
Por Rollo — Ator e trabalhador da cultura. Escreve do lugar de quem cresceu olhando para a Lua como poesia, fé e presença — e hoje observa, com ironia, o momento em que ela vira território, recurso e negócio. Entre um ensaio e outro, acompanha essa virada: do luar que inspirava serenata à Lua que agora entra em disputa, com contrato, estratégia e pretensão de dono.
Tem gente que ainda olha pra Lua pra fazer pedido. Outros já estão fazendo orçamento. Entre a promessa sussurrada no escuro e o contrato bilionário assinado à luz do dia, talvez a pergunta mais incômoda não seja quem vai chegar lá primeiro — mas quem já estava lá antes de todo mundo perceber.
Durante séculos, a humanidade olhou para a Lua e disse: te amo. Disse em verso, em música, em oração. Disse olhando da janela, do sertão, da beira do mar. Disse com medo, com desejo, com delírio. No Brasil, foi mais direto: ali mora São Jorge. E isso muda tudo. Porque enquanto os gringos viam cratera, o Brasil viu santo, cavalo e dragão. Enquanto a ciência via rocha, a cultura popular viu presença. A Lua aqui nunca foi só astro. Foi morada, foi território simbólico ocupado há séculos. E ocupado antes de qualquer carimbo, antes de qualquer tratado internacional, antes de qualquer foguete sair do chão.
São Jorge chegou primeiro. Sem edital, sem licitação, sem Canva ou powerpoint. Antes da NASA, antes de Donald Trump, antes de qualquer programa espacial, o povo brasileiro já tinha resolvido a questão com a eficiência que só a imaginação coletiva tem: a Lua não está vazia, a Lua tem dono simbólico. E esse dono não cobra em dólar, não cobra em criptomoeda, não cobra em royalties de mineração. Cobra em vela acesa, promessa paga, fé sustentada. E enquanto a ciência mede, a cultura ocupa. E ocupa melhor. Georges Méliès, ilusionista francês e primeiro grande mentiroso honesto da história do cinema, resolveu a viagem espacial com um canhão. Em 1902, em “Viagem à Lua”, ele pega um grupo de cientistas com cara de mágicos, enfia dentro de uma cápsula e dispara direto no olho da Lua. Sem cálculo orbital, sem combustível, sem engenharia aeroespacial. Só imaginação, cenografia e coragem estética. E acertou. Não a Lua física, mas a nossa cabeça. A imagem da cápsula cravada no olho lunar continua sendo mais poderosa do que qualquer transmissão em alta definição da NASA. E isso diz muito. Porque antes mesmo da ciência chegar lá, a arte já tinha ocupado. Já tinha dado forma, rosto, expressão à Lua. Já tinha humanizado o que a ciência ainda tratava como objeto distante.
Mas Méliès não estava sozinho nesse diagnóstico. William Shakespeare, séculos antes, já tinha entendido o problema. Em “Romeu e Julieta”, ela pede que ele não jure pela Lua, porque ela é inconstante, muda de fase, não sustenta promessa. Em “Sonho de uma Noite de Verão”, a Lua vira cúmplice da confusão, do desejo sexual desregulado, da troca de identidades. Em “Rei Lear”, ela participa do colapso, da desordem do mundo. Shakespeare não romantiza a Lua. Ele desconfia dela. Ele entende que a Lua é instabilidade. É gatilho. É licença para o caos. E ainda assim, a gente continuou jurando amor sob o luar. Talvez porque a Lua sempre teve esse outro lado, mais antigo, mais animal, mais difícil de domesticar. A Lua puxa maré, puxa cabelo, unha, planta, peixe. Puxa ciclo, puxa comportamento. E quem nasceu com o cu virado pra Lua sabe disso, pura sorte! A Lua regula o invisível. Antes de qualquer ciência, já se dizia que a Lua cheia mexia com os nervos, com o sono, com a cabeça. E, claro, com o mito mais honesto de todos: o lobisomem. A cada Lua cheia, o humano vira bicho. Não é metáfora sofisticada. É diagnóstico direto. Caetano Veloso já descreveu em “Pecado Original”: “Todo homem, todo lobisomem/Sabe a imensidão da fome/Que tem de viver/Todo homem sabe que essa fome/É mesmo grande/Até maior que o medo de morrer”
A Lua nunca foi neutra. Nunca foi só bonita.
