Dentre as idiotices vomitadas por Donald Trump em seu discurso em Davos, talvez a mais grotesca tenha sido a afirmação de que a energia verde é uma “picaretagem”. Trata-se de uma frase que até poderia soar menos absurda quinze ou vinte anos atrás, quando as energias renováveis ainda não haviam atingido o nível de eficiência e escala atual. Hoje, porém, essa fala não é apenas ignorante: ela é deliberadamente negacionista.
Não existe, neste momento, nada mais revolucionário, lucrativo e promissor do que as energias verdes — em especial a solar. A própria dinâmica do capitalismo global já resolveu essa questão. Tanto é assim que Elon Musk costuma repetir que a energia solar não é apenas uma forma de energia: é a forma de energia.
Enquanto Trump faz discursos delirantes, próprios de quem perdeu qualquer noção de onde o galo canta, a China segue na direção oposta. Sem retórica vazia, o país promove uma virada radical rumo à energia solar. O resultado é concreto: a China encerrou 2025 com cerca de 1,2 bilhão de quilowatts de capacidade solar instalada. Para efeito de comparação, o segundo colocado no ranking mundial, os Estados Unidos, têm algo em torno de 190 milhões de quilowatts. No mundo inteiro, a capacidade solar instalada gira em torno de 2,6 bilhões de quilowatts, o que significa que quase metade de toda a energia solar do planeta está concentrada na China. Em alguns meses de 2025, a soma da geração eólica e solar já respondeu por mais de um quarto de toda a eletricidade consumida no país. Não se trata de discurso ambientalista, mas de escala industrial, redução de custos e planejamento estratégico.
É nesse contexto que se insere a nova aposta de Elon Musk. A fusão da xAI com a SpaceX não é um movimento financeiro lateral, nem um gesto performático. Ela aponta para uma estratégia de longo prazo voltada a resolver o principal gargalo da inteligência artificial: energia.
Musk vem insistindo que os data centers terrestres não conseguirão sustentar, sozinhos, a expansão da IA. O problema não é apenas o custo da eletricidade, mas também o impacto ambiental, o uso intensivo de água para resfriamento e os conflitos com comunidades locais. A alternativa que ele propõe é deslocar a infraestrutura central da inteligência artificial para o espaço.
Na prática, isso significa instalar data centers em satélites, alimentados por energia solar captada fora da atmosfera. No espaço não há noite, nuvens ou estações do ano. Painéis solares podem operar de forma contínua, enquanto os sistemas computacionais ficam posicionados na sombra, resfriados naturalmente pelo vácuo — sem consumo de água e sem gasto adicional de energia com refrigeração.
Segundo o próprio Musk, um painel solar no espaço pode produzir até cinco vezes mais energia do que o mesmo painel em solo terrestre. E, ao contrário da Terra, o espaço oferece escala praticamente ilimitada. É por isso que a SpaceX já protocolou pedidos para lançar até um milhão de satélites, formando uma grande infraestrutura orbital dedicada à computação e à inteligência artificial.
Se esse projeto avançar, a infraestrutura estratégica da IA deixará de estar concentrada em territórios nacionais e passará a orbitar o planeta. Isso impõe um desafio político novo: a ausência quase total de regras internacionais para regular o uso econômico e tecnológico do espaço próximo à Terra.
É uma pena que Elon Musk seja um personagem tão contraditório. O político que ele apoia — o Calígula do Norte, leia-se Donald Trump — é abertamente anti-moderno, hostil à ciência e contrário às energias verdes. Sob essa orientação, o governo dos Estados Unidos vem promovendo desinvestimentos pesados em energia solar, energia eólica e baterias, prejudicando a própria economia americana e atrasando sua transição energética. Trata-se de uma agenda que caminha na direção oposta à lógica produtiva e tecnológica defendida pelo próprio Musk. Essa contradição parece resultar menos de cálculo econômico e mais de uma obsessão com o discurso reacionário.
Enquanto a extrema direita tenta sabotar a transição energética em nome de um passado fóssil idealizado, os setores mais avançados do capitalismo — muitos deles, inclusive, financiadores desse mesmo campo político — apostam justamente na energia verde como base da próxima etapa da revolução tecnológica. A inteligência artificial, ao que tudo indica, vai mesmo se aproximar do Sol.

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