Mulheres submetidas a cargas de trabalho extenuantes ganharam algum tipo de reconhecimento por meio de uma nota de política econômica do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), vinculado à Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP. Escala 7 x 0: a jornada que não acaba para as mulheres brasileiras baseia-se em dados aprimorados de uso do tempo, construídos a partir da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2019. As estimativas revelam que, somadas as horas remuneradas e não remuneradas, as mulheres no Brasil trabalham, em média, 58,1 horas semanais em comparação ao tempo de 50,3 horas reservado aos homens. O trabalho não remunerado das mulheres inclui o tempo gasto em atividades domésticas consideradas tipicamente femininas, como cozinhar ou lavar louça. “As mulheres gastam muito mais tempo com essas atividades de trabalho não remuneradas do que os homens. De modo que, apesar de terem uma jornada de trabalho mais curta no mercado formal ou no mercado informal, elas acabam tendo uma jornada total mais longa”, avalia Luiza Nassif, codiretora do Made, docente do Instituto de Economia da Unicamp e uma das autoras da nota.
Segundo ela, quando a jornada remunerada da mulher se mostra um tanto maior, o resultado é uma jornada não remunerada um pouco menor, já as mulheres com jornadas remuneradas menores apresentam maior jornada não remunerada. “A nossa leitura disso, e dos economistas de modo geral, não é que as mulheres estão ajustando as suas horas de jornadas não remuneradas às remuneradas. Normalmente é o contrário inclusive, elas acabam reduzindo as suas jornadas remuneradas para poder dar conta daquelas responsabilidades que têm no lar. Aí entra uma questão que é social, historicamente socialmente construída, das mulheres serem as principais responsáveis por cuidar dos filhos, cuidar das casas, é algo que realmente está muito enraizado na nossa cultura, e isso acaba fazendo com que sejam prejudicadas nessas jornadas remuneradas”, acrescenta Luiza. Ou seja, as mulheres acabam ajustando o seu tempo de cuidados no lar de acordo com a capacidade de compensar as horas das jornadas remuneradas.
“Mulheres de rendas mais altas vão conseguir contratar alguém para trabalhar dentro de casa, para cuidar dos seus filhos, ou pagar uma creche particular, ou então a gente tem também uma diferença entre os homens, pequena, mas a gente observa, em casais de escolaridade mais alta, que às vezes os homens participam um pouco mais das atividades domésticas.” Com isso, essas mulheres podem gastar menos horas no trabalho não remunerado e passar mais tempo no trabalho remunerado. Outras, por sua vez, não têm a mesma sorte e acabam por suportar duplas jornadas gigantescas. Mulheres que gastam muito tempo no trabalho remunerado, “na média, ainda têm um número grande de horas de trabalho não remunerado”. Tal fardo leva a uma sensação de que o trabalho nunca tem fim, impossibilitando momentos gastos com lazer ou cuidados pessoais, “que gera o que a gente chama na economia de pobreza de tempo”.
Responsabilidade dada à mulher. Luiza acrescenta um outro dado: homens com altas horas de trabalho remunerado e homens desocupados têm, em média, o mesmo número de horas semanais, cerca de oito ou nove horas. No grupo de desocupados, pessoas que gostariam de estar trabalhando, mas ainda não estão, o número de horas é tão baixo quanto o número de pessoas ocupadas numa jornada de 40 horas. “Isso a gente vê no mundo inteiro, já trabalhei com esses dados para diversos países do mundo, e é uma coisa muito comum de se observar, que prova que é uma questão de gênero mesmo, não é uma questão de disponibilidade no lar, é uma questão de isso ter sido dado para as mulheres como uma responsabilidade delas.”
Uma agenda de valorização de trabalho não remunerado e de redução de jornada, aliada a políticas públicas, muito poderiam contribuir para uma mudança de cenário. “O Brasil lançou recentemente o Plano Nacional de Cuidados, que é uma iniciativa muito legal, feita pela Secretaria de Cuidados do Ministério do Desenvolvimento Social e do Ministério das Mulheres e que pretende ter um aumento dessas políticas das creches públicas, lavanderia pública, um monte de iniciativas que, de alguma forma, conseguiriam pelo menos reduzir a carga que fica sobre a família e redistribuir uma parte disso para o Estado. Dentro disso, entram também políticas de transformação cultural, uma tentativa realmente de a gente começar a mexer nessa distribuição dentro do lar e aos poucos conseguir desconstruir essa ideia de que o trabalho de cuidados não é trabalho, de que ele é feito por amor e não por trabalho produtivo, e de que ele seria responsabilidade das mulheres e que os homens, na verdade, estão ali para, de vez em quando, ajudar em casa, e não como uma responsabilidade que também é deles, porque cuidar da casa é uma responsabilidade de todos”, finaliza a professora.
Fonte: Jornal da USP.

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