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O Rio precisa debater mais seu próprio futuro

  Na última segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026, eu estive no IFICS, o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, ali no Largo de São Francisco. A região é bonita, mas decadente, como grande parte do centro histórico do Rio de Janeiro. Na frente dos portões do instituto tem uma comunidade de mendigos. A universidade […]

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Imagem gerada por IA.

 

Na última segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026, eu estive no IFICS, o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, ali no Largo de São Francisco. A região é bonita, mas decadente, como grande parte do centro histórico do Rio de Janeiro.

Na frente dos portões do instituto tem uma comunidade de mendigos. A universidade fornece água, dá acesso ao banheiro e talvez até apoie com algum alimento. Eu fico dividido. Existe um lado humano, imediato, de não virar as costas. Mas também acho que, desse jeito, isso prejudica a universidade e não resolve o problema das próprias pessoas. A população mais pobre precisa de uma universidade limpa, funcional, com boa imagem, que imponha respeito e ofereça perspectiva. E eu sinceramente não sei se manter a cena permanente de abandono na porta do instituto ajuda alguém.

O prédio do IFICS é bonito, mas a estrutura é precária. E tem um detalhe que me incomoda muito: não tem nenhuma lanchonete dentro do prédio. Não dá nem para comprar uma água, nem um café.

E em período de férias o lugar fica meio abandonado, vazio. Eu sempre acho que seria interessante que, mesmo nas férias, o instituto fosse ocupado de alguma maneira, com atividades, cursos, qualquer coisa que mantivesse vivo aquele espaço público.

Eu fui para um evento organizado pelo Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom-UFRJ), sob coordenação geral da Mayra Goulart, para apresentar o Guia Lappcom – Eleições gerais 2026, volume 1: A estrutura da disputa e as clivagens territoriais. O volume compila resultados iniciais do monitoramento realizado ao longo de 2025 e 2026 pelo Grupo de Trabalho de Política Local do laboratório e reúne textos de alguns participantes da mesa, inclusive um artigo meu.

Participaram da mesa o economista Mauro Osório (UFRJ), o cientista político Theófilo Rodrigues, o Paulo Baía, sociólogo da UFRJ, o Henrique Silveira, subsecretário de tecnologia social da cidade do Rio, o jornalista Leandro Rezende, da CBN, e o cientista político Carlos Serrano.

Antes do evento começar, o grupo de debatedores aguardou um pouco dentro da sala do professor Michel Gherman, professor de sociologia da UFRJ, e a gente conversou ali dentro. O Michel é autor de um livro muito interessante, O não judeu judeu: A tentativa de colonização do judaísmo pelo bolsonarismo, em que ele mostra as artimanhas da extrema direita para capturar identidades e tentar reescrever tradições a seu favor.

Na minha intervenção, eu falei do incômodo de ver o Rio preso num atraso político e social que já dura décadas. Lembrei que o estado concentra quase 90% da produção nacional de petróleo e tem o segundo maior PIB do país, mas ainda assim convive com desigualdade brutal e uma classe política que, ao longo de décadas, foi se tornando predatória, com hábitos mafiosos.

E eu toquei num ponto que, para mim, é um dos principais: a falta de atenção que os próprios eleitores fluminenses e cariocas dão às lutas políticas dentro do estado do Rio de Janeiro. A gente discute muito o país, discute Brasília, discute o barulho nacional, mas não olha com a mesma seriedade para o Rio como projeto.

Nesse ponto eu fiz a comparação com o Ceará, um estado que eu acompanho muito. Eu considero que lá existe um ecossistema de comunicação e discussão política muito mais sofisticado. Tem podcasts especializados em política cearense, tanto no jornalismo corporativo quanto nos meios independentes. As pessoas discutem o Ceará. Existe uma conversa pública mais permanente sobre o estado, seus rumos e seus conflitos.

Aqui no Rio, muitas vezes, a gente vive esse vazio. E, se a gente quiser mudar o estado de coisas, a cidadania fluminense vai precisar se organizar melhor e, sobretudo, criar mais espaços de discussão.

Com a possível eleição de Eduardo Paes, abre-se uma janela de oportunidade para o Rio iniciar uma nova fase, com um projeto verdadeiro de desenvolvimento e uma cidadania mais engajada. Mas eu disse no evento que não adianta o eleitor se conformar apenas em votar em Eduardo Paes e derrotar o bolsonarismo no estado do Rio. É preciso participar, oferecer propostas, se organizar, fazer pressão por ideias e por rumo.

Vou deixar o vídeo da minha fala embaixo. Eu fiz uma legenda para facilitar o acesso.

 

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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