A ofensiva militar conjunta lançada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, pretendia produzir um choque decisivo. Os ataques de precisão mataram o líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, além de comandantes da Guarda Revolucionária e quadros centrais da inteligência do regime. Em Washington e em Tel Aviv, a aposta era clara: desorganizar a cadeia de comando, paralisar a capacidade de resposta de Teerã e criar as condições para uma rápida desestabilização do poder iraniano.
Mas, segundo o cientista político Robert A. Pape, ocorreu justamente o contrário.
Em artigo publicado na revista Foreign Affairs, Pape sustenta que a reação iraniana revelou uma estratégia de guerra assimétrica capaz de transformar a vantagem militar americana e israelense em problema político. O título do texto resume sua tese: a escalada favorece o Irã porque permite a Teerã deslocar o conflito do terreno estritamente militar para uma arena mais ampla, onde entram em cena mercados, governos regionais, opinião pública e alianças internacionais.
A resposta iraniana veio poucas horas depois dos ataques iniciais. Teerã lançou centenas de mísseis balísticos e drones não apenas contra Israel, mas também em direção a áreas ligadas à presença americana no Golfo. Sirenes soaram em cidades israelenses, bases dos EUA em países como Qatar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Arábia Saudita entraram em alerta, e o conflito rapidamente ultrapassou as fronteiras do confronto bilateral entre Irã e Israel.
Para Pape, esse movimento não deve ser lido como desespero de um regime agonizante, mas como uma estratégia racional de “escalada horizontal”. Em vez de enfrentar diretamente um adversário militarmente superior, o lado mais fraco amplia o campo de batalha, multiplica focos de instabilidade e eleva o custo político da guerra para o inimigo. O objetivo não é derrotar os Estados Unidos em combate convencional. É tornar a continuação da guerra cada vez mais cara, mais arriscada e mais difícil de sustentar.
O autor identifica quatro dimensões centrais dessa estratégia. A primeira é a demonstração de resiliência: mesmo após perder sua principal liderança e parte de sua cúpula militar, o Irã respondeu com rapidez, sinalizando que sua capacidade operacional sobreviveu ao golpe. A segunda é a ampliação geográfica do conflito: ao atingir ou ameaçar países que abrigam bases americanas, Teerã transmite a mensagem de que hospedar forças dos EUA significa também importar os custos da guerra.
A terceira dimensão é a politização do conflito. Ao afetar aeroportos, propriedades comerciais, cadeias logísticas e rotas de energia, o Irã desloca a guerra para dentro da vida econômica e institucional do Golfo. O conflito deixa de ser assunto apenas de militares e passa a pressionar investidores, parlamentos, companhias de seguro, governos locais e populações civis. A quarta dimensão é o tempo. Para Pape, quanto mais a guerra se prolongar, maior será a chance de que interesses divergentes entre aliados dos Estados Unidos, tensões domésticas nos países da região e desgaste interno em Washington passem a pesar mais do que a superioridade militar inicial.
Os precedentes históricos
Pape recorre a dois precedentes históricos para sustentar sua análise. O primeiro é a Guerra do Vietnã. Mesmo depois de despejar um volume colossal de bombas sobre o Vietnã do Norte, os Estados Unidos não conseguiram quebrar a capacidade política do inimigo. A ofensiva do Tet, em 1968, mostrou que a guerra podia ser ampliada para o centro da vida política sul-vietnamita e para o imaginário americano, alterando o rumo do conflito sem que Washington tivesse perdido sua superioridade material.
O segundo exemplo é a campanha da OTAN na Guerra do Kosovo. A aliança iniciou os bombardeios acreditando que ataques de precisão forçariam rapidamente a rendição sérvia. O efeito foi outro: Belgrado intensificou a limpeza étnica, agravou a crise humanitária e impôs aos europeus e aos americanos um custo político muito maior do que o previsto. A vitória veio, mas não pela simples eficácia dos bombardeios. Exigiu tempo, gestão de alianças e ameaça de ofensiva terrestre.
A analogia com o presente é direta. O que Pape procura mostrar é que poder aéreo, por mais sofisticado que seja, não resolve por si só o problema político da guerra. Ataques de precisão podem produzir impacto tático extraordinário, mas também podem empurrar o adversário para formas indiretas de resposta, nas quais a disputa deixa de ser travada apenas no campo de batalha e passa a envolver resistência, desgaste e capacidade de prolongar a crise.
É exatamente isso, segundo ele, que o Irã tenta fazer agora. Ao ameaçar o Estreito de Ormuz, elevar o custo dos seguros marítimos, perturbar o tráfego aéreo e atingir a imagem de estabilidade de cidades como Dubai e Doha, Teerã pressiona um ponto sensível da ordem regional: a associação entre segurança militar americana e prosperidade econômica do Golfo. Se essa associação começa a ruir, a guerra passa a produzir efeitos muito além dos danos físicos imediatos.
Pape também chama atenção para os riscos políticos internos dos próprios Estados Unidos. Um ataque repentino pode inicialmente consolidar apoio presidencial, mas uma guerra prolongada, marcada por alta do petróleo, baixas americanas e falta de objetivo claro, tende a corroer o consenso doméstico. Isso é ainda mais delicado num momento em que parte importante da base de Donald Trump demonstra fadiga com intervenções no Oriente Médio e desconfiança em relação ao alinhamento automático com Israel.
Na avaliação do autor, Washington enfrenta agora um dilema sem solução confortável. A primeira opção é intensificar a campanha militar, tentando restabelecer domínio total do espaço aéreo iraniano e neutralizar suas capacidades de lançamento. Mas isso pode arrastar os EUA para um conflito de longa duração, semelhante ao modelo de contenção agressiva aplicado ao Iraque nos anos 1990. A segunda opção é declarar que os objetivos foram cumpridos e recuar, aceitando o desgaste político imediato de parecer ter deixado a operação inacabada.
A conclusão de Pape é dura: o ataque inicial pode ter resolvido um problema tático, mas criou um problema estratégico maior. A guerra entrou agora em sua fase verdadeiramente decisiva, não com o primeiro bombardeio, mas com a crise regional que veio em seguida. O que está em jogo já não é apenas a capacidade de destruir alvos, e sim a capacidade de suportar as consequências políticas de uma guerra em expansão.
Robert A. Pape é professor de Ciência Política da University of Chicago e diretor do Chicago Project on Security and Threats. Especialista em coerção militar, terrorismo e segurança internacional, tornou-se conhecido por livros como Bombing to Win, Dying to Win e Cutting the Fuse, obras nas quais analisa os limites do poder aéreo e das estratégias militares de coerção.


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