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Nova Quaest expõe os riscos da frente ampla em 2026

A primeira pesquisa Genial/Quaest de 2026 mostra Lula à frente, mas com margem perigosamente estreita. Na simulação mais expandida de primeiro turno (cenário 1), com todos os principais nomes, Lula lidera com 36%, seguido por Flávio Bolsonaro com 23%, Tarcísio de Freitas com 9% e Ratinho Jr. com 7%. Os demais candidatos, todos de direita, […]

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16.01.2026 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante declaração à imprensa. Palácio do Itamaraty. Rio de Janeiro (RJ) - Brasil. Foto: Ricardo Stuckert / PR

A primeira pesquisa Genial/Quaest de 2026 mostra Lula à frente, mas com margem perigosamente estreita.

Na simulação mais expandida de primeiro turno (cenário 1), com todos os principais nomes, Lula lidera com 36%, seguido por Flávio Bolsonaro com 23%, Tarcísio de Freitas com 9% e Ratinho Jr. com 7%. Os demais candidatos, todos de direita, têm entre 1% e 3%.

Para entender com mais objetividade o contexto das estimativas eleitorais, é útil situá-las no quadro econômico e social do país. Preso na Papuda, Jair Bolsonaro desfruta de eletricidade, alimentos e gás de cozinha gratuitos. A população, não.

Os dados do IBGE mostram queda expressiva na inflação de alimentos consumidos em domicílio: 1,43% em 2025, contra 8,23% no ano anterior. Feijão e arroz, segundo o próprio instituto, tiveram deflação. O botijão de gás subiu 2,55%, menos da metade dos 7,04% de 2024.

Por outro lado, a inflação da energia elétrica residencial fechou o ano com alta de 12,31%, o que tende a ser cobrado politicamente de Lula, sobretudo pela classe média, que não tem acesso aos programas sociais do governo que oferecem descontos na conta de luz.

Em política, no entanto, os números do IBGE não votam. O que vale é a percepção do eleitor. Segundo a Quaest, 58% dos brasileiros consideram que o preço dos alimentos subiu no último mês, e 61% avaliam que seu poder de compra é menor do que há um ano. São dados preocupantes.

Em tempos de “polarização calcificada”, para usar a expressão do próprio Felipe Nunes, CEO da Quaest, a tradução política de indicadores econômicos não é automática. O eleitorado considera outros fatores na formação de seu voto, como valores, identidade e religião. Isso não anula o peso da economia, mas neutraliza parte do seu efeito.

Na avaliação binária do governo (aprovação X desaprovação), o quadro permanece inalterado. A aprovação oscilou de 48% para 47%, a desaprovação se manteve em 49%, variações sem significância estatística. O principal é a continuidade, sem erosão do apoio, mas também sem avanço.

No julgamento trinário (positivo/regular/negativo), o governo Lula tem hoje avaliação de 32% positiva, 27% regular e 39% negativa, o que é um desempenho bastante superior ao de Bolsonaro no início de 2022.

Na primeira Quaest daquele ano eleitoral (fev/2022), Bolsonaro tinha apenas 22% de positivo, 25% regular e 52% negativo.

Um ponto que merece destaque é o aumento da avaliação positiva do presidente Lula entre os eleitores que votaram nele no segundo turno de 2022. Nesse grupo, a aprovação alcança 86%, maior patamar da série histórica. O dado reflete uma base social coesa e mobilizada, o que será de grande valia na luta de ideias brutal que deve acontecer ao longo da campanha eleitoral.

Se mantiver o apoio de quem votou nele na última eleição, Lula terá, naturalmente, mais chances de vencer de novo.

Um dos desafios do petista, portanto, é levar seu próprio eleitorado às urnas. Eleições também se perdem pela ausência dos eleitores, como sabia a turma de Bolsonaro em 2022 quando usou a Polícia Rodoviária Federal para dificultar a ida de eleitores nordestinos até as zonas de voto.

O eleitorado lulista é mais pobre, mais periférico, reside em áreas com mobilidade urbana mais precária e fica mais distante dos locais de votação. Historicamente, registra maiores níveis de abstenção.

Do outro lado, um eleitorado conservador apresenta renda média mais elevada, maior proximidade dos locais de voto e engajamento político mais intenso, inclusive porque frequentemente tem motivação religiosa.

Segundo os dados mais atualizados do TSE, o Brasil tinha 155 milhões de eleitores em dezembro de 2025. Cada ponto percentual corresponde, portanto, a cerca de 1,55 milhão de eleitores.

Na intenção de voto espontânea, Lula registra 19%. Flávio Bolsonaro aparece com 7%, enquanto Jair Bolsonaro soma 2%, sinal de que o eleitorado processou sua inelegibilidade.

A espontânea serve para medir a formação do voto e identificar os núcleos mais duros de cada candidato, mas a estimulada tem maior peso analítico. No dia da eleição, o eleitor não escolhe de memória: é apresentado a um conjunto de nomes após meses de campanha.

Nos cenários estimulados, vale trabalhar com os estratificados do cenário 1, já mencionado no começo do texto. Lula, Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas são os únicos nomes competitivos.

A leitura regional confirma padrões conhecidos. O Nordeste segue como base sólida do presidente, com 60% das intenções, frente a 13% de Flávio Bolsonaro. Tarcísio tem 4% na região, penetração mínima para qualquer candidato que pretenda ser competitivo à direita. No Sudeste, Lula aparece na dianteira, mas a soma dos candidatos da direita reproduz padrão semelhante ao de 2022.

