Imagine o corpo em alerta constante, com o sistema imunológico trabalhando sem parar contra um inimigo que talvez nem exista mais. É assim que funciona a inflamação crônica, comum em condições como diabetes, câncer e doenças cardíacas. Para combater esse problema, uma estratégia eficaz é a dieta anti-inflamatória, que oferece diversos benefícios à saúde.
Segundo Patrícia Campos Ferraz, nutricionista da Faculdade de Saúde Pública e mestre em Ciência dos Alimentos pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, não se trata de uma moda passageira, mas de um padrão alimentar respaldado por estudos clínicos que ajuda a reduzir a inflamação crônica de baixo grau — aquela associada a doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, obesidade e doenças autoimunes.
Evidências científicas e indicações
O modelo mais estudado é o Predimed, um grande ensaio clínico espanhol publicado no New England Journal of Medicine. O trabalho mostrou redução significativa de eventos cardiovasculares com uma alimentação baseada em alimentos naturais, complementada com azeite de oliva ou oleaginosas.
“A inflamação crônica é, muitas vezes, silenciosa. Pode se manifestar como fadiga persistente, aumento de gordura abdominal, dores articulares leves ou alterações laboratoriais, como elevação da proteína C reativa ultrassensível”, destaca a nutricionista. Estudos como o Nurses’ Health Study mostram que padrões alimentares inflamatórios estão associados a maior risco de doenças crônicas ao longo do tempo. Ou seja, “a dieta anti-inflamatória não é apenas para quem já está doente — ela também funciona como estratégia preventiva”.
Essa dieta tem indicações consistentes como complemento no tratamento de condições como síndrome metabólica, esteatose hepática, doenças cardiovasculares e artrite reumatoide. Metanálises publicadas em revistas renomadas, como BMJ e Jama, mostram melhora nos marcadores inflamatórios e redução do risco cardiovascular com a adoção do padrão mediterrâneo de alimentação.
O que incluir e o que evitar
Entre os alimentos recomendados estão verduras, legumes e frutas variadas. No grupo das leguminosas, destacam-se feijão, grão-de-bico, lentilha e soja. Grãos integrais, como arroz integral e quinoa, também são boas opções. O azeite de oliva, rico em ômega-9, é indicado, assim como peixes ricos em ômega-3, especialmente os de águas profundas. Para completar, nozes e sementes são altamente recomendadas.
Ao mesmo tempo, é fundamental reduzir o consumo de ultraprocessados, como refrigerantes, sucos de caixinha, sorvetes industrializados, biscoitos e chocolates industrializados, que contêm poucos ingredientes naturais e contribuem para piorar o perfil inflamatório. Carnes processadas e o excesso de açúcar também devem ser evitados.
Como a dieta atua no organismo
A dieta anti-inflamatória atua por diferentes mecanismos: reduz a ativação de vias inflamatórias, como a NF-kappa B; melhora o microbioma intestinal; aumenta a produção de ácidos graxos de cadeia curta — importantes para as bactérias benéficas — e diminui o estresse oxidativo. “Ensaios clínicos mostram que a adesão a esse padrão alimentar provoca queda significativa da proteína C reativa e melhora do perfil glicêmico em poucas semanas, com efeitos clínicos importantes a médio e a longo prazo”, afirma a professora.
“A estratégia é segura, mas deve ser aplicada corretamente. Transformar a dieta anti-inflamatória em um regime extremamente restritivo, com exclusão de glúten, laticínios ou grupos alimentares inteiros sem indicação clínica, pode causar deficiências nutricionais e gerar uma relação disfuncional e estressante com a alimentação”, alerta a especialista.
Fonte: Jornal da USP.