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No inverno de Gaza, mais de 10 crianças morrem de hipotermia

A guerra e o bloqueio israelenses tornam o inverno mortal para os bebês de Gaza Youssef Abu Hammad tinha seis meses de vida quando o frio o levou. Nascido em meio aos escombros de uma guerra que já dura dois anos, ele era a resposta a 17 anos de espera e orações de seus pais […]

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AFP/Omar al-Qattaa

A guerra e o bloqueio israelenses tornam o inverno mortal para os bebês de Gaza

Youssef Abu Hammad tinha seis meses de vida quando o frio o levou.

Nascido em meio aos escombros de uma guerra que já dura dois anos, ele era a resposta a 17 anos de espera e orações de seus pais por um filho homem, o único menino entre seis irmãs mais velhas.

Sua breve existência terminou na quinta-feira (22) em um abrigo improvisado próximo a um depósito de esgoto no sul de Gaza, vítima de hipotermia extrema e desidratação causada pela exposição à poluição, segundo médicos locais.

A morte de Youssef não é um caso isolado. No mesmo dia, Ali Abo al-Zour, de apenas três meses, também sucumbiu ao frio.

Eles são parte de uma tragédia silenciosa que se agrava a cada noite mais gelada: de acordo com o Ministério da Saúde controlado pelo Hamas, pelo menos dez crianças morreram de hipotermia desde o início do inverno no território sitiado.

Dados de outras fontes, incluindo a ONU, confirmam a morte de nove crianças pelo frio neste inverno, com casos de bebês de apenas sete dias de vida.

A tragédia é o resultado direto das condições desumanas enfrentadas por mais de dois milhões de palestinos, 90% dos quais foram deslocados de suas casas após a destruição quase total da infraestrutura de Gaza.

Sem eletricidade central há anos e com combustível escasso para geradores, a população sobrevive em tendas de lona e plástico, vulneráveis às temperaturas que podem cair para perto de 6°C à noite. Ventos fortes e tempestades recentes destruíram milhares desses abrigos precários, agravando ainda mais a crise.

“Isto não é um desastre natural, mas uma catástrofe humanitária provocada pelo homem”, declarou Munir al-Bursh, diretor-geral do Ministério da Saúde de Gaza.

Ajuda insuficiente

A situação persiste apesar de um acordo de cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos, que entrou em vigor em outubro de 2025 com o objetivo de encerrar os combates e permitir um fluxo maior de ajuda humanitária.

No entanto, mais de três meses depois, organizações de ajuda e autoridades de Gaza denunciam que Israel continua a violar os termos, mantendo um bloqueio rigoroso que impede a entrada de itens essenciais para a sobrevivência no inverno, como tendas adequadas, casas móveis, equipamentos de aquecimento, baterias e painéis solares.

As Nações Unidas alertam que a capacidade de fornecer ajuda na escala necessária permanece “severamente restrita”.

Embora tenham sido distribuídas mais de 860.000 cestas de alimentos desde o início do ano e 1,6 milhão de refeições quentes sejam servidas diariamente, os suprimentos para abrigo e aquecimento continuam sendo o maior desafio.

O sistema de saúde, colapsado, opera sem medicamentos, equipamentos básicos ou combustível, colocando em risco especialmente os recém-nascidos prematuros e com baixo peso, que são mais vulneráveis à hipotermia.

E o silêncio permanece

A história de Youssef se repete em diferentes formas por toda Gaza.

No mês passado, Saeed Abdeen, um bebê prematuro de 29 dias, morreu no Hospital Nasser, em Khan Younis. Sua mãe, Rawya, descreveu as noites angustiantes em uma tenda inundada pela água da chuva, tentando manter o filho aquecido sob quatro cobertores. “Eu estava disposto a trocar minha alma para salvá-lo”, disse o pai, Eseid Abdeen, após a morte do filho.

O Dr. Ahmed al-Farra, diretor de pediatria do mesmo hospital, alertou que tragédias como essa se repetirão sem uma solução permanente. “Eles vivem em barracas precárias, expostas ao vento e ao frio, sem meios para se aquecer”, afirmou.

Para os pais de Youssef, a dor é agravada pela sensação de abandono. Omar Abu Hammad, o pai, disse que seus apelos repetidos por leite em pó e fraldas nos últimos meses nunca foram atendidos.

Enquanto líderes mundiais discutem planos de paz em fóruns internacionais, como o recente “Conselho da Paz” proposto pelo presidente dos EUA Donald Trump em Davos, a realidade para famílias como a de Youssef é de luta diária pela sobrevivência mais básica.

A ONU estima que mais de 100 crianças tenham morrido em Gaza desde que o cessar-fogo entrou em vigor, não apenas de frio, mas também em violações do acordo, que incluem ataques aéreos e incursões militares esporádicas.

O inverno em Gaza continua, e com ele, o temor de que a lista de vítimas do frio, liderada pelos nomes de Youssef, Ali, Saeed e tantos outros, só aumente nas próximas semanas.

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