A economia argentina voltou a encolher, poucos meses depois de um resgate financeiro de dezenas de bilhões de dólares articulado com o governo dos Estados Unidos e o Fundo Monetário Internacional. Para o economista político Ben Norton, o resultado confirma o fracasso do projeto libertário — ou “anarco-capitalista” — do presidente Javier Milei.
Segundo Norton, a Argentina vive um processo acelerado de desindustrialização. A indústria local está sendo devastada pela “terapia de choque” de livre mercado promovida por Milei — um desfecho previsível, já que foi exatamente o que ocorreu com a imposição de reformas neoliberais patrocinadas por Washington na América do Sul durante a “década perdida” dos anos 1980, quando a região sofreu uma profunda destruição de sua base industrial.
Hoje, afirma Norton, os únicos setores que apresentam crescimento na Argentina são os extrativos e financeirizados: a agricultura de monocultura voltada à exportação, concentrada nas mãos de grandes proprietários rurais; a mineração, dominada por multinacionais; e o setor financeiro, impulsionado por especulação e pela entrada de capital estrangeiro de curto prazo, o chamado “hot money”, que costuma deixar o país rapidamente em momentos de instabilidade.
Na prática, diz o economista, o libertarianismo de Milei está transformando a Argentina em uma colônia de recursos naturais a serviço do capital estrangeiro — em linha com uma política externa alinhada aos Estados Unidos e marcada por forte subordinação política à Casa Branca.
Os dados oficiais mais recentes reforçam esse diagnóstico. A economia argentina contraiu pelo segundo mês consecutivo em novembro, após uma eleição legislativa de meio de mandato marcada por forte turbulência política e financeira. A atividade econômica recuou 0,3% em relação a outubro, informou nesta quarta-feira o instituto oficial de estatísticas, o INDEC, depois de uma queda de 0,4% registrada no próprio mês de outubro. Na comparação com novembro do ano anterior, a retração também foi de 0,3%, resultado muito abaixo da estimativa mediana de crescimento de 2% projetada por economistas ouvidos pela Bloomberg.
Pesca, indústria de transformação e comércio varejista lideraram a queda na comparação anual. Por outro lado, agricultura, mineração e serviços financeiros registraram crescimento — exatamente os setores apontados por Norton como os únicos beneficiados pelo atual modelo econômico.
O Partido Libertário de Javier Milei conseguiu se recuperar de uma derrota severa sofrida em setembro nas eleições da província de Buenos Aires e conquistou uma vitória esmagadora nas legislativas de meio de mandato. Ainda assim, os ativos argentinos despencaram nas sete semanas que antecederam a votação de 26 de outubro, à medida que investidores apostavam que os eleitores infligiriam uma nova derrota contundente ao presidente.
Um elemento central para a reversão desse cenário foi uma linha de socorro financeiro dos Estados Unidos, que intervieram para sustentar o peso argentino por meio de um acordo de swap cambial. Esse mecanismo foi quitado pela Argentina no início deste mês.
Para Jimena Zuniga, economista da Argentina na Bloomberg Economics, os dados recentes indicam riscos crescentes de estagflação. “Junto com os números mais recentes de inflação, os dados de atividade sugerem que riscos de estagflação estão obscurecendo o que esperávamos ser um 2026 mais promissor”, afirmou. Segundo ela, a combinação de atividade mais fraca e inflação mais elevada não é, por si só, catastrófica nem necessariamente suficiente para comprometer a trajetória rumo a uma macroeconomia mais estável e a um crescimento mais sustentável. O principal risco, porém, é político: a possibilidade de erosão da confiança pública no governo e de questionamentos sobre a sustentabilidade política do programa de Milei.
Outros indicadores reforçam o quadro de enfraquecimento. Dados divulgados na semana passada mostram que a volatilidade pré-eleitoral continuou a afetar a economia argentina no mês seguinte à votação. O setor da construção registrou em novembro sua maior queda mensal do ano, enquanto a indústria de transformação também desacelerou. Esses setores haviam acelerado em setembro e outubro, numa tentativa de se antecipar a uma possível desvalorização do peso após a eleição, o que deixou novembro especialmente fraco.
“Isso estava dentro do que esperávamos. Novembro foi um mês ruim em termos de atividade”, disse Federico González Rouco, economista-chefe da consultoria Empiria, em Buenos Aires. “Mas também acho que isso é mais estrutural. A economia ficou estagnada o ano inteiro. Se 2025 acabar mostrando crescimento, será por efeito estatístico de carregamento, e isso está ficando claro.”
Nos últimos 11 meses, a economia argentina registrou contração mensal em cinco deles e estagnação em outros dois.

Enquanto isso, a inflação mensal acelerou mais do que o esperado em dezembro, chegando a 2,8%, puxada principalmente por carne bovina, tarifas de ônibus e contas de energia elétrica. Para 2026, economistas consultados pelo Banco Central projetam desaceleração da inflação para 20,1% e crescimento econômico de 3,5%.


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