A CPI do Crime Organizado terminou nesta terça-feira (14) da forma mais previsível possível: sem relatório aprovado, sem indiciamento de criminosos e sem qualquer avanço concreto contra as organizações que dominam territórios no Brasil. O relatório do senador Alessandro Vieira (MDB-SE) foi rejeitado por 6 votos a 4, e o motivo é simples de entender: em vez de mirar no crime organizado, Vieira resolveu mirar no Supremo Tribunal Federal.
O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), resumiu bem o problema. Se o relator tivesse mantido apenas as sugestões legislativas, teria o voto da base governista, mas ao transformar a CPI numa plataforma de ataque ao STF, tornou o relatório inviável.
Rogério Carvalho (PT-SE) foi ainda mais direto ao apontar o vazio do trabalho. Existem 78 organizações criminosas mapeadas no Brasil, entre elas o PCC e o Comando Vermelho, mas a CPI não avançou na identificação de nenhuma delas nem apontou nomes de criminosos para indiciamento.
Humberto Costa (PT-PE) lembrou o óbvio: CPI é instrumento de investigação, não palco para achaques, vingança ou “justiçamento”. O próprio presidente da comissão, Fabiano Contarato (PT-ES), embora reconhecendo que decisões do STF atrapalharam os trabalhos, votou contra o relatório por entender que não se provou a intenção criminosa dos ministros.
Agora vamos ao ponto que realmente intriga.
Alessandro Vieira apoiou Bolsonaro em 2018. Elegeu-se senador naquela onda e parecia destinado a ser mais um soldado do bolsonarismo no Senado. Mas aí veio a CPI da Covid, e Vieira surpreendeu. Defendeu a ciência, defendeu as vacinas, fez perguntas duras aos negacionistas e saiu daquela comissão com uma reputação de senador independente, capaz de colocar o interesse público acima da tribo. Muita gente passou a respeitá-lo justamente por isso.
Ninguém entendeu, portanto, o que levou Vieira a apresentar um relatório pedindo o indiciamento dos ministros Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, além do procurador-geral Paulo Gonet, por crimes de responsabilidade. Uma CPI criada para investigar facções criminosas terminou mirando no Judiciário, numa pauta que poderia ter sido redigida pelo núcleo duro do bolsonarismo.
É como se a CPI da Covid nunca tivesse existido. O senador que se notabilizou por enfrentar o obscurantismo agora entrega de bandeja ao bolsonarismo o roteiro que eles sempre quiseram: usar o Congresso para enquadrar o STF. Não importa se Vieira acredita sinceramente que os ministros erraram. O efeito prático do seu relatório seria abrir caminho para processos de impeachment contra membros da corte, exatamente a agenda que a extrema direita brasileira persegue desde que o Supremo começou a responsabilizar os golpistas de 8 de janeiro.
Os fatos falam por si. Em 18 reuniões e cinco meses de trabalho, a CPI ouviu 19 depoimentos, aprovou 178 requerimentos e autorizou 37 transferências de sigilo. Todo esse aparato institucional para, no fim, não indiciar um único chefe do tráfico, um único operador de lavagem de dinheiro, um único político ligado a facções. O produto final foi uma tentativa de indiciamento de ministros do STF.
E as ausências do relatório são tão eloquentes quanto as presenças. A CPI sequer ouviu Cláudio Castro, o ex-governador do Rio de Janeiro afastado por corrupção, declarado inelegível pelo TSE, que desviou R$ 1 bilhão do fundo de aposentadoria dos servidores do estado para abarrotar os cofres do Banco Master. Também não foi chamado a depor Rodrigo Bacellar, o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio preso duas vezes por ordem de Alexandre de Moraes por vazamento de informações sigilosas ao Comando Vermelho. A Polícia Federal atribuiu a Bacellar a “liderança do núcleo político” de uma organização criminosa ligada à maior facção do Rio. Um político preso por colaborar com o tráfico, e a CPI do Crime Organizado simplesmente ignorou sua existência.
Mas talvez a ironia mais cruel de toda essa história tenha nome e sobrenome. Um dos integrantes mais ativos da CPI foi o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que ocupava nada menos que a presidência da Comissão de Segurança Pública do Senado. O mesmo Flávio Bolsonaro cuja trajetória política no Rio de Janeiro é uma enciclopédia das relações entre poder público e crime organizado.
Convém relembrar. Adriano Magalhães da Nóbrega era ex-capitão do Bope e chefe do grupo de matadores de aluguel conhecido como Escritório do Crime, apontado como líder da milícia de Rio das Pedras. Foi morto em 2020 num controverso cerco policial na Bahia, quando estava foragido havia mais de um ano. Flávio Bolsonaro homenageou Adriano na Alerj com moção de aplausos e com a Medalha Tiradentes, uma das mais altas honrarias da Casa, quando o miliciano já respondia a acusações criminais. A mãe e a ex-esposa de Adriano, Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa, foram empregadas no gabinete de Flávio. A mãe do miliciano foi denunciada pelo Ministério Público em março deste ano por lavagem de dinheiro para o Escritório do Crime, envolvendo uma rede de empresas de fachada que movimentou R$ 8,5 milhões.
Fabrício Queiroz, policial militar reformado e amigo pessoal da família Bolsonaro, era o outro elo dessa engrenagem. Apontado como operador financeiro do esquema de rachadinha no gabinete de Flávio na Alerj, Queiroz teve movimentações atípicas de R$ 1,2 milhão identificadas pelo antigo Coaf. O Ministério Público estimou o desvio total em cerca de R$ 6 milhões e denunciou Flávio como líder da organização criminosa. O caso foi anulado por questões processuais, sem julgamento de mérito. Queiroz, por sua vez, mantinha relação íntima com Adriano da Nóbrega desde 2003, quando serviram juntos no 18º Batalhão da PM. O miliciano teria repassado mais de R$ 200 mil a Queiroz, segundo as investigações.
Rodrigo Bacellar, o ex-presidente da Alerj preso por ligação com o Comando Vermelho, era aliado direto de Flávio Bolsonaro. Em maio de 2025, o próprio Bolsonaro pai o anunciou como candidato ao governo do Rio pelo campo bolsonarista. Ou seja, o político que o bolsonarismo escolheu para governar o estado acabou preso por vazar operações da Polícia Federal para o tráfico de drogas. E a CPI do Crime Organizado, com Flávio sentado confortavelmente entre seus membros, não dedicou uma única sessão a esclarecer essas conexões.
Eduardo Girão (Novo-CE) e Marcio Bittar (PL-AC) reclamaram que houve “manobra” do governo ao trocar membros da comissão antes da votação, incluindo a saída de Sergio Moro. Pode até ter havido movimentação política, como sempre há em CPIs. Mas a pergunta que Girão e Bittar não respondem é outra: por que o relatório não indiciou Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, nem Roberto Campos Neto, que autorizou a compra do banco? Essa pergunta, aliás, vários senadores fizeram durante a sessão, e ficou sem resposta.
A trajetória de Alessandro Vieira parecia ser a de um político que aprendeu com os próprios erros. Apoiou Bolsonaro, viu o desastre, corrigiu o rumo na CPI da Covid e ganhou credibilidade. Agora, ao transformar uma CPI sobre crime organizado num tribunal contra o STF, Vieira não apenas desperdiçou o trabalho da comissão como revelou que a recaída bolsonarista é sempre uma possibilidade, mesmo para quem parecia curado.