E aí chega o século XX e entrega o auge da contradição: o homem pisa na Lua. Ou não pisa. Porque até hoje tem gente que jura que aquilo foi filmado em estúdio hollywoodiano. E veja que ironia: a maior conquista científica da humanidade disputa credibilidade com o truque de câmera de um mágico de 1902. A teoria da conspiração, no fundo, é só isso: quando a realidade não consegue competir com a potência da ficção. Enquanto isso, na música, a Lua segue trabalhando: na música internacional, ela é funcional. Em “Fly Me to the Moon”, ela é desejo projetado. Em “Bad Moon Rising”, é presságio de desastre. Em “Moonlight Serenade”, é nostalgia bem comportada, quase decorativa. E quando Michael Jackson desliza no Moonwalk, aí a Lua deixa de ser só metáfora e vira gesto — movimento impossível que simula andar pra frente enquanto se vai pra trás, como a própria ideia de progresso que a Lua sempre carregou. A Lua lá fora cumpre função estética específica, organizada, quase industrial: ora cenário, ora símbolo, ora coreografia — sempre produto bem acabado para consumo global.
Na música brasileira, não. Aqui a Lua não é cenário. É personagem — ativa, opinativa, quase autora das situações. Em “Luar do Sertão”, ela não apenas ilumina: organiza a memória, ancora a identidade, transforma saudade em território. Em “Lua de São Jorge”, deixa de ser astro e vira entidade protetora, presença concreta que vigia, guia e ampara. Em “Dança da Lua, a Lua conduz o jogo, puxa o corpo para o movimento, reinstala o encantamento popular como se ainda fosse possível viver no mágico sem pedir licença à razão. Em “O Luar”, ela desacelera o tempo, suspende o ruído do mundo e impõe a contemplação como experiência quase física. Em “A Lua e Eu”, ela funciona como espelho íntimo: não responde, mas escuta — e, nesse silêncio, obriga o sujeito a se encarar. Em “Mulher de Fases”, a Lua sai do céu e entra na psicologia: regula humor, desejo, contradição, tornando-se explicação poética para o imprevisível humano. Na capoeira angola, quando se canta “Noite sem Lua”, a ausência vira presença: sem luar não há só escuridão — há alerta, há tensão, há corpo atento no jogo, como se a Lua, mesmo quando não aparece, continuasse organizando o ritmo, o risco e a malícia. E quando o Balão Mágico canta “eu vivo sempre no mundo da lua”, não é só ingenuidade infantil — é declaração estética: a Lua como lugar de fuga, imaginação e liberdade, onde a lógica não manda e a realidade perde autoridade. Aqui, a Lua não ilumina só o céu. Ilumina o brasileiro por dentro. Explica comportamento, sentimento, instabilidade — e, quando necessário, ainda serve de desculpa elegante para aquilo que ninguém consegue explicar direito.
Aqui, a Lua não ilumina só o céu. Ilumina o brasileiro por dentro. Explica comportamento, sentimento, instabilidade — e, quando necessário, ainda serve de desculpa elegante para aquilo que ninguém consegue explicar direito.
O mundo canta a Lua. O Brasil mora nela.
E conversa com ela. Na música erudita e na literatura, a coisa fica ainda mais sofisticada. Claude Debussy não descreve a Lua em “Clair de Lune”. Ele faz a Lua soar. Dissolve forma, cria atmosfera, suspende o tempo. Álvares de Azevedo transforma a Lua em cúmplice da angústia, do desejo impossível, da morbidez romântica. Carlos Drummond de Andrade olha para a Lua e tira dela o glamour, expõe o vazio, desloca o sentido. A Lua vira ferramenta do pensamento. Tudo isso funcionando perfeitamente até o momento em que alguém, provavelmente com uma planilha aberta, pergunta: isso gera retorno? E é aí que a NASA entra em cena.
