motivos a própria investigação não esclarece, mas que coincide com o período em que o esquema das emendas de comissão já vinha sob escrutínio crescente do Judiciário.
Defesa nega, e Flávio Bolsonaro chama a investigação de perseguição seletiva
A defesa de Valdemar, pelos advogados Marcelo Ávila de Bessa e Thiago Fleury, nega qualquer irregularidade e classifica a atuação do dirigente partidário como natural dentro do sistema político — dialogar com parlamentares e articular prioridades, segundo a nota, não configura crime algum. Já o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, saiu em defesa pública do padrinho político de sua candidatura, classificando a atuação da Polícia Federal como seletiva para constranger um adversário político do atual governo, e contrapondo o caso à alegada inação da PF em investigações envolvendo o filho do presidente Lula.
Por que o caso é maior do que parece à primeira vista
O que os dois relatórios, somados, revelam é uma engenharia difícil de justificar como mero exercício de “liderança partidária informal”: um homem sem mandato há mais de uma década movimentando, sozinho, um volume de recursos públicos superior ao de quase todo o plenário da Câmara dos Deputados — usando nomes de parlamentares em exercício como fachada formal para escapar da exigência de transparência imposta pelo próprio STF. Independentemente do desfecho jurídico do caso, o episódio já expõe uma fragilidade estrutural do sistema de emendas de comissão: mesmo depois de anos de pressão da Corte por rastreabilidade, o mecanismo de esconder o verdadeiro “padrinho” atrás da “liderança do partido” continua funcionando — e, ao que tudo indica, funcionou por pelo menos um ano inteiro em plena vista de todos, sem que ninguém questionasse por que um dirigente sem assento no Congresso aparecia direcionando dezenas de milhões de reais em dinheiro público.


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