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O pós-lulismo não é adversário do lulismo

Por Redação

20 de dezembro de 2021 : 20h41

Por Theófilo Rodrigues

A grande imagem da noite do último domingo foi o abraço de Lula em Geraldo Alckmin no jantar promovido pelo grupo Prerrogativas em São Paulo. Cercado pelos sorridentes Marcio França e Fernando Haddad, o afetuoso encontro foi visto como mais um passo na construção da surpreendente chapa presidencial Lula-Alckmin para 2022. O gesto também sinaliza para uma federação de centro-esquerda entre PT, PSB, PCdoB e PV como base partidária preliminar dessa chapa.


Se, por um lado, já não há muitas dúvidas de que essa aliança é uma possibilidade concreta para 2022, por outro lado, não há nenhum consenso nas interpretações sobre os significados e as consequências dessa coalizão inesperada. Uma dessas interpretações foi apresentada por Mathias Alencastro na Folha de S. Paulo do último domingo.
Analista perspicaz e profundo conhecedor da política europeia, Alencastro comete dois equívocos ao tentar comparar a situação brasileira com as alianças da esquerda ibérica nos últimos anos.


Como sabemos, a chamada Geringonça, em Portugal, foi uma coalizão que permitiu que o social-democrata Partido Socialista indicasse Antonio Costa como primeiro-ministro do país tendo o apoio dos comunistas do PCP e dos pós-materialistas do Bloco de Esquerda. O mesmo ocorreu na Espanha quando o social-democrata Pedro Sanchez assumiu como primeiro-ministro do país com o apoio dos comunistas do PCE e dos pós-materialistas do Podemos. Nos dois casos, essas alianças à esquerda do espectro político foram suficientes para garantir maiorias de governo para a social-democracia.


Alencastro chama de “esquerda de coalizão” esse tipo de aliança vitoriosa em Portugal e Espanha em contraposição à “esquerda de ruptura” de Jean-Luc Mélenchon na França, Jeremy Corbyn no Reino Unido e Bernie Sanders nos Estados Unidos. Partindo dessa categorização, Alencastro compreende a aliança entre Lula e Alckmin como uma reprodução da “esquerda de coalizão” no Brasil. Essa leitura, contudo, parte de dois pressupostos equivocados.


Em primeiro lugar, é um erro apontar para uma oposição entre a “esquerda de coalizão” e a “esquerda de ruptura”, como se fossem duas táticas políticas inconciliáveis. O que talvez Alencastro não tenha percebido é que a “esquerda de coalizão” que ele aponta como vitoriosa só foi possível graças à participação da “esquerda de ruptura” em seu seio. Tanto em Portugal quanto na Espanha, os comunistas e os pós-materialistas cresceram eleitoralmente ao manter uma ação política à quente nas ruas e nas redes. Esse crescimento da “esquerda de ruptura” foi o que impulsionou a construção de uma coalizão com os social-democratas.


Ora, se Unidas Podemos na Espanha e PCP e Bloco de Esquerda em Portugal não tivessem crescido, ninguém teria dúvidas de que as coalizões da social-democracia de Sanchez e de Costa teriam sido com legendas conservadoras e que os programas a serem implementados estariam mais próximos do neoliberalismo, como ocorreu com a terceira via na década de 1990 e início dos anos 2000. Ou, pior, talvez a social-democracia nem tivesse chegado ao poder. Em outras palavras, há uma sinergia dialética entre ruptura e coalizão que Alencastro não percebeu.


O caso da Alemanha parece exemplar. A social-democracia alemã, o SPD, por muitos anos manteve aliança com o conservador partido de Angela Merkel. Era a chamada Grande Coalizão. Agora, o SPD finalmente chegou ao poder com Olaf Scholz como primeiro-ministro. Qual a razão de Scholz não ter chegado ao poder com o apoio do partido de Merkel? Ora, o crescimento do Partido Verde que se apresentou de forma assertiva para o eleitorado. Não foi uma questão abstrata de “vontade política”. Foi a correlação de forças concreta que se alterou com o crescimento dos Verdes por fora da Grande Coalizão. Com o apoio dos Verdes, a social-democracia alemã pôde agora dar uma guinada à esquerda.


Algo semelhante aconteceu nos Estados Unidos. O presidente democrata Joe Biden está longe de ser enquadrado como um quadro da esquerda estadunidense. Por qual motivo então o seu governo tem sido apontado como o mais progressista das últimas decadas? Ninguém tem dúvidas de que a razão para isso foi a ascensão recente de Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez que, não obstante terem sido derrotados internamente no Partido Democrata, pressionaram socialmente o partido a adotar novas práticas. Essa é a dialética da política.


O segundo erro na análise de Alencastro é considerar que haja a possibilidade de reproduzir esse tipo de aliança no Brasil em 2022. Por que isso não é possível? No Brasil, uma aliança entre a social-democracia de PT e PSB com os comunistas do PCdoB e os pós-materialistas do PSOL pode até eleger Lula presidente, mas seria incapaz de conquistar a maioria necessária para a governabilidade no Congresso Nacional. Juntos, esses partidos somam cerca de 20% das cadeiras da Câmara dos Deputados, número insuficiente para garantir a governabilidade. A aliança, portanto, precisará necessariamente agregar outros atores políticos do centro e da direita do espectro político – o chamado centrão, por exemplo -, algo que não ocorreu na Espanha e em Portugal.


O que acontece é que no Brasil, diferentemente dos países do sul da Europa, não houve o desenvolvimento concomitante de duas táticas da esquerda. O enorme sucesso do reformismo fraco do lulismo, bem descrito por André Singer, hegemonizou a esquerda e não possibilitou espaços para o crescimento de outras forças políticas mais radicais e consequentes na direção de uma ruptura, ou, como alguns preferem, do pós-lulismo. Sem a emergência dessas novas forças sociais, o lulismo permaneceu “falando sozinho” na esquerda do espectro político.


Se o objetivo da esquerda brasileira é realmente avançar para além da experiência do reformismo fraco do lulismo, então uma nova tática política precisa ser adotada. Uma nova tática que não seja necessariamente adversária do lulismo, mas que dialogue com o Lulismo no curto prazo ao mesmo tempo em que olhe para além do lulismo no médio prazo. Aliás, mais perto do que a Europa, aí está a experiência quente dos chilenos que acaba de eleger Gabriel Boric como presidente do país. Guardadas as diferenças, Boric representa exatamente uma espécie de pós-lulismo chileno.


Devemos concordar com Alencastro quando diz que a chapa Lula-Alckmin “impulsiona a reconstrução do sistema partidário e assegura o regresso dos democratas ao poder”. Num contexto de avanço do fascismo, essa frente ampla é de fato necessária para zerar o jogo. Contudo, o autor erra ao concluir que “uma eventual “geringonça brasileira” marcaria a vitória definitiva da esquerda de coalizão sobre a esquerda de ruptura”. Pelo simples fato da esquerda de ruptura nem ter entrado em cena ainda na grande disputa política no Brasil.


 Theófilo Rodrigues é cientista político e autor do livro “Partidos, classes e sociedade civil no Brasil contemporâneo”.

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