O governador Elmano de Freitas chega a 2026 com 57,2% de aprovação no Ceará, segundo a pesquisa mais recente da Paraná Pesquisas, realizada entre 16 e 21 de janeiro. É uma oscilação positiva de um ponto em relação a dezembro — e um patamar historicamente confortável. Governadores que se aproximam de 60% de aprovação raramente perdem uma disputa pela permanência no cargo.
Ainda assim, as pesquisas eleitorais não refletem, por ora, o favoritismo que se esperaria de um governo tão bem avaliado. Tanto a Ipsos-Ipec de dezembro quanto a Paraná Pesquisas de janeiro mostram Ciro Gomes, hoje no PSDB, à frente na estimulada, com algo em torno de 44%, contra 34% de Elmano.
A explicação mais plausível é simples: apesar da boa avaliação, Elmano ainda não é plenamente conhecido por todo o eleitorado. Está no primeiro mandato e, antes de assumir o governo, tinha um perfil discreto no cenário estadual.
Segundo a pesquisa Ipsos-Ipec (de dezembro), 81% dos eleitores que votaram em Elmano em 2022 aprovam seu governo, e 91% dos que aprovam dizem que votariam nele novamente. Os dados mostram, portanto, que Elmano mantém forte apoio de seus próprios eleitores, o que é um fator determinante para levar adiante uma campanha bem sucedida.
Se a regra empírica de que aprovação tende a se converter em voto se confirmar, Elmano tem, inclusive, chance real de repetir a vitória em primeiro turno.
Na pesquisa espontânea da Paraná Pesquisas, Ciro aparece com 15%, contra 12,3% de Elmano. Mas quando se somam os 4% atribuídos a Camilo Santana, o campo governista chega a 16%, caracterizando empate técnico. Na estimulada, nota-se uma movimentação favorável a Elmano, ainda que sutil: entre dezembro e janeiro, Ciro recuou de 46% para 44,8%, enquanto Elmano avançou de 33,2% para 34,2%.
Quando a campanha ganhar temperatura, no segundo semestre, Elmano terá ao seu lado nomes de grande peso eleitoral no Ceará, como o presidente Lula, o ministro Camilo Santana, o senador Cid Gomes, que já declarou apoio explícito à reeleição, e o prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão. Cid, aliás, não fala apenas por si. Seu grupo político é amplo e capilarizado.
O PSB, partido ao qual está filiado, governa 65 prefeituras, que somam cerca de 1,95 milhão de habitantes.
O PT administra outras 47 prefeituras, alcançando aproximadamente 3,98 milhões de habitantes. No total, o Ceará tem 9,27 milhões de moradores, dos quais 6,94 milhões são eleitores registrados. Vale lembrar que Elmano venceu as eleições de 2022 no primeiro turno, com 2,8 milhões de votos.
Na Assembleia Legislativa, sua base é amplíssima: 36 dos 46 deputados estaduais. A oposição se resume a apenas 10 parlamentares.
Tanto o PSB (cujo presidente estadual é Euder Santana, o pai de Camilo Santana) quanto o PT apoiam formalmente o governo Elmano.
Já o PSDB, atual partido de Ciro Gomes, governa apenas duas prefeituras, com população estimada em 142.428 habitantes.
Mesmo em partidos de direita que eventualmente podem apoiar Ciro, há fissuras evidentes. O deputado federal Moses Rodrigues, o mais votado do União Brasil no estado, já se comprometeu publicamente com Elmano. Ou seja, ainda que o União Brasil declare apoio a Ciro, parte relevante de sua base deve trabalhar pelo governador.
Ciro, por sua vez, encontra-se recluso há meses. Quase não se manifesta nas redes sociais, participa apenas de reuniões fechadas e concede raríssimas entrevistas — sempre breves e em ambientes controlados. Em um período marcado por tanta turbulência política no Brasil e no mundo, o silêncio de Ciro Gomes é ensurdecedor.
O tarifaço político de Donald Trump, as tentativas de intimidação às instituições brasileiras, o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em flagrante violação do direito internacional, as ameaças ao México, a Cuba, ao Canadá e à Dinamarca, a prisão de Jair Bolsonaro e a ofensiva da extrema direita por uma anistia inconstitucional aos golpistas de 8 de janeiro — sobre tudo isso, Ciro não disse uma palavra.
Em um dos momentos mais tensos e perigosos da política internacional recente, o ex-governador opta pelo mutismo. Para muitos eleitores, isso pode soar como oportunismo ou covardia, já que qualquer posicionamento mais firme poderia desagradar seus novos aliados na extrema direita.
Os números de 2022 ajudam a dimensionar o tamanho do desafio de Ciro. No primeiro turno presidencial, Ciro obteve apenas 6,8% dos votos no Ceará. Lula alcançou 65,91%, e Bolsonaro ficou com 25,38%. Seu candidato ao governo estadual, Roberto Cláudio, então prefeito de Fortaleza, teve apenas 14,14%, enquanto Elmano venceu no primeiro turno, com 54,02%.
