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EXCLUSIVO! Uma radiografia completa do comércio exterior da China

A China e o Brasil divulgaram os dados de comércio exterior de 2025 até dezembro. Os Estados Unidos, num sinal emblemático de seu atraso burocrático, ainda não publicaram os números completos do ano. Washington divulgou apenas os dados até outubro, o que nos obriga a trabalhar com estimativas baseadas no acumulado de doze meses entre […]

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Imagem gerada por IA, por Miguel do Rosário

A China e o Brasil divulgaram os dados de comércio exterior de 2025 até dezembro.

Os Estados Unidos, num sinal emblemático de seu atraso burocrático, ainda não publicaram os números completos do ano.

Washington divulgou apenas os dados até outubro, o que nos obriga a trabalhar com estimativas baseadas no acumulado de doze meses entre novembro de 2024 e outubro de 2025.

O retrato que emerge desses números revela uma China em seu momento de maior pujança comercial. O país asiático bateu recordes históricos em corrente de comércio, exportações e superávit.

E o Brasil aparece como peça central nessa engrenagem. A dependência chinesa de produtos brasileiros atingiu patamares impressionantes em 2025.

O Brasil forneceu 73,28% de toda a soja importada pela China. Isso significa que quase três quartos do grão consumido pelos chineses cruzaram o Atlântico a partir de portos brasileiros.

A soja é o produto mais estratégico dessa relação comercial. A China consome cerca de 120 milhões de toneladas de soja por ano, mas produz apenas 20 milhões de toneladas internamente. O país precisa importar os outros 100 milhões de toneladas, o que significa uma dependência de cerca de 85% de fornecedores externos. O grão é a principal fonte de proteína para toda a cadeia de criação animal do país, incluindo frangos, suínos, bovinos, peixes de aquicultura e até animais domésticos. O farelo de soja alimenta centenas de milhões de animais que depois viram carne na mesa dos chineses. Sem a soja brasileira, a segurança alimentar da China entraria em colapso.

O Brasil forneceu também 84,78% de todo o açúcar importado pela China em 2025. A China consome entre 15 e 16 milhões de toneladas de açúcar por ano, mas produz apenas cerca de 10 milhões de toneladas internamente. O país precisa importar entre 5 e 6 milhões de toneladas para fechar a conta, e o Brasil domina esse mercado de forma quase absoluta.

Na carne bovina congelada, a fatia brasileira chegou a 56,10% das importações chinesas. A China consome cerca de 10,7 milhões de toneladas de carne bovina por ano, mas produz apenas 7,8 milhões de toneladas internamente. O país precisa importar cerca de 2,9 milhões de toneladas para suprir a demanda, o que representa quase 30% do consumo total. O rebanho bovino chinês não consegue acompanhar uma classe média em expansão que quer comer mais carne vermelha.

A celulose brasileira também ocupa posição de destaque nas compras chinesas. O Brasil respondeu por 31,41% de toda a celulose importada pela China em 2025. A celulose é a matéria-prima básica para a fabricação de papel, papelão, embalagens, fraldas descartáveis, tecidos sintéticos e dezenas de outros produtos industriais. A China é o maior produtor mundial de papel, mas não tem florestas suficientes para abastecer suas fábricas. No caso da celulose de fibra longa, usada em papéis mais resistentes, a China importa mais de 95% do que consome. Na celulose de fibra curta, como a de eucalipto exportada pelo Brasil, a dependência de importações chega a 60%.

O Brasil respondeu ainda por 21,89% do minério de ferro importado pela China. No petróleo bruto, a participação brasileira alcançou 8,12%, colocando o país entre os cinco maiores fornecedores do produto para Pequim.

Antes de avançar nos números gerais, vale explicar uma distinção importante.

O comércio exterior se divide em duas categorias. O que se convencionou chamar de “bens” são produtos físicos, como soja, automóveis, microchips, minério de ferro e petróleo.

Serviços são transações intangíveis, como turismo, assinaturas de streaming, consultorias, royalties de propriedade intelectual e intercâmbios acadêmicos. Quando um brasileiro viaja para os Estados Unidos e gasta dinheiro em Orlando, isso entra na balança de serviços como uma importação brasileira de turismo americano.

Para dimensionar o tamanho do comércio chinês, a comparação com Estados Unidos e Brasil oferece uma régua útil.

A corrente de comércio de bens e serviços da China alcançou US$ 7,237 trilhões em 2025. Desse total, US$ 6,355 trilhões correspondem ao comércio de bens e US$ 882 bilhões ao comércio de serviços.

Lembrando: corrente de comércio é a soma de exportações mais importações.

Os Estados Unidos registraram uma corrente de US$ 7,762 trilhões, sendo US$ 5,587 trilhões em bens e US$ 2,175 trilhões em serviços.

O Brasil, por sua vez, movimentou US$ 790 bilhões, com US$ 629 bilhões em bens e US$ 161 bilhões em serviços.

Os americanos ainda lideram a corrente de comércio mundial de bens e serviços em valor absoluto, mas a diferença encolhe a cada ano. Entre 2017 e 2025, a corrente de comércio chinesa cresceu 55,99%, contra 46,29% dos Estados Unidos. O Brasil avançou 62,22% no mesmo período.

Em exportações de bens, a China já ultrapassou os Estados Unidos com folga. Os chineses venderam US$ 3,772 trilhões ao mundo em 2025, contra US$ 2,157 trilhões dos americanos. A China exporta 75% mais que os Estados Unidos.

A China acumulou um superávit (exportação menos importação) de US$ 1,189 trilhão em bens durante 2025, o maior da história do país. Mesmo com um déficit de US$ 196 bilhões em serviços, o saldo combinado de bens e serviços ficou positivo em US$ 807 bilhões.

Os Estados Unidos operam no sentido inverso. O país registrou um déficit de US$ 1,273 trilhão em bens, parcialmente compensado por um superávit de US$ 332 bilhões em serviços. O saldo combinado ficou negativo em US$ 960 bilhões.

Os americanos consomem quase US$ 1 trilhão a mais do que produzem a cada ano.

O Brasil vive uma situação de equilíbrio. O superávit de US$ 68 bilhões em bens, no ano passado, foi praticamente anulado pelo déficit de US$ 54 bilhões em serviços. O saldo combinado de bens e serviços ficou em apenas US$ 340 milhões positivos em 2025.

Os Estados Unidos acumulam déficit com quase todos os seus principais parceiros comerciais. O maior rombo bilateral ocorre justamente com a China, onde os americanos registraram um saldo negativo de US$ 208 bilhões em bens e serviços durante 2025.

O México vem em segundo lugar, com déficit de US$ 192 bilhões. Vietnã, União Europeia e Taiwan completam a lista dos cinco maiores buracos na balança americana.

O Brasil aparece na contramão dessa tendência. Os Estados Unidos registraram um superávit de US$ 33,3 bilhões com o Brasil em 2025, considerando bens e serviços. Esse resultado coloca o Brasil como o segundo país com o qual os americanos mais lucram no comércio internacional, atrás apenas da Holanda, que gerou superávit de US$ 78,7 bilhões para Washington.

A relação comercial entre Brasil e Estados Unidos beneficia claramente os americanos. O Brasil compra mais serviços dos Estados Unidos do que vende. Compra tecnologia, paga royalties, assina streaming, viaja para Orlando. O superávit americano em serviços com o Brasil alcançou US$ 24,6 bilhões em 2025.

A geografia do comércio chinês passou por uma reconfiguração importante entre 2017 e 2025.

A ASEAN ganhou espaço de forma acelerada. O bloco do Sudeste Asiático representava 12,55% da corrente de comércio chinesa em 2017 e saltou para 16,59% em 2025, um avanço de 4,04 pontos percentuais. O Vietnã sozinho já responde por 4,66% de todo o comércio exterior da China.

Os países do BRICS ampliado também aumentaram sua participação. O grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, África do Sul, Emirados Árabes, Irã, Egito, Etiópia e Arábia Saudita passou de 10,66% em 2017 para 13,80% da corrente comercial chinesa no ano passado.

Os Estados Unidos percorreram o caminho oposto. A participação americana na corrente de comércio da China caiu de 14,21% em 2017 para 8,81% em 2025, uma queda de 5,40 pontos percentuais.

O desacoplamento entre as duas maiores economias do mundo acelerou no último ano. Entre 2024 e 2025, a corrente de comércio entre China e Estados Unidos despencou 18,68%.

A radiografia do comércio chinês em 2025 mostra um país no auge de sua capacidade exportadora. A China bate recordes de superávit enquanto os Estados Unidos afundam em déficit.

O Brasil consolidou sua posição como fornecedor de itens de importância estratégica, existencial, para a China.

Essa condição de exportador de commodities costuma ser vista com desconfiança por economistas que valorizam a industrialização como único caminho para o desenvolvimento.

Mas o Brasil está transformando o próprio modelo de exportação de commodities em algo inédito.

A escala global das operações brasileiras, o impressionante market share conquistado em dezenas de países, a diversificação em múltiplos produtos, e o foco em itens essenciais para a segurança alimentar, energética e de infraestrutura das nações, tudo isso confere ao Brasil um tipo de poder geopolítico que ainda não foi devidamente compreendido.

Os dados trazidos por este artigo são do Comexstat (Brasil), US Census Bureau, e Alfândega Chinesa.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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