A participação do dólar nas reservas globais caiu de 71% para 56,3% desde 2008. Enquanto isso, os BRICS constroem em silêncio um sistema financeiro paralelo — e o mercado de energia é o campo de batalha. Através de uma série de acordos discretos, mas estratégicos, os BRICS estão acelerando uma mudança que abala a ordem monetária estabelecida. O yuan, moeda chinesa, está gradualmente se afirmando no comércio de energia, apoiado por novas infraestruturas financeiras. Este movimento abre uma brecha na dominância do dólar e sinaliza uma mudança profunda no sistema monetário internacional.
Os BRICS, grupo composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, estão intensificando o uso do yuan em suas transações comerciais, especialmente no setor energético. Este movimento ocorre em um contexto de tensões geopolíticas, onde a moeda americana é vista como um instrumento de influência. Vladimir Putin, presidente da Rússia, resumiu essa percepção ao afirmar que “os Estados Unidos transformaram o dólar em uma arma”.
Essa visão é compartilhada por alguns analistas ocidentais. David Lubin, pesquisador do Chatham House, observa que “essa crescente sensação de que o dólar é usado como uma arma explica em parte por que sua dominância está sendo cada vez mais questionada”. Por trás dessas observações, emerge uma evolução tangível: o uso crescente de moedas alternativas nas trocas estratégicas, especialmente no setor de energia, historicamente estruturado em torno do dólar.
Exemplos concretos dessa mudança incluem a Índia, que comprou cerca de 60 milhões de barris de petróleo russo em março, parte dos quais foi paga diretamente em yuan. A Indian Oil Corporation realizou pagamentos sem conversão para o dólar, marcando uma ruptura técnica nas transações energéticas. Além disso, o Irã agora cobra seus pedágios no Estreito de Ormuz em yuan, totalizando cerca de 2 milhões de dólares por passagem, em uma área que representa quase 20% do petróleo mundial.
Além das transações de petróleo, uma transformação mais profunda está em andamento: a construção de um sistema financeiro paralelo. A plataforma mBridge já movimentou 387,2 bilhões de yuan (aproximadamente 55 bilhões de dólares), 95% dos quais em yuan digital. Separadamente, o sistema de pagamento chinês CIPS registrou 245 trilhões de dólares em transações em 2025. Essas infraestruturas oferecem alternativas concretas aos circuitos dominados pelo dólar, permitindo que os países participantes dos BRICS reduzam sua dependência do sistema financeiro ocidental.
Ao mesmo tempo, indicadores macroeconômicos confirmam essa evolução. A participação do dólar nas reservas globais caiu de 71% para 56,3% desde 2008, enquanto os bancos centrais acumularam mais de 1.000 toneladas de ouro por ano nos últimos três anos. Apesar disso, o dólar mantém uma posição dominante, ainda representando 89,2% das transações no mercado de câmbio, e o yuan é limitado pelos controles de capital chineses.
Essa dinâmica abre caminho para um sistema monetário mais fragmentado. Projeções mencionam um equilíbrio futuro entre vários polos, dominados pelo dólar, euro e yuan. Embora a mudança seja gradual, as mudanças observadas no comércio de energia e nas infraestruturas financeiras indicam que a transição já está em andamento, com implicações duradouras para a ordem econômica global.
A importância desse movimento reside na possibilidade de um sistema financeiro global mais equilibrado e menos dependente do dólar. Isso poderia reduzir a influência dos Estados Unidos na economia mundial e abrir espaço para novas potências econômicas, como os BRICS, moldarem o futuro das finanças globais. A transição para um sistema multipolar pode trazer estabilidade e novas oportunidades para países emergentes, promovendo um ambiente internacional mais democrático e inclusivo.
Com informações de cointribune.com.


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