Menu

A virada antissistema de Lula

O discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ontem, na cerimônia de abertura do Ano Judiciário de 2026, explicitou uma decisão política já em curso no governo. Lula resolveu assumir o discurso antissistema como eixo central da sua estratégia política e eleitoral, direcionando essa crítica aos verdadeiros pilares do sistema de poder no Brasil, […]

sem comentários
Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News
03.02.2026 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante apresentação de cartas credenciais do Embaixador da República da Colômbia, Alfredo Rafael Saade Vergel, no Palácio do Planalto. Brasília - DF. Fotos: Ricardo Stuckert / PR

O discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ontem, na cerimônia de abertura do Ano Judiciário de 2026, explicitou uma decisão política já em curso no governo. Lula resolveu assumir o discurso antissistema como eixo central da sua estratégia política e eleitoral, direcionando essa crítica aos verdadeiros pilares do sistema de poder no Brasil, o mercado financeiro, os grandes grupos econômicos e as elites que moldam o Estado em benefício próprio.

A aposta de Lula é colar em seus adversários, especialmente o bolsonarismo e seus principais porta-vozes, a marca do sistema. Um sistema que não se confunde com instituições democráticas, mas com a defesa dos interesses dos muito ricos, da financeirização da economia e da concentração extrema de renda. O discurso antissistema passa a significar enfrentamento direto aos privilégios e às hierarquias econômicas que estruturam o poder no país.

O bolsonarismo construiu sua identidade política explorando ressentimento social e desconfiança em relação à política tradicional. Ao chegar ao poder, governou aliado ao centrão, aprofundou a financeirização da economia e preservou intocados os privilégios do topo da pirâmide. Lula pretende explorar essa contradição de forma direta. A extrema direita se apresentou como antissistema enquanto operava como representante fiel do sistema financeiro, do grande capital e das elites rentistas.

Nos últimos anos, o governo já havia iniciado a recuperação de outra bandeira histórica da esquerda, a soberania nacional. A hostilidade externa, combinada às articulações internacionais do bolsonarismo, devolveu ao campo progressista um discurso nacionalista que sempre lhe pertenceu. Agora, a estratégia é completar esse movimento, recolocando o discurso antissistema no seu sentido original, como crítica social e econômica.

O discurso no Judiciário foi um marco dessa virada. Ao tratar de segurança pública, Lula deslocou o foco do crime para o topo da estrutura social. “Magnatas do crime, que vivem no andar de cima, que não estão nas comunidades, e sim em alguns dos endereços mais nobres no Brasil e no exterior”, afirmou. A frase sintetiza a ideia de sistema que o presidente quer enfrentar, uma rede de poder econômico, político e financeiro protegida por dinheiro, influência e impunidade.

Ao falar de democracia, Lula reforçou a necessidade de instituições fortes e responsáveis. “Uma democracia sólida exige instituições confiáveis, mecanismos de prestação de contas e proteção contra abusos de poder”, disse. O alvo do discurso aparece com nitidez, grandes interesses que tentam operar acima da lei e escapar do controle público, muitas vezes sob o manto da legalidade formal.

Esse enquadramento ajuda a entender a reaproximação de Lula com setores do centro político e da grande imprensa após 2022. A polarização recente se organizou em torno de uma clivagem profunda entre modernidade e antimodernidade. O bolsonarismo se afirmou como um movimento hostil ao conhecimento científico, às vacinas, ao processo eleitoral e às urnas eletrônicas. Essa postura produziu isolamento em relação a setores que veem na ciência, na razão e nas instituições pilares da vida moderna.

Essa relação com o conhecimento expressa uma visão puramente instrumental da ciência, típica do fascismo, ontem e hoje. O conhecimento só interessa quando serve ao poder, à dominação ou à força. Quando ameaça dogmas ideológicos ou hierarquias sociais, passa a ser atacado. O fascismo histórico combinou cientificismo superficial com teorias raciais anticientíficas. O bolsonarismo atualizou essa lógica por meio do negacionismo sanitário, da desconfiança das urnas e da hostilidade ao saber especializado.

A defesa da modernidade democrática aproximou Lula de setores do centro político que compartilham esses valores. Essa convergência explica rearranjos recentes no campo democrático. O discurso no Judiciário reforçou esse pacto ao elogiar a atuação institucional do Supremo na defesa da Constituição e do processo eleitoral, sem estimular conflitos entre os Poderes.

A virada antissistema de Lula se organiza a partir desse eixo. O sistema que ele enfrenta é o dos privilégios, da financeirização excessiva e da desigualdade estrutural. O discurso passa a identificar claramente quem ganha e quem perde com esse arranjo.

É nesse registro que entram pautas como a taxação dos super-ricos e o debate sobre o fim da escala 6×1. Essas propostas deixam de aparecer como temas isolados e passam a integrar uma narrativa coerente de enfrentamento ao poder econômico concentrado. A taxação dos bilionários surge como correção de uma distorção histórica em um país onde os mais pobres pagam proporcionalmente mais impostos do que os mais ricos. A discussão sobre a jornada de trabalho dialoga com a crítica a um modelo econômico que explora o trabalho e concentra renda.

Ao assumir essa bandeira, Lula disputa o imaginário popular. O discurso antissistema deixa de ser um ataque vazio, cínico e sobretudo antidemocrático contra as instituições republicanas e passa a ser uma crítica dura aos interesses mesquinhos e egoístas que controlam o sistema real de poder. A extrema direita aparece desmascarada como aquilo que sempre foi, um movimento que finge combater o sistema enquanto ataca a democracia e a ciência, mas defende com fervor a ordem dos mais fortes, dos mais ricos e dos que mandam.

Lula aposta na recuperação do discurso antissistema como crítica social e econômica, em oposição ao uso cínico feito pela extrema direita. De um lado, o enfrentamento aos privilégios e à concentração de poder. Do outro, a defesa aberta de uma ordem baseada na força, no dinheiro e na exclusão. É essa disputa que o discurso de ontem colocou no centro do debate político.

, , ,
Apoie o Cafezinho

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

Mais matérias deste colunista
Siga-nos no Siga-nos no Google News

Comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário

Escreva seu comentário

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!


Leia mais

Recentes

Recentes