Chegou o síndico, o contrato e a guerra por metro quadrado no espaço

Imagem da Terra feita durante o Programa Artemis / Nasa no X
O Programa Artemis não quer saber de poesia, de simbolismo, de São Jorge, de lobisomem ou de serenata. Quer presença permanente. Quer base instalada. Quer exploração de recursos. Quer hélio-3, quer energia futura, quer logística para Marte. Quer transformar a Lua em infraestrutura. A Lua deixa de ser contemplação e vira plataforma. Sai o símbolo. Entra o sistema. Sai o santo. Entra o container, a antena, o contrato. E não é só a NASA. O lunático Donald Trump, que pode até não acreditar em santo na Lua, acredita em algo muito mais pragmático: domínio. Criou a Space Force, reposicionou o espaço como território estratégico, entendeu que a próxima fronteira não é ideológica, é orbital. A lógica é antiga, básica, quase infantil de tão eficiente: quem chega primeiro, manda. Quem manda, define a regra. Quem define a regra chama isso de cooperação internacional.
A Lua virou o novo condomínio de luxo do universo. E já tem gente escolhendo cobertura. Estados Unidos, China, Rússia, empresas privadas, bilionários com foguete próprio. Todo mundo olhando para a mesma bola branca no céu e vendo oportunidade. Recurso. Energia. Posição estratégica. Enquanto isso, do outro lado, um santo montado num cavalo branco, um dragão sendo vencido e milhões de pessoas olhando para a Lua e vendo sentido. E aí está o conflito que ninguém quer admitir. Não é técnico. É simbólico. A ciência diz que a Lua é rocha, poeira e recurso. A política diz que é território estratégico. A cultura brasileira insiste que é presença, que é morada, que é ocupação afetiva e espiritual. E presença não se regulamenta por decreto. Antes, a Lua explicava o humano. Era espelho da alma, da loucura, do amor, da solidão. Agora, o humano quer explicar a Lua, medir a Lua, explorar a Lua, regulamentar a Lua. Mas no Brasil ainda existe um ruído no sistema. A Lua não é só coisa. É alguém. E isso atrapalha qualquer plano de negócios. Porque você pode até instalar base, fincar bandeira, montar estação, explorar recurso. Mas não controla o que as pessoas veem quando olham para o céu. Não controla a narrativa que sustenta o imaginário coletivo. E sem narrativa, não há poder que dure. A Lua nunca foi neutra. Já foi musa, já foi monstro, já foi gatilho de loucura, já foi palco de amor, já foi santo, já foi espelho. Agora é ativo estratégico.
A mudança não está na Lua. Está na nossa intenção. E talvez essa seja a parte mais honesta de toda essa história. Porque, no fundo, desde a primeira vez que alguém olhou para a Lua e disse “te amo”, já havia ali um desejo de posse. De aproximação. De domínio. Só que embalado em poesia. Agora não tem mais poesia. Tem projeto. Enquanto a NASA prepara base e desenha infraestrutura, enquanto Trump e outros líderes pensam em domínio, o brasileiro olha para o céu e continua sabendo de uma coisa simples, quase infantil, mas profundamente política: tem alguém lá. E não é astronauta. Nunca foi. Se forem ocupar a Lua, vão ter que negociar. Não com tratado internacional. Mas com São Jorge. E com quem acredita nele.
— Em tempo: gracias, Rhyan de Meira, meu jovem editor, pela ideia do artigo!
(*) Rollo é ator profissional e ex-integrante do Conselho Estadual de Política Cultural do RJ na cadeira do Audiovisual. Atualmente, integra o elenco do espetáculo teatral “O Bem Amado”, de Dias Gomes, ao lado de Diogo Vilela, com direção de Marcus Alvisi.
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