Em 2024, pela primeira vez, o comércio entre o Golfo Árabe e a China — US$ 257 bilhões — superou o volume negociado com países ocidentais, ficando US$ 1 bilhão à frente. Esse indicador sinaliza deslocamento no centro financeiro global.
Sistemas de pagamento alternativos ao Swift, Visa e Mastercard respondem não apenas a ambições geopolíticas, mas a rearranjos econômicos e tecnológicos em curso. O projeto mBridge é um exemplo avançado: reúne bancos centrais da China, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Hong Kong e Tailândia para operar uma plataforma digital de moedas emitidas por bancos centrais (CBDCs), viabilizando transferências em tempo real entre países signatários.
Na área do Golfo Árabe, o sistema regional AFAQ, operado pela Gulf Payments Company sob responsabilidade dos bancos centrais da Cooperação do Golfo (GCC), integra plataformas diversas. Pagamentos entre países do bloco agora ocorrem em tempo real, com taxas reduzidas e infraestrutura simplificada.
Entre 2010 e 2024, o comércio intra-GCC cresceu de US$ 58 bilhões para mais de US$ 146 bilhões. O volume representa cerca de 3,2% do comércio mundial, com crescimento anual de 9,08% entre 2023 e 2024.
O dólar mantém dominância por meio das stablecoins — moedas digitais lastreadas na moeda americana. Empresas como Circle e Tether continuam mantendo estoques elevados de títulos do Tesouro dos EUA, financiando parte do déficit fiscal norte-americano. Entretanto, autoridades monetárias perdem parte do controle direto sobre a política global quando entidades privadas definem padrões de emissão e circulação monetária.
A tecnologia também desempenha papel central nessa transformação. O número de países com sistemas de pagamento em tempo real ultrapassa cem. Sistemas instantâneos reduzem o uso de cartões e dinheiro físico, exigindo regulamentação atualizada, segurança digital reforçada e infraestrutura robusta. Países emergentes precisam garantir autonomia institucional para evitar dependência de redes estrangeiras sujeitas a sanções.
Essa revolução nos pagamentos redefine o poder financeiro global. Países antes dependentes de redes dolarizadas passam a buscar autonomia econômica e política. O Brasil, por meio de iniciativas como o Pix, está melhor posicionado diante dessa nova ordem. Sistemas regionais e multilaterais ganham força frente a sanções econômicas. A multipolaridade financeira torna-se concreta à medida que tecnologia, legislação e modelos regionais criam padrões próprios.
Com informações de gulf-times.com.