Pesquisadores da Case Western Reserve University identificaram que bactérias intestinais produzem formas inflamatórias de glicogênio — um tipo de polissacarídeo — que estimulam respostas imunes capazes de prejudicar neurônios em modelos experimentais de Esclerose Lateral Amiotrófica (ALS) e Demência Frontotemporal (FTD), de acordo com informações divulgadas pelo próprio centro de pesquisas. Case Western Reserve University publicou as descobertas em relatório recente.
No estudo, publicado em Cell Reports, foi examinado um grupo de 23 pacientes diagnosticados com ALS ou FTD, entre os quais aproximadamente 70% apresentaram níveis elevados do glicogênio bacteriano inflamado. Em comparação, apenas cerca de um terço dos indivíduos sem essas condições demonstraram quantitativos semelhantes — resultado que sugere correlação entre esse tipo de açúcar bacteriano e manifestações da doença, especialmente em portadores da mutação genética C9orf72. Fonte da universidade.
A mutação C9orf72 é reconhecida como causa genética frequente de ALS e FTD, porém muitos portadores não desenvolvem sintomas. Os pesquisadores destacam que os achados apontam para a microbiota intestinal como possível elemento ambiental capaz de influenciar esse desfecho, operando em conjunto com predisposições genéticas. Relatório institucional.
Os experimentos foram realizados em camundongos criados em ambientes livres de germes (“germ-free mice”), alojados em sistema estéril denominado “cage-in-cage”, concebido para isolar variáveis microbianas. Nessas condições, a introdução de bactérias produtoras do glicogênio inflamatório agravou marcadores imunológicos e patologia cerebral em modelos com deficiência da proteína codificada pelo gene C9orf72. Por outro lado, intervenções que degradaram esse glicogênio ou reduziram sua produção resultaram em melhora funcional, redução de inflamação neural e extensão na sobrevivência dos animais. Case Western Reserve University.
Os autores observam que esses resultados não constituem prova de que o glicogênio bacteriano causa ALS ou FTD em seres humanos, mas indicam que esse composto pode contribuir para processos inflamatórios associados às doenças. Eles sugerem que o glicogênio bacteriano pode funcionar como marcador para identificar pacientes em risco elevado e alvo para terapias futuras. Declarações dos pesquisadores.
Os pesquisadores estimam que, com base nos dados experimentais, estudos clínicos para testar se a degradação desse glicogênio em pacientes com ALS/FTD poderá retardar a progressão da doença poderiam começar dentro de um ano, segundo declaração do líder do projeto. No entanto, eles destacam que tais ensaios exigem aprovação regulatória, recrutamento adequado e monitoramento cuidadoso de segurança e eficácia. Fonte institucional.
A descoberta reforça a hipótese de que as interações entre genótipo e microbiota desempenham papel importante na patologia de doenças neurodegenerativas que até agora têm poucas opções terapêuticas eficazes. A modulação da microbiota intestinal ou o uso de enzimas para degradar compostos microbianos prejudiciais aparecem como caminhos de investigação promissores, mas cuja tradução clínica demanda estudos humanos maiores e validação completa dos mecanismos identificados.