A sexta rodada da pesquisa Nexus, encomendada pelo BTG Pactual e divulgada nesta segunda-feira (13), mostra um quadro nacional aparentemente congelado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 34% do senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e vence o confronto direto por 47% a 44%, os mesmos números da rodada anterior.
A fotografia, porém, engana. Quando se abre a pesquisa por perfil de polarização, aparece o movimento mais importante do ciclo eleitoral até aqui: o bolsonarismo parou de dizer seu nome.
A Nexus ouviu 2.003 eleitores por telefone entre 10 e 12 de julho, com margem de erro de 2 pontos percentuais e registro TSE BR-07981/2026. Segundo o registro no Tribunal Superior Eleitoral, o levantamento custou R$ 164.888,89 ao BTG Pactual, valor que o coloca entre as pesquisas eleitorais mais caras do mercado.
O campo foi realizado duas semanas depois de Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama e até então presidente do PL Mulher, publicar o vídeo em que critica o enteado e anuncia seu afastamento da campanha.
Foi o segundo choque em dois meses. Em 13 de maio, o Intercept Brasil havia revelado o áudio em que Flávio negocia R$ 134 milhões com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro, com parte do dinheiro passando por um fundo no Texas controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro.

O efeito combinado dos dois episódios aparece no segmento que a Nexus chama de não polarizados, eleitores que não se identificam nem com o antipetismo nem com o antibolsonarismo. Esse grupo, hoje 23% do eleitorado, vinha dando vantagem crescente a Lula no segundo turno: 43 a 37 em 15 de junho, 46 a 37 em 29 de junho.
Em duas semanas, o placar virou de cabeça para baixo. Na rodada de julho, Flávio lidera entre os não polarizados por 45% a 32%, com o voto em branco ou nulo subindo de 15% para 21%.
À primeira vista, seria uma debandada de Lula. A leitura fina dos dados conta outra história, menos óbvia e mais reveladora.

Se um bloco de 23% do eleitorado tivesse trocado 14 pontos de lado, o placar geral teria se mexido, e ele não se mexeu. O que mudou foi a composição do próprio bloco: entre junho e julho, os bolsonaristas convictos encolheram de 26% para 25%, o grupo que via Bolsonaro como alternativa caiu de 9% para 7% e os que rejeitam os dois campos recuaram de 9% para 7%.
Os não polarizados, em contrapartida, cresceram de 20% para 23%. Ou seja, uma fatia do eleitor de Flávio deixou de se declarar antilulista depois da sequência de crises e passou a se classificar como despolarizada, levando o voto junto.
O cluster ficou mais azul não porque Lula perdeu eleitores para Flávio, mas porque o bolsonarismo constrangido entrou nele disfarçado. É um fenômeno de identidade, não de migração de voto, e explica por que o agregado nacional segue parado.
Os números do grupo que via Bolsonaro como alternativa confirmam a leitura. Além de o segmento ter encolhido de 9% para 7% do eleitorado, o próprio Flávio despencou dentro dele: no segundo turno, sua fatia caiu de 81% para 68% em duas semanas, e no primeiro turno o senador nunca recuperou o tombo pós-áudio, quando foi de 50% em março para 35% em maio, patamar em que segue oscilando, hoje em 38%.
Parte desse eleitor em trânsito passou antes pelo grupo dos que rejeitam os dois campos, que inchou em junho e murchou em julho. O trajeto descreve uma fase de transição: o eleitor sai do bolsonarismo declarado, para na estação dos não polarizados e ainda não decidiu se segue viagem.
A etapa seguinte seria enxergar Lula como alternativa, e ela ainda não aconteceu: esse grupo segue pequeno, com 7% do eleitorado, e a fatia do presidente dentro dele até recuou, de 78% para 71% no segundo turno. Há aí uma janela aberta para a campanha governista disputar um eleitor que já largou a mão de Flávio, mas ainda não estendeu a mão a Lula.
Do lado petista, a notícia boa é de consolidação. Os lulistas convictos cresceram de 22% em abril para 24% e estão no auge da fidelidade em toda a série: 86% deles votam em Lula no primeiro turno e 90% no confronto direto com Flávio.

O mesmo constrangimento infla outra estatística que vem animando o mercado político: a demanda por terceira via. Perguntados sobre quem deveria ser eleito, 27% dos entrevistados escolhem um nome que não seja apoiado nem por Lula nem por Jair Bolsonaro, contra 21% em junho e 11% em março.
O campo bolsonarista despencou de 36% para 32% nessa mesma pergunta em duas semanas, enquanto Lula oscilou de 39% para 36%. Parte relevante desses 27%, portanto, não é centro órfão: é voto Flávio que não quer dizer o nome.
A terceira via real, aliás, continua sem dono. No primeiro turno, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), tem 5%, e Renan Santos, do MBL, e o governador de Minas, Romeu Zema (Novo), têm 4% cada, com Renan chegando a 13% apenas entre os jovens de 16 a 24 anos.

O risco para Lula está na pauta desse centro que cresceu. Entre os não polarizados, Flávio é visto como mais capaz de controlar a inflação (52% a 32%), promover o crescimento (49% a 31%) e gerar empregos (45% a 38%), e domina com folga os temas de segurança pública e crime organizado.
Lula vence nesse segmento em direitos das mulheres (49% a 33%) e educação (43% a 40%). Segurança é terreno historicamente ocupado pela direita, mas custo de vida não tem dono ideológico: é a conta do supermercado, e um governo que zerou o imposto de renda de quem ganha até R$ 5 mil tem o que apresentar nessa disputa, ainda que a percepção do eleitor despolarizado hoje penda para o adversário.

Flávio, por sua vez, paga o preço das crises no andar de cima. Desde abril, ele perdeu 9 pontos no segundo turno entre eleitores com ensino superior, caindo de 50% para 41%, perdeu 6 entre quem ganha mais de cinco salários mínimos e deixou a liderança da faixa, e cedeu 7 pontos entre os maiores de 60 anos.
A base popular dele, ao contrário, resiste. Entre evangélicos o senador mantém 55% a 36%, entre homens 51% a 40%, e no Sul ele até cresceu, de 53% para 58%.
O pano de fundo segue favorável ao governo. A aprovação de Lula empatou em 47% a 47%, o melhor resultado da série iniciada em março, quando a desaprovação superava a aprovação por 51% a 45%, e a rejeição do presidente caiu de 49% para 46% em duas semanas, enquanto a de Flávio segue em 50%.
Nem o eleitorado do senador nega o desgaste. Entre os que declaram voto em Flávio no segundo turno, 30% admitem que o episódio com Michelle prejudica a candidatura, e o voto puramente antibolsonarista voltou a crescer do outro lado: 19% dos eleitores de Lula dizem votar nele apenas para derrotar o adversário, contra 16% em junho.
O retrato de julho, em resumo, é o de uma guerra de trincheiras com os dois núcleos blindados em patamares recordes e um meio de campo que engordou com bolsonaristas em trânsito. A eleição de 2026 vai se decidir nesse terreno movediço, e a disputa agora é sobre quem chega primeiro a um eleitor que já se soltou de Flávio, mas ainda não encontrou onde se segurar.
A íntegra da pesquisa, com os 111 slides do relatório da Nexus, pode ser baixada neste link.


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