No cenário 7, mais enxuto, sem Tarcísio na disputa, Lula tem 38% e Flávio Bolsonaro 31%. Os demais candidatos somam 9%. Brancos, nulos e indecisos totalizam 22%.

A leitura regional do sétimo cenário mostra Flávio na frente no Sul com 46% contra 25% de Lula, margem semelhante à de 2022. No Sudeste, Flávio tem 34% contra 31% de Lula. No Centro-Oeste e Norte, agrupados pela pesquisa, Flávio marca 34% contra 30% de Lula. No Nordeste, Lula mantém hegemonia com 64% contra 16% de Flávio.

Nos cenários de segundo turno, Lula vence Tarcísio por 44% a 39%, diferença de 5 pontos, e Flávio por 45% a 38%, diferença de 7 pontos, algo como 11 milhões de votos. Os percentuais não somam 100% porque excluem brancos, nulos e indecisos.

Flávio Bolsonaro vem se consolidando como candidato natural do campo bolsonarista. Segundo a Quaest, seu nome é bem melhor que o de Tarcísio para mobilizar eleitores da direita, especialmente entre os apoiadores de seu pai.

Desde dezembro, houve melhora expressiva na percepção de que Jair Bolsonaro acertou ao indicar o filho. No eleitorado geral, os que consideram que acertou saltaram de 36% para 43%, praticamente empatando com os que consideram que errou (44%).

Entre bolsonaristas, a aprovação subiu de 78% para 87%; entre a direita não bolsonarista, de 38% para 62%. A percepção se aproxima do consenso no campo conservador. Entretanto, Setores da Faria Lima mais próximos a Tarcísio, Ciro Nogueira e Kassab continuam publicamente desapontados com a decisão de Jair Bolsonaro de não escolher o governador de São Paulo. Esses mesmos setores, muito influentes na grande imprensa, ainda alimentam a esperança de que o ex-presidente mude de ideia.

O argumento em favor de Tarcísio, de que ele teria melhor desempenho por atrair moderados, é uma tese apoiada em pesquisas. Mas ainda assim, apenas uma tese. O fato objetivo é que Flávio já se revela um candidato competitivo, com densidade eleitoral impressionante e chances reais de vitória, embora apareça atrás de Lula.

Flávio e Tarcísio representam ameaças diferentes. O primeiro mobiliza pela identidade e pela radicalização. O segundo oferece possibilidade de reorganização conservadora e atração de independentes.

A ascensão de Flávio, paradoxalmente, pode favorecer Lula, e isso também aparece nessa pesquisa, quando se pergunta aos eleitores se a direita teria mais ou menos chances de vencer com alguém da família Bolsonaro no segundo turno.

Contra alguém da família Bolsonaro, Lula é favorito com 56% a 34%. Contra um candidato sem vínculo familiar, a disputa se equilibra: Lula em 45%, adversário em 43%. Os percentuais restantes correspondem a brancos, nulos e indecisos.

A presença de Flávio facilita, para Lula, a construção de uma coalizão ampla contra o bolsonarismo, repetindo a estratégia vitoriosa de 2022. É exatamente por isso que o Planalto e a cúpula do PT, segundo diversas fontes, ainda acreditam que Tarcísio pode ser o nome final escolhido por Bolsonaro para disputar a presidência.

Não será fácil para a direita, contudo, fazer alterações de última hora.

Quando a pesquisa testou quem deveria ocupar o lugar de Flávio, na hipótese de sua desistência, o resultado expôs fraturas. Entre bolsonaristas, Tarcísio obteve míseros 8%, atrás de Michelle Bolsonaro (27%) e Ratinho Junior (23%). Os números comprovam que o eleitorado bolsonarista (assim como os membros da família) desconfia do governador paulista, o que dificulta uma eventual substituição de Flávio por Tarcísio sem provocar desmobilização do eleitorado mais conservador.

A conjuntura internacional, além disso, pode favorecer Lula, por várias razões.

O anúncio do acordo Mercosul–União Europeia, feito na sexta-feira, 17 de janeiro, ao lado de Ursula von der Leyen, era uma demanda histórica dos setores produtivos brasileiros. Sua concretização projeta Lula como estadista capaz de costurar alianças estratégicas em um mundo cada vez mais fragmentado.

O tabuleiro geopolítico, marcado pela postura errática e agressiva dos Estados Unidos sob Trump, tende a valorizar lideranças que inspiram na população a confiança de que defenderão corajosamente a soberania nacional.

Lula demonstrou capacidade de estabelecer diálogos em alto nível com os mais diferentes líderes globais, como Donald Trump, Putin, Xi Jinping e representantes do Sul Global e do mundo desenvolvido. Essa rede diplomática pode ser nossa principal muralha de defesa contra eventuais pressões vindas de Washington, o neocalígula do norte.

A articulação internacional pode ser um trunfo, se o petista conseguir driblar uma campanha muito bem financiada e estruturada, vinda justamente daqueles que têm interesse em manter o Brasil alinhado aos interesses do império.

Um alerta final: a coalizão democrática precisa construir uma margem de segurança, além de ter estratégias de ação rápida na manga, capaz de superar possível solavanco emocional no país, caso Bolsonaro enfrente problemas de saúde mais graves ao longo do processo eleitoral.

Clique aqui para baixar a íntegra do relatório da Quaest.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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