Em Sobral, reduto histórico da família Gomes, Ciro ficou em terceiro lugar, com 18,46%, contra cerca de 55% de Lula e 25% de Bolsonaro. Em Fortaleza, a sequência de derrotas continuou. Sarto, aliado e então correligionário (ambos no PDT) de Ciro e então prefeito, terminou a eleição municipal de 2024 em um distante terceiro lugar, com 11,75%, sem sequer chegar ao segundo turno — um feito inédito na história da cidade. André Fernandes, apoiado de forma velada pelo grupo cirista, perdeu o segundo turno para Evandro Leitão.
O discurso hiperbólico de Ciro, segundo o qual o PT estaria “destruindo o Ceará”, também não resiste à confrontação com os dados. O PIB cearense cresceu 6,49% em 2024, quase o dobro do crescimento nacional (3,4%) — o melhor resultado do estado desde 2010. A indústria cearense avançou 10,65% no mesmo ano, um desempenho muito superior ao da indústria brasileira, que cresceu cerca de 3,1% em 2024, segundo o IBGE. O resultado no Ceará foi puxado sobretudo pelos setores têxtil, metalúrgico e calçadista, impulsionados por investimentos produtivos, expansão do crédito e políticas públicas de estímulo à atividade industrial.
Em 2025, o ciclo de crescimento se mantém no agregado da economia. No acumulado de janeiro a setembro, o PIB do Ceará cresceu 2,96%, desempenho superior ao da economia brasileira no mesmo período. Os dados indicam uma desaceleração natural após o salto excepcional de 2024, mas confirmam que o estado segue crescendo acima da média nacional
Na educação, outro pilar histórico do Ceará, os indicadores seguem fortes. O governo Lula autorizou a implantação de um campus do ITA na Base Aérea de Fortaleza, com início das atividades previsto para 2027 — hoje, cerca de 40% dos alunos do ITA em São José dos Campos são cearenses. As escolas de tempo integral continuam em expansão.
Resta a Ciro a exploração da segurança pública. O Ceará, de fato, registrou uma das maiores taxas de homicídio do país em 2024. Mas os dados de 2025 mostram inversão da tendência, com queda de 7,7% nos crimes violentos letais no estado e de 11% em Fortaleza. A sensação de insegurança é um fenômeno nacional, mas os números objetivos começam a melhorar no Ceará.
Há também a relação conflituosa de Ciro com o bolsonarismo. No início das articulações de sua pré-campanha, ele levou uma chinelada antológica de Michelle Bolsonaro, que resultou na suspensão imediata, por tempo indeterminado, de qualquer tentativa de aliança com o PL. Mais tarde, lideranças bolsonaristas fizeram saber que, para a aliança avançar, Ciro teria de pedir desculpas por tudo o que disse sobre Jair Bolsonaro e sua família — um gesto de humilhação pública, com elevado custo político para sua imagem.
Quando Flávio Bolsonaro subir aos palanques em Fortaleza, Ciro terá de beijar sua mão. Para um eleitorado majoritariamente refratário ao radicalismo reacionário da extrema direita, a imagem de um candidato a governador associado a esse campo pode ser difícil de engolir.
O silêncio recente de Ciro diante dos grandes temas nacionais e internacionais, além disso, tende a cobrar seu preço quando a campanha esquentar. As contradições se acumulam e prometem tumultuar a comunicação do núcleo cirista, reproduzindo o esvaziamento observado em 2022. Não foi apenas a polarização que levou a resultados tão desastrosos para Ciro naquele ano, mas uma campanha confusa, agressiva e contraditória.
O lado mais irônico é que Ciro desenvolveu, nos últimos anos, um talento notável para produzir rejeição. A militância que o cerca tornou-se sectária, agressiva e incapaz de dialogar — afasta mais eleitores do que conquista. O Ciro de 2018, que mobilizava a classe média “ilustrada” e tinha apoio de artistas e intelectuais progressistas, já não existe. Hoje temos um candidato movido a ressentimento e truculência, razão pela qual agrada muitos bolsonaristas.
Ele também enfrentará dificuldades para atrair prefeitos, já que a maioria está alinhada a Elmano ou ao grupo de Cid Gomes.
Ivo Gomes, ex-prefeito de Sobral, e um de seus irmãos com alguma influência eleitoral, deixou claro em entrevistas recentes que jamais apoiará bolsonaristas e que se considera uma pessoa de esquerda — um sinal eloquente das fraturas internas. Sua outra irmã, Lia Gomes, é secretária no governo Elmano.
Paradoxalmente, a candidatura de Ciro pode acabar beneficiando Elmano. Ela introduz uma nova clivagem na disputa: expor as contradições de um personagem muito conhecido pelo eleitor cearense. O Ciro que construiu sua imagem como progressista combativo, enfrentando a direita reacionária e atacando duramente a família Bolsonaro, tornou-se uma outra pessoa.




BRUNO
26/01/2026 - 17h16
Belo artigo, produzido pelo diretório